Capítulo 2

1232 Palavras
Rick Dawson A floresta estava inquieta naquela noite. O vento cortava as árvores, fazendo as folhas sussurrarem segredos que só os predadores sabiam interpretar. Cada estalo de galho parecia um aviso, mas eu não precisava de alertas. Meu corpo já estava em estado de atenção máxima, os sentidos aguçados, os músculos preparados para qualquer ameaça. Ou talvez não fosse uma ameaça. Talvez fosse algo muito pior. Caminhei pela penumbra, guiado pelo instinto que queimava em meu peito. Eu não sabia o que procurava, mas sabia que estava próximo. A lua cheia acima iluminava meu caminho, refletindo a verdade que eu sempre tentei ignorar: eu podia fugir de muitas coisas, mas não do que estava destinado a ser. Eu, Rick Dawson, não era apenas um lobisomem. Eu era o Alfa. Não por escolha, mas por imposição. Carreguei esse fardo desde cedo, assumindo a liderança quando ainda era jovem demais para compreender o peso que isso significava. Sentimentos eram fraqueza. O amor, um risco que eu jamais poderia me permitir. Mas então, eu a senti. Um cheiro invadiu meus pulmões, doce e amadeirado, carregando um toque selvagem que me atingiu como um golpe certeiro. Meu corpo inteiro enrijeceu, a fera dentro de mim despertando em um frenesi primitivo. O desejo veio como uma tempestade, avassalador, incontrolável. Eu precisava encontrá-la. Segui o aroma, meus passos rápidos e silenciosos, cada movimento me levando para mais perto do que eu já sabia ser meu. E então, a vi. Ayla. Ela estava ali, descalça, com os pés mergulhados no riacho. A água refletia a luz da lua, dançando em pequenos reflexos ao redor dela. Seu cabelo escuro caía sobre os ombros, a moldura perfeita para um rosto que parecia pertencer à própria floresta. Havia algo de etéreo nela, algo que me fazia questionar se era real ou uma ilusão c***l do destino. Mas eu sabia a resposta. Ela era real. E era minha. Parei entre as sombras, observando. Cada detalhe dela parecia ter sido desenhado para me provocar, para testar meu autocontrole — que, naquele momento, estava se desfazendo rápido demais. Meu peito ardia com emoções que eu não compreendia. Era desejo? Sim. Mas também era fúria. Como ela ousava me fazer sentir assim? Então, como se já soubesse da minha presença, ela ergueu o olhar e me encontrou. Seus olhos, profundos e intensos, não vacilaram. Eles me desafiaram, como se me conhecessem antes mesmo de eu pronunciar uma palavra. — Quem é você? — sua voz cortou o silêncio, baixa, firme. Avancei um passo, deixando que a lua revelasse meu rosto. — Rick — respondi, minha voz carregada de gravidade. — Não costumo encontrar ninguém aqui. Ainda mais... humanos. Ela arqueou uma sobrancelha, um sorriso divertido surgindo em seus lábios. — Humanos? E o que você acha que você é? Não respondi imediatamente. Nunca fui um homem que se explicava. — Alguém que deveria te tirar daqui — murmurei, e minha voz saiu mais rouca do que eu esperava. Ela riu. Não um riso de nervosismo, mas de pura provocação. — Claro. Porque você manda na floresta, não é? Minhas presas pressionaram contra a gengiva. Ela não fazia ideia do perigo que corria. Avancei outro passo, meu corpo tomado pelo instinto de protegê-la e possuí-la ao mesmo tempo. — Não só na floresta. Eu mando onde eu estiver. — Meus olhos cravaram nos dela. — E você não deveria estar aqui, Ayla. Este lugar não é seguro. Ela não recuou. Pelo contrário, algo em seu olhar brilhou com desafio. — Talvez eu goste de perigo. O sangue ferveu em minhas veias. Aproximei-me ainda mais, a tensão entre nós elétrica, brutal. Meu olhar prendeu o dela, e naquele momento, não havia mais dúvida. — Então você acabou de encontrar o suficiente para uma vida inteira — murmurei. — Porque agora, você está no meu mundo. Aquela mulher tinha algo errado. Ou talvez, algo extraordinário. Quando Ayla retrucou, levantando-se diante de mim, percebi que ela não era como ninguém que eu já tinha encontrado. Pequena, em comparação comigo, mas sua presença parecia dominar a clareira inteira. Ela exalava uma confiança perigosa, como se soubesse exatamente o impacto que causava. Não havia medo em seus olhos, apenas desafio. — Quem disse que eu preciso de segurança? — sua voz firme cortou o silêncio da noite. Cruzei os braços, analisando-a. Havia algo nela que me intrigava e me irritava ao mesmo tempo. Sua ousadia era fascinante, mas também me desafiava de uma forma que eu não podia aceitar. Dei um passo à frente, meu olhar fixo no dela, deixando claro que não estava acostumado a ser questionado. Ela inclinou a cabeça levemente, como se estivesse tentando me decifrar. Ou pior, como se me considerasse um desafio. — Bem, Rick, você parece o tipo que esconde muitos segredos. Talvez até mais do que eu. A provocação me fez estreitar os olhos, mas antes que eu pudesse responder, o som de algo se movendo nas sombras cortou o ar. Um farfalhar nas árvores, seguido por um rosnado baixo. O perigo estava próximo. Minha postura ficou rígida, os instintos assumindo o controle. — Fique aqui. Não se mova — ordenei, minha voz carregada de autoridade. Eu não estava pedindo. Mas Ayla apenas cruzou os braços, o olhar desafiador ainda cravado em mim. — Eu não sou de obedecer ordens. Eu cerrei os dentes. Ela não sabia no que estava se metendo. Ou talvez soubesse, e isso só me irritava mais. Não havia tempo para discutir. Senti a transformação começar. A energia crua e selvagem queimando dentro de mim, forçando meu corpo a se remodelar. Ossos se expandiram, músculos se dilataram. Em segundos, minha forma humana desapareceu. Agora, eu era o lobo. Grande, imponente, com a pelagem acinzentada e olhos dourados brilhando como brasas. A criatura emergiu das sombras. Um invasor. Um inimigo. Avancei com força total, o choque das nossas garras e presas ecoando pela noite. Era um combate brutal, um duelo de puro instinto e força. Cada golpe, cada investida, alimentado pelo que eu sabia que estava em jogo. Eu não lutava apenas para me defender. Eu lutava por algo maior. Eu lutava por ela. Quando o inimigo caiu morto aos meus pés, minha respiração estava pesada, o peito subindo e descendo com força. Meu corpo retornou lentamente à forma humana, o calor da batalha ainda pulsando em minhas veias. Olhei para Ayla, esperando encontrar medo em seus olhos. Qualquer humano normal sentiria terror ao testemunhar uma transformação como a minha. Mas ela estava calma. Demais. — Você não parece surpresa — minha voz saiu rouca, carregada do resquício da transformação. Ela deu de ombros, um sorriso intrigante brincando em seus lábios. — E por que eu deveria estar? Você acha que é o único aqui com segredos? As palavras dela foram um golpe inesperado, mas não deixei transparecer. Dei um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. Ela não recuou, mantendo o olhar fixo no meu. — Você pode ter segredos, Ayla — murmurei, minha voz baixa e carregada de ameaça. — Mas entenda uma coisa… No meu mundo, eu sou o alfa. Eu decido. E agora, você está no meu mundo. O ar entre nós estava carregado de tensão. De algo primal. De algo inevitável. E naquele instante, eu soube. Ayla não era apenas uma intrusa. Ela era um problema. Um problema que eu não estava disposto a deixar escapar.
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