Draco
Eu sempre soube que, no nosso mundo, lealdade é algo frágil. Mas entre nós, irmãos, sempre existiu uma linha sólida. Nós éramos o núcleo. Damon, Dante e eu. Juntos, construímos nosso império com sangue, suor e inteligência. Cada um com suas funções bem definidas, cada um com seu papel claro. Damon, o calculista. Dante, o impulsivo. E eu, o líder. Essa dinâmica sempre funcionou. Até Camille.
Damon, desde o início, nunca confiou nela. Ele sempre foi o mais desconfiado, o mais frio, o que sempre enxergava além do que os outros viam. Ele dizia que Camille estava nos manipulando, usando sua presença para desestabilizar o nosso equilíbrio. "Ela está nos dividindo, Draco", ele repetia sempre, com a voz baixa, mas firme, olhando nos meus olhos como se quisesse encontrar uma brecha, uma confirmação de que eu também começava a acreditar nisso.
Mas Dante, por outro lado, estava cada vez mais envolvido. Ele não via perigo. Pelo contrário, ele via uma oportunidade em Camille, uma chance de algo mais. Talvez ele estivesse apaixonado. Talvez fosse apenas uma atração, mas estava claro que Dante não conseguia pensar com clareza sempre que Camille estava por perto. E isso, claro, irritava Damon profundamente.
Naquela noite, estávamos no escritório, os três. A atmosfera estava pesada. Eu podia sentir a tensão crescendo a cada segundo que passava. Damon estava em pé, andando de um lado para o outro, os músculos do maxilar travados de raiva contida. Dante estava sentado, os braços cruzados, observando o irmão com uma expressão de impaciência. E eu, no meio de tudo isso, tentando manter o controle, mesmo que, por dentro, a dúvida começasse a se infiltrar.
— Isso não pode continuar assim, Draco — começou Damon, parando de repente e me encarando. — Ela está nos dividindo, está te fazendo questionar suas próprias decisões. Não vê isso? Você está diferente desde que ela chegou. Todos nós estamos.
Eu permaneci em silêncio por alguns instantes, deixando as palavras de Damon ecoarem na sala. Ele tinha um ponto. Eu sabia disso. Mas algo me impedia de tomar uma decisão precipitada. Camille era um enigma, e eu ainda não conseguia entender o que ela realmente queria. Mas eu também não podia ignorar o fato de que Damon estava ficando cada vez mais agitado por causa dela.
— O que você quer que eu faça? — perguntei finalmente, minha voz saindo mais fria do que eu pretendia.
— Corte ela fora. Agora — Damon respondeu, sem hesitar. — Antes que seja tarde demais. Ela está brincando com a gente, Draco. Está jogando um jogo que você não está enxergando. E o preço vai ser alto.
Dante se mexeu na cadeira, descruzando os braços e se inclinando para frente, com os olhos fixos no irmão.
— E por que você está tão certo disso, Damon? — perguntou ele, sua voz carregada de desafio. — Desde quando você é o único que enxerga a verdade aqui? Camille nos deu informações valiosas. Ela está ajudando. Se ela quisesse nos ferrar, já teria feito isso.
Damon soltou uma risada seca, balançando a cabeça.
— Você está cego, Dante. Cego por ela. Você acha que ela está aqui porque quer ajudar? Por favor, me poupe. Ela está nos manipulando, jogando com nossos sentimentos, principalmente com os seus. Você está caindo na teia dela.
— E você está vendo fantasmas onde não existem! — Dante retrucou, sua voz se elevando. — Se Camille quisesse acabar com a gente, teria nos entregue ao Souza de bandeja. Mas ela não fez isso. Ela está ao nosso lado. E se você não consegue ver isso, então o problema está com você, não com ela.
A tensão no ar era quase palpável. Eu podia ver a raiva crescendo nos olhos de Damon, mas também via que Dante não estava disposto a recuar. Os dois estavam em lados opostos, e eu estava preso no meio, tentando manter o controle de uma situação que começava a fugir das minhas mãos.
— Basta! — minha voz cortou o ar, fazendo ambos pararem. — Isso não vai levar a lugar nenhum. Nós estamos nessa juntos. Se começarmos a brigar entre nós, Camille já terá conseguido o que quer, se é que Damon está certo.
Damon me olhou, ainda fervendo de raiva, mas ele sabia que eu tinha razão. Ele respirou fundo, tentando se controlar, mas suas palavras ainda carregavam veneno.
— Se continuar assim, Draco, ela vai destruir o que construímos. Ela já começou a dividir a gente. Olhe para nós. Isso nunca aconteceu antes.
— Não vou deixar isso acontecer, Damon. — Minha voz estava firme, mas dentro de mim, eu sabia que algo já tinha mudado. As sementes da dúvida estavam plantadas, e, por mais que eu tentasse, não conseguia ignorar o que estava diante de mim.
Dante, no entanto, não recuava.
— Eu não vou ficar parado enquanto vocês fazem isso com ela. Camille merece uma chance. E ela vai provar que é leal.
— Você não entende, Dante — Damon retrucou, seus olhos agora fixos no irmão. — Não se trata de dar uma chance. Se trata de sobrevivência. De proteger o que é nosso. Eu já vi esse tipo de jogo antes, e nunca acaba bem.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Eu podia ouvir meu coração batendo no peito, enquanto tentava processar tudo. Camille. Damon. Dante. Eu estava perdendo o controle da situação, e isso me aterrorizava mais do que qualquer outra coisa. Porque no nosso mundo, perder o controle é sinônimo de morte.
— Vou conversar com ela — falei, finalmente quebrando o silêncio. — E vou descobrir a verdade.
Damon me olhou com descrença.
— A verdade? Ela não vai te dizer a verdade, Draco. Ela vai te dar exatamente o que você quer ouvir.
— Então é isso que eu vou descobrir — retruquei, minha voz cortante. — E se ela estiver jogando com a gente, eu vou ser o primeiro a acabar com isso.
Dante se levantou de sua cadeira, olhando para mim com um misto de desconfiança e preocupação.
— Só não faça algo do qual vai se arrepender depois, Draco.
Eu não respondi. Apenas olhei para eles, meus irmãos, sentindo o peso do que estava por vir. Camille era um problema. Um que eu precisaria resolver, de uma forma ou de outra. E no fundo, uma parte de mim já sabia que a resposta não seria simples.
Depois que Damon e Dante saíram do escritório, fiquei sozinho, encarando o vazio. As palavras de Damon ecoavam em minha mente, misturando-se à voz de Dante. Eu confiava em meus irmãos, mas agora, por causa de Camille, havia uma rachadura no nosso vínculo. E isso, mais do que qualquer outra coisa, me deixava inquieto.
Eu sabia que precisava agir. Mas como agir sem destruir o que havíamos construído?
Camille estava no centro desse furacão, e eu precisava descobrir se ela era a responsável por tudo isso… ou se era apenas uma peça em um jogo muito maior.
Eu me levantei da cadeira e caminhei até a janela, olhando para as luzes distantes da favela. Meu mundo, construído com tanto esforço, agora parecia instável. As perguntas não me deixavam em paz.
E, enquanto o silêncio tomava conta do escritório, uma coisa ficou clara para mim: Camille não era apenas uma mulher atraente e misteriosa. Ela era uma ameaça. Uma ameaça que eu precisava enfrentar de frente.
Mas, ao mesmo tempo, havia algo nela que eu não conseguia ignorar. Algo que me impedia de tomar a decisão que Damon tanto queria.