Clarice despertou devagar, como se estivesse subindo de um fundo de poço. A cabeça latejava, a visão estava turva e tudo parecia… fora de lugar.
A primeira coisa que notou foi o teto desconhecido, de novo. Se sobresaltou, Clarice pensou que tudo tinha sido um sonho...um pesadelo, mas a realidade a puxou de uma vez. Não era. Era real.
Ela se sentou num sobressalto, assustada, o coração disparado.
— O que…? Onde eu…? Meu Deus.
Tentou puxar na memória de novo: O bar...o drink....o táxi...Henry... aí nada. Um apagão. Um vazio. Nada.
No escritório
Oliver estava observando a tela pequena do monitor de segurança. A câmera no quarto de hóspedes mostrava Clarice acordada de novo ,agitada, levando as mãos à cabeça. Ela parecia confusa e assustada, com medo.
O peito dele apertou.
Não queria que ela o visse assim, monitorando-a, mas não podia deixá-la acordar sozinha naquele estado.
Desligou o monitor imediatamente e seguiu apressado pelos corredores até o último andar.
No caminho, tentou respirar fundo, recuperar o controle.
"Calmo, Oliver. Fale devagar."
Clarice se levantou tentando se acalmar e foi aí que ouviu a porta se abrir, com medo fechou os olhos e se encostou na parede apertando os olhos firmemente. Como se tentasse acordar de um pesadelo.
Ela congelou.
Oliver Frankwood entrou devagar, sem pressa, como se temesse assustá-la. Ele estava camisa branca dobrada nos antebraços, e o olhar sempre tão firme agora parecia carregado de preocupação, ainda mais em vê-la tão temerosa.
— Clarice? — a voz dele saiu suave, quase delicada. — Não faça movimentos bruscos. Você vai ficar tonta.
Ela abriu os olhos assim que ouviu a voz... reconheceu.
— O-Oliver? — a voz dela tremeu. — O que eu estou fazendo aqui? O que… o que você fez comigo?
Ele ergueu as mãos calmamente, num gesto tranquilizador.
— Nada. Absolutamente nada. — deu dois passos lentos, mas parou assim quando viu que ela tremia — Você não estava bem ontem. Eu te trouxe para um lugar seguro.
Ela engoliu seco, ainda respirando rápido.
— Eu… eu não me lembro de nada depois do táxi…
— Eu sei. — ele respondeu, com uma calma quase cirúrgica. — Acalme-se. Você está em segurança, Clarice. Ninguém encostou em você. Eu não encostei, eu juro.
O jeito que ele falava a firmeza serena, quase protetora aos poucos fez sua respiração desacelerar. Era o mesmo tom que ele usava no hospital quando a acalmava antes de procedimentos difíceis.
Mesmo assim, ela ainda estava tensa.
— Eu… por que você estava lá? — perguntou, a voz mais baixa. — Como me encontrou? Por que..Oliver ?
Ele desviou o olhar por um instante calculando. Escolhendo as palavras.
E então voltou a encará-la, gentil mas sério.
— Coincidência, eu juro — mentiu com cuidado. — Eu estava passando perto quando te vi descendo do táxi. E quando percebi Henry se aproximando gritando com você, não pensei duas vezes.
Clarice apertou os dedos nervosamente.
— Onde estou ? sua casa?
— Sim. — respondeu com suavidade. — Mas você não está presa a nada. Assim que estiver segura, eu te levo para casa ou peço para alguém te buscar. Eu prometo
Aquele homem, por mais imponente que fosse, não transmitia ameaça.
Transmitia controle. Cuidado.
E isso a fez relaxar mas não totalmente.
— Venha, Clarice, sente-se— Oliver tentou te aproximar.
— Não encosta em mim...por favor.
Ele assentiu.
Ela se sentou devagar na cama, ainda tentando entender a própria memória partida.
Oliver, percebendo que ela não iria desmaiar, aproximou-se mais um passo.
— Posso te trazer água? — perguntou, num tom quase… terno. — Ou café? Um chá ? Está com fome ?
— Oliver eu quero sair, quero ir embora.— Ela se levantou e foi em rumo a porta, mas Oliver a segurou.
— Não.
Ela parou abruptamente, assustada.
Ele percebeu que alterou o tom e a assustou e logo amenizou.
— Clarice ainda tenho coisas a te contar, você não está segura, querida. Por favor, fique, pelo menos só para um café. Eu mesmo te levo depois.
Clarice assentiu, hesitante, ainda observando-o com cautela.
E ele sorriu de canto discreto, elegante antes de sair para buscar. A porta se fechou suavemente atrás dele.
Só então Clarice percebeu o quanto estava tremendo