Rick Dowson
A luz filtrada pelo sol m*l iluminava a caverna, mas era suficiente para me arrancar de um sono inquieto. Meus pensamentos ainda estavam presos na noite anterior, no toque macio dos lábios de Ayla nos meus, no gosto doce e perigoso daquele beijo. Mas também na incerteza que ele havia trazido. Eu não podia confiar nela, mas meu corpo parecia discordar.
Abri os olhos devagar, sentindo a exaustão pulsar em cada músculo. A noite havia sido longa, repleta de tensão e perigo, mas também de um desejo que ainda queimava em mim. Tudo o que eu queria era mais uns minutos para processar o que aquilo significava. Mas, ao me levantar, percebi que Ayla já estava acordada.
Ela estava sentada perto da entrada da caverna, os olhos fixos no horizonte, como se estivesse procurando algo que apenas ela podia ver. Sob a luz do dia, ela parecia diferente. Ainda carregava aquele ar enigmático, mas agora havia algo novo — um cansaço profundo, uma inquietação silenciosa. O vento bagunçava seus cabelos, e a forma como ela mordeu o lábio inferior por um instante me fez querer beijá-la de novo, sentir de novo aquela conexão inexplicável.
Por um momento, hesitei. Ayla era um enigma. Cada movimento dela era calculado, cada palavra carregava um peso que eu não podia decifrar. Ela guardava segredos. Segredos que podiam tanto me salvar quanto me condenar. E o pior de tudo era que eu não sabia de que lado ela estava.
— Você sempre acorda tão cedo? — perguntei, minha voz rouca quebrando o silêncio.
Ela virou o rosto na minha direção, um sorriso suave brincando em seus lábios, mas seus olhos carregavam algo mais sombrio.
— Difícil dormir quando você sabe que algo ou alguém pode estar te caçando — respondeu ela, sua voz baixa, quase como um sussurro que arrepiou minha pele.
A lembrança de nosso beijo brilhou entre nós por um instante, como um segredo compartilhado no meio do caos. Eu queria falar sobre isso, queria saber se ela também sentia aquele fogo incontrolável que queimava dentro de mim. Mas as palavras não saíram. Em vez disso, minha mente entrou em alerta com o que ela disse. Levantei-me, indo até ela, cada sentido meu afiado. O cheiro de terra molhada e folhas preenchia o ar, mas havia algo além disso. Algo que eu não conseguia identificar, mas que fazia meus instintos gritarem.
— Então você sentiu? — perguntei.
— Sim. — Ela apontou para a floresta com um movimento de cabeça. — Algo está se movendo lá fora.
Minha mandíbula se contraiu. O jogo de ser caçado estava me desgastando. Mas, naquele momento, o que mais me incomodava não era o perigo ao nosso redor. Era o espaço entre nós. O fato de que, apesar de tudo, eu ainda queria segurá-la, puxá-la para perto e descobrir se aquele beijo tinha sido real para ela tanto quanto fora para mim.
— É diferente de ontem à noite — continuou ela, levantando-se devagar. — Não é como aquela criatura. É mais... fraco, mas constante. Como se estivesse nos observando.
A tensão estava ali, entre o perigo e o desejo, entre a incerteza e a necessidade de tê-la novamente. Antes que eu pudesse decidir entre enfrentá-la ou ceder, um som cortou o ar, vindo da floresta. Um estalo seco, seguido de um movimento rápido entre as árvores. Ayla e eu trocamos um olhar.
Seja lá quem estivesse nos observando, acabara de revelar sua presença. E eu estava pronto para enfrentá-lo.
Minha mente entrou em alerta. Levantei-me, indo até ela, cada sentido meu afiado. O cheiro de terra molhada e folhas preenchia o ar, mas havia algo além disso. Algo que eu não conseguia identificar, mas que fazia meus instintos gritarem.
— É diferente de ontem à noite — continuou ela, levantando-se devagar. Seus olhos brilhavam na penumbra, refletindo o mistério ao nosso redor. — Não é como aquela criatura. É mais... fraco, mas constante. Como se estivesse nos observando.
Meu maxilar enrijeceu, sentindo a irritação se misturar com um sentimento que eu não queria admitir: preocupação. Estávamos vulneráveis, presos em um jogo que não compreendemos. A sensação de sermos observados era pior do que enfrentar um inimigo visível.
— Seja lá quem ou o que for, não vai durar muito se resolver aparecer — resmunguei, o tom baixo e carregado de intenção.
Ela riu baixinho, um som suave que pareceu deslizar pelo ar até mim, mas seus olhos continuavam sérios, analisando cada detalhe ao redor.
— Gosto da sua confiança, Rick. Mas talvez devêssemos descobrir o que é antes de atacarmos.
Por um instante, pensei em contrariá-la. Meu impulso sempre foi resolver as coisas rápido, sem rodeios. Mas, por mais que eu odiasse admitir, Ayla tinha razão. Não dava para lutar contra algo que eu nem entendia.
— Tudo bem. Vamos caçar. — Apontei para a floresta, sinalizando para que ela me seguisse.
Caminhar ao lado de Ayla era como dividir espaço com uma fera selvagem. Ela era silenciosa, precisa, como se fosse parte da floresta. Cada movimento dela parecia natural, enquanto eu me forçava a ignorar o som das folhas sob minhas botas. Ela era a personificação do mistério, uma sombra graciosa que deslizava pela escuridão.
O silêncio só foi quebrado quando ela perguntou, em um tom baixo e carregado de curiosidade:
— Você sempre foi assim?
— Assim como? — perguntei, sem olhar para ela.
— Intenso. Sempre no controle.
Eu ri, mas foi um riso seco, vazio, carregado de algo que nem eu sabia explicar.
— Controle é uma ilusão, Ayla. Eu faço o que é necessário. Só isso.
Ela parou de andar, e quando virei o rosto, encontrei seu olhar fixo em mim. Havia um brilho ali, algo que fez meu coração perder o ritmo por um instante. Uma promessa silenciosa, um desafio.
— Talvez o necessário não seja tudo o que existe, Rick. Talvez você não precise carregar o peso do mundo sozinho.
O vento soprou entre as árvores, carregando seu perfume, um misto de terra e algo doce, inebriante. Engoli em seco, desviando o olhar. Porque, pela primeira vez em muito tempo, não tive uma resposta imediata. Mas talvez... apenas talvez... ela estivesse certa.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, mas eu senti que ela ainda estava me observando. Então, com uma suavidade que quase me desarmou, ela perguntou: — E o que você quer?
Essa pergunta me atingiu como um golpe. O que eu queria? Fazia tanto tempo que eu deixara de pensar nisso que a ideia parecia quase estranha. Não era sobre o que eu queria. Nunca foi. Era sobre o que precisava ser feito.
— O que eu quero não importa — respondi, desviando o olhar. — Nunca importou.