Ayla Solano
Ayla não aceitou minha resposta como a maioria das pessoas faria. Em vez disso, deu um passo à frente, me obrigando a encará-la. Havia algo nos olhos dela, algo que parecia ver além das minhas palavras.
— Acho que importa, sim — disse ela. — Você pode fingir que está aqui apenas para sobreviver, mas ninguém luta tão ferozmente assim sem ter algo a proteger.
Ela estava errada. Ou pelo menos, era isso que eu queria acreditar. Não havia nada para proteger. Não mais. Meu passado era uma ferida cicatrizada, algo que eu havia enterrado junto com qualquer esperança de querer algo além de sobreviver.
Mas Ayla... Ayla era diferente. Ela não apenas sobrevivia. Ela procurava algo. Talvez fosse isso que me inquietava nela. Ela ainda acreditava que havia algo a ser encontrado.
— Vamos acabar com isso — disse finalmente, mudando de assunto.
A caminhada continuou, mas o silêncio entre nós agora estava carregado. Cada passo que eu dava parecia ecoar com as perguntas que Ayla plantara na minha mente. E o pior de tudo era que eu não sabia se queria as respostas.
A floresta explodiu em movimento, o som das criaturas avançando como uma tempestade rugindo em direção a nós. Eu já estava em minha forma lupina antes mesmo de perceber. Cada músculo do meu corpo estava pronto para o combate, os instintos ancestrais queimando em meu sangue.
Quando a menina saiu das sombras, eu fiquei paralisado por um instante. Ela parecia tão frágil, tão pequena, com os olhos enormes e assustados. Seus pés descalços estavam cobertos de terra, e o vestido que ela usava estava rasgado, como se tivesse corrido por dias sem descanso. Era impossível não notar o medo estampado em seu rosto, mas havia algo mais. Algo que me deixou inquieto.
Ayla estava atrás de mim, o símbolo em sua mão brilhando como um farol. A criança, ainda tremendo, agarrava-se à perna dela, mas não era medo o que eu via nos olhos da pequena. Era algo mais profundo — pavor misturado com conhecimento, como se ela entendesse o que estava prestes a acontecer.
As criaturas eram rápidas, suas formas negras se fundindo com as sombras da floresta enquanto se aproximavam. Eu avancei antes que elas pudessem nos cercar, minhas garras rasgando a primeira que chegou perto. O cheiro da substância n***a que compunha seus corpos era horrível, ácido, queimando minhas narinas.
— Elas não param de vir! — gritei por cima do ombro, desviando de um ataque e derrubando outra criatura.
— Só mais alguns segundos! — Ayla respondeu, sua voz carregada de urgência. O brilho em sua mão aumentava, iluminando a clareira ao nosso redor.
As criaturas hesitaram por um instante, como se sentissem o poder emanando dela, mas isso só as deixou mais frenéticas. Elas começaram a atacar em ondas, tentando me sobrecarregar. Cada golpe meu deixava rastros no chão, mas por cada uma que eu derrubava, duas pareciam tomar o lugar.
Eu podia sentir o cansaço começando a pesar, mas a determinação de proteger Ayla e a criança me mantinha de pé.
— Ayla, seja lá o que você está fazendo, faça mais rápido! — rosnava, enquanto desviava de mais um ataque.
Ela não respondeu, mas eu podia sentir a intensidade crescente de seu poder. O ar ao nosso redor ficou carregado de energia, como se a floresta inteira estivesse prendendo a respiração.
Então, de repente, uma explosão de luz se espalhou pela clareira, queimando as sombras e empurrando as criaturas para longe. Eu ofeguei, sentindo o calor da magia vibrando pelo solo.
Quando o brilho diminuiu, olhei para Ayla. Ela estava exausta, mas seus olhos ainda brilhavam, fixos em mim. A criança continuava agarrada a ela, mas agora, seu olhar não era apenas de medo. Era esperança.
Quando o silêncio caiu novamente, o brilho no símbolo diminuiu, e Ayla caiu de joelhos, ofegando. Eu voltei à forma humana, sentindo a exaustão me dominar, mas ainda atento a qualquer som.
— O que foi isso? — perguntei, meu tom mais duro do que pretendia. — O que você fez?
Ela olhou para mim, o rosto pálido e os olhos cansados, mas firmes.
— Proteção temporária. Não vai durar muito. Elas voltarão... e em maior número.
— Então precisamos sair daqui. Agora. — Eu olhei para a criança, que permanecia imóvel ao lado dela. — Quem é ela? O que ela quis dizer com "eles estão vindo"?
Ayla passou a mão pelo rosto, claramente tentando juntar seus pensamentos.
— Não sei quem ela é, mas acho que ela sabe algo sobre essas criaturas. Sobre por que estão nos seguindo.
A menina olhou para nós, os olhos arregalados e cheios de lágrimas. Sua voz era um sussurro, mas carregava o peso do medo.
— Eles querem o símbolo. E não vão parar até conseguirem.
Olhei para Ayla, meu estômago revirando. Claro que queriam. Sempre havia algo maior, algo mais perigoso. A questão agora era: quantas vezes mais eu precisaria lutar para proteger um segredo que nem sequer era meu?
— Isso está ficando pior. — disse eu, olhando para o vazio onde as criaturas haviam desaparecido.
Ayla assentiu, os olhos ainda fixos na menina.
— E estamos ficando sem tempo.
Ela se aproximou de mim, e por um instante, nossos olhares se encontraram. Havia cansaço ali, mas também algo mais... algo que fez meu coração acelerar. Eu quis dizer algo, aliviar aquele peso que pairava entre nós, mas antes que pudesse falar, ela tocou minha mão. Seu toque era quente, contrastando com o frio ao nosso redor.
— Vamos juntos, Rick. Não importa o que venha a seguir, enfrentaremos isso juntos. — Sua voz era firme, mas carregava uma doçura inesperada.
Apertei sua mão de leve, um gesto silencioso de promessa. Não sabia o que nos esperava, mas naquele momento, algo dentro de mim mudou. Talvez houvesse mais do que apenas sobrevive