Camille
Eu estava em casa, já pronta para descansar, quando o celular vibrou na mesa ao lado da cama. A notificação piscou na tela: uma mensagem de Draco. Senti um frio na barriga, mas, ao mesmo tempo, um sorriso se formou nos meus lábios. Só podia ser um bom sinal. Depois de toda a minha dedicação, de todas as manobras que executei para ganhar a confiança dele e de seus irmãos, finalmente, parecia que meu momento havia chegado.
A mensagem era curta, sem rodeios, típica de Draco: "Venha ao meu escritório. Agora."
Eu estava convencida de que isso era o reconhecimento pelo meu plano. A emboscada contra Souza tinha sido um sucesso – ao menos, era o que eu pensava. Eles haviam seguido minha estratégia, e agora, com Souza fora do caminho, eu estava certa de que ganharia meu lugar definitivo dentro da organização. Finalmente estaria mais perto do que queria... Mais perto de Draco, mais perto da verdade. Respirei fundo, sentindo uma mistura de euforia e antecipação.
Troquei de roupa rapidamente, escolhendo algo casual, mas que demonstrasse que eu estava à vontade. Uma blusa preta e uma calça jeans justos, nada muito chamativo, mas o suficiente para me sentir no controle. Eu sabia que Draco era um homem de poucas palavras e que cada gesto seu tinha peso. Eu precisava estar à altura daquele momento, mostrar confiança, como sempre fazia.
Ao chegar na casa, fui recebida pela empregada que, sem muitas palavras, me conduziu pelo longo corredor até o escritório dele. As luzes eram fracas, criando sombras nas paredes, como se aquele ambiente respirasse a tensão que sempre pairava no ar quando Draco estava por perto. A mulher parou diante da porta de madeira pesada e fez um gesto para que eu entrasse. Agradeci com um aceno de cabeça, ajeitei minha postura e empurrei a porta.
Assim que entrei, vi Draco sentado atrás de sua mesa imponente, a expressão séria de sempre. Não era incomum que ele estivesse sério, mas havia algo de diferente nele naquela noite. Ele não olhou diretamente para mim de imediato, seus olhos estavam fixos em algo na mesa, mas eu podia sentir o peso de sua presença, como uma onda de eletricidade prestes a explodir. Fechei a porta atrás de mim e caminhei até ele, mantendo meu sorriso contido.
— Então… tudo saiu como planejado? — perguntei, minha voz suave, quase ensaiada. — Podemos finalmente falar sobre minha entrada oficial?
Por um breve segundo, o silêncio preencheu o espaço entre nós. Eu esperava algum tipo de aprovação, um reconhecimento. Mas Draco não respondeu de imediato. Em vez disso, ele se levantou lentamente da cadeira, o que fez meu estômago revirar. Ele caminhou ao redor da mesa, os passos pesados ecoando no piso de madeira. O sorriso que eu mantinha no rosto começou a se desfazer aos poucos, enquanto eu tentava ler o que se passava na cabeça dele.
— Draco? — Tentei chamá-lo, mas ele estava distante, a expressão no rosto era de uma fúria contida.
Quando ele parou na minha frente, sem dizer uma palavra, um arrepio percorreu minha espinha. Algo estava errado. Muito errado.
Antes que eu pudesse reagir, senti suas mãos grandes e firmes ao redor do meu pescoço. O gesto foi rápido, quase brutal. Não era um toque gentil ou carinhoso, era uma ameaça explícita, como uma corrente de ferro fria apertando ao redor da minha garganta. Meu coração disparou, e instintivamente levei as mãos até os pulsos dele, tentando aliviar a pressão. A surpresa misturada com a confusão me fez ofegar.
— Que merda você está armando? — A voz dele saiu baixa, mas cheia de uma intensidade sombria que fez meu sangue gelar.
Eu o encarei, ainda sem entender. O que ele estava falando? O que deu errado?
