Rick Dowson
A fogueira crepitava suavemente, lançando sombras dançantes nas árvores ao nosso redor. O cheiro da madeira queimada se misturava ao ar frio da noite, criando um contraste entre o calor do fogo e a escuridão que nos envolvia. Ayla estava sentada do outro lado, os olhos fixos nas chamas, mas eu sabia que ela estava imersa em pensamentos. O peso de tudo o que enfrentamos até agora pairava sobre nós, mas, por alguma razão, minha mente se recusava a se fixar no perigo.
Minha atenção estava nela.
Ayla era um enigma, uma força que oscilava entre o fogo e a calma. Havia algo nela que me desarmava, algo que fazia com que o caos ao nosso redor parecesse distante, ainda que apenas por um instante. Eu sabia que isso era perigoso. Permitir-me baixar a guarda por causa dela era um risco que eu não poderia correr. Mas, ao mesmo tempo, havia uma parte de mim que ansiava por essa distração.
O silêncio entre nós era carregado, denso, como se estivéssemos prestes a cruzar uma linha invisível.
— Você está muito quieto. — A voz dela rompeu o silêncio, baixa e suave, mas carregada de curiosidade.
Levantei os olhos para encontrar os dela, e o impacto foi imediato. Olhos profundos, intensos, cheios de perguntas que talvez ela mesma não soubesse formular.
— Pensando. — Respondi.
Ayla arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto surgindo em seus lábios, e algo dentro de mim se apertou.
— Sobre o quê?
Eu poderia ter mentido. Poderia ter desviado a conversa, evitado esse momento. Mas havia algo no jeito como ela me olhava que me impediu.
— Sobre você.
O sorriso dela desapareceu, substituído por uma expressão de surpresa. Eu podia ver a hesitação nos olhos dela, como se não soubesse se queria ouvir a resposta ou não.
— E o que exatamente você está pensando?
Hesitei. Não porque não soubesse o que dizer, mas porque tornaria tudo mais real. Mais perigoso.
— Que você me confunde. — Admiti finalmente, minha voz saindo mais grave do que eu esperava.
Ela inclinou a cabeça, intrigada, e o brilho curioso em seus olhos me fez perceber o quanto eu estava ferrado.
— Como assim?
Soltei um suspiro, passando a mão pelos cabelos, frustrado comigo mesmo.
— Você não deveria estar aqui. Não deveria fazer parte disso. Mas, de alguma forma, você está… e parece que é exatamente onde deveria estar.
Ela ficou em silêncio, observando-me com uma intensidade que me fez sentir exposto. Como se enxergasse cada pedaço quebrado dentro de mim.
— Talvez porque eu também sinta o mesmo.
As palavras dela me atingiram como um golpe. Eu esperava resistência, um desvio na conversa, qualquer coisa… menos essa confissão.
— Ayla… — Murmurei, mas ela me interrompeu antes que eu pudesse continuar.
— Eu sei que você acha que precisa carregar tudo sozinho, mas não precisa. Não mais.
Havia algo na maneira como ela disse aquilo que fez meu peito apertar. Ninguém nunca me disse isso. Ninguém nunca me olhou como ela estava me olhando agora como se eu não fosse apenas um alfa, um guerreiro, um líder. Como se eu fosse mais do que apenas o peso das responsabilidades que carrego.
Engoli em seco, tentando processar o que estava sentindo.
— E se eu não souber como fazer isso? — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
Ayla sorriu levemente, como se entendesse exatamente o que eu queria dizer.
— Então eu te ensino.
Eu ri suavemente, sem humor.
— Você é muito confiante.
Ela sorriu, inclinando-se ainda mais para frente, os olhos brilhando com uma determinação que eu não poderia ignorar.
— Alguém precisa ser.
O espaço entre nós parecia encolher, como se algo invisível nos puxasse um para o outro. O fogo dançava entre nós, mas o verdadeiro calor vinha de outra coisa algo muito mais perigoso do que qualquer chama.
E, pela primeira vez, eu me perguntei se lutar contra isso era realmente uma opção.
O silêncio voltou, mas desta vez era diferente. Não era pesado ou desconfortável. Era carregado de algo que eu não conseguia identificar. Algo que fazia o ar ao nosso redor parecer eletrificado, como se uma única faísca pudesse incendiar tudo.
A fogueira crepitava entre nós, lançando sombras suaves no rosto de Ayla. Os olhos dela refletiam as chamas, um brilho intenso que me prendia, me desarmava. Eu deveria me afastar. Deveria cortar isso antes que fosse tarde demais. Mas, pela primeira vez, eu não queria.
— Você sabe que isso é loucura, certo? — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, quase um sussurro arrancado da minha garganta.
Ayla inclinou a cabeça, observando-me com um olhar penetrante.
— Sei. — Ela respondeu sem hesitação, seu tom firme e, ao mesmo tempo, carregado de algo que fazia meu peito apertar. Então, um pequeno sorriso brincou nos lábios dela. — Mas talvez um pouco de loucura seja exatamente o que precisamos.
Ela não tinha ideia do que suas palavras faziam comigo. Ou talvez tivesse, e essa possibilidade era ainda mais perigosa.
Eu não sabia o que fazer com isso. Não sabia como lidar com o que estava crescendo dentro de mim algo feroz, poderoso e completamente incontrolável. Mas antes que pudesse decidir, a voz suave da menina cortou o momento, rasgando o fio invisível que nos ligava.
— Vocês dois precisam parar de brigar com o que sentem.
Eu me virei para ela, surpreso.
— O que você disse?
A menina me olhou com uma expressão que parecia muito sábia para alguém tão jovem. Seus olhos brilharam na penumbra, carregando um conhecimento que eu não entendia.
— Vocês se importam um com o outro. Isso é bom. Vocês vão precisar disso.
Engoli em seco, sem saber o que responder. Parte de mim queria negar, queria afastar qualquer ideia de que Ayla e eu estávamos conectados de alguma forma. Mas outra parte que eu não podia mais ignorar sabia que era verdade.
Não era apenas o símbolo que nos ligava. Não era o destino, nem a guerra em que estávamos prestes a entrar. Era algo mais profundo, mais visceral. Algo que me puxava para ela de um jeito que eu não conseguia explicar.
Ayla desviou o olhar, mas não antes que eu visse o leve rubor em suas bochechas. E aquilo me atingiu como um golpe. Ela também sentia.
Eu me recostei contra uma árvore, forçando um ar de indiferença. Mas meu coração batia rápido demais, traindo a calma que eu tentava fingir.
— Vamos descansar. — Disse finalmente, tentando encerrar o assunto antes que ele tomasse proporções que eu não poderia controlar. — Amanhã será um dia longo.
Ayla assentiu, mas o sorriso no canto dos lábios dela não desapareceu. Era sutil, mas estava ali.
E enquanto eu tentava me convencer de que podia ignorar o que estava acontecendo, a verdade se cravou em mim como uma lâmina.
Era tarde demais.
Algo entre nós tinha mudado.
E não havia como voltar atrás