— Eu… eu não sei do que você está falando — consegui dizer, minha voz rouca pelo aperto. Olhei diretamente nos olhos dele, buscando uma explicação, algo que me desse uma pista sobre o que estava acontecendo. Mas Draco estava distante, desconfiado, como se cada palavra minha fosse uma mentira.
Ele me soltou de repente, como se estivesse prestes a perder o controle. Cambaleei para trás, levando uma mão ao pescoço, ainda sentindo a pressão do toque dele na minha pele. A raiva fervilhava em mim, mas eu sabia que reagir naquele momento não seria inteligente. Draco era perigoso. Eu já sabia disso desde o começo, mas enfrentá-lo diretamente naquele estado poderia ser fatal.
— O que diabos aconteceu? — perguntei, a voz um pouco mais firme, tentando entender o que havia mudado tão drasticamente.
Ele deu mais um passo em minha direção, a proximidade dele fazendo o ar parecer mais pesado.
— Você sabia que ia dar errado, Camille. — Ele cuspiu as palavras, os olhos fixos nos meus como se estivesse tentando ver através de mim. — Você nos colocou numa emboscada. Acha que eu sou i****a?
Meu coração martelava no peito, e eu estava começando a entender. Algo no ataque contra Souza tinha saído do controle. Eles provavelmente acreditavam que eu havia armado aquilo desde o início, que eu estava jogando dos dois lados. A suspeita deles era compreensível, mas completamente infundada. Eu não planejei isso… ou ao menos não assim.
— Draco, escuta... Eu jamais armaria contra vocês. — Tentei soar convincente, segurando seu olhar com firmeza. — Eu estava com vocês desde o início. Eu ajudei com o plano porque queria provar meu valor. Não faz sentido eu sabotar tudo agora, justo quando estou prestes a entrar de vez.
Draco deu um passo para trás, ainda com o semblante fechado, mas parecia me ouvir, ao menos por enquanto. Ele cruzou os braços, mas não relaxou a postura. O ar estava carregado com uma tensão palpável, e eu sabia que cada palavra minha agora era uma jogada estratégica, um movimento crucial nesse jogo perigoso que eu estava jogando desde o primeiro dia.
— A verdade, Camille — ele murmurou, a voz mais baixa, mas ainda cheia de ameaça. — Eu não confio em você. E Damon também não.
Damon. Claro que ele estaria por trás dessa desconfiança. Ele nunca confiou em mim desde o começo, sempre com aqueles olhos frios e avaliadores, como se soubesse que havia algo de errado comigo. E, de fato, havia. Só que ele não fazia ideia do que realmente estava acontecendo.
Respirei fundo, tentando manter a calma. Eu precisava jogar essa carta com cuidado.
— Se eu quisesse ferrar com vocês, já teria feito. — Minha voz saiu controlada, mas firme. — Já teria vazado informações, já teria alertado Souza. Eu teria tirado proveito muito antes. Mas eu não fiz isso. Porque eu estou aqui por um motivo, Draco, e esse motivo é mais do que você imagina.
Ele me olhou por um longo momento, o silêncio entre nós se tornando ensurdecedor. Eu podia ver em seus olhos que ele estava lutando contra algo interno. Ele queria acreditar em mim, mas a desconfiança estava arraigada demais. E eu sabia que Damon havia plantado essa semente.
— Damon não confia em ninguém — continuei. — E eu entendo isso. Mas não sou eu quem está te traindo.
Draco ainda não parecia convencido, mas ao menos o aperto de suas mãos ao redor do meu pescoço já era passado, e ele não parecia pronto para me matar naquele momento. Era um pequeno progresso, ainda que a ameaça pairasse no ar como uma lâmina afiada prestes a cair.
— Se você quiser, eu posso te provar — sugeri, arriscando um movimento. — Posso mostrar que estou do lado de vocês. Diga o que quer que eu faça, e eu farei. Não estou aqui para trair. Estou aqui por algo maior.
Eu podia ver a dúvida em seus olhos, misturada com a tensão, mas algo me dizia que, ao menos por enquanto, eu tinha uma chance.