Oliver ficou ali, parado no meio do escritório, depois que o corvo saiu menos cansado com o pagamento em mãos.O silêncio da casa parecia mais pesado do que de costume talvez porque, pela primeira vez, Clarice estava dormindo ali… e não por vontade própria.
Ele passou as mãos no rosto, respirou fundo e sentou-se na poltrona, inclinando-se para frente.
Precisava pensar. Precisava organizar tudo antes que ela acordasse.
“Como eu conto isso sem assustá-la?”
Essa pergunta martelava como um eco dentro dele.
Ele começou a montar um plano mental, como fazia em cirurgias complexas:
1. Não podia contar tudo de uma vez.
Se dissesse que a seguiu, que o corvo estava monitorando sua rotina, que a tirou do meio da confusão com Henry tudo de uma só vez, ela simplesmente não confiaria mais nele. Talvez fugisse. Talvez achasse que ele era tão perigoso quanto o próprio Henry.
2. Precisava começar pelo essencial: segurança.
Contar que Henry apareceu agressivo, que ele estava perto por coincidência que a viu vulnerável…
Mas não mencionar ainda que a seguiu desde o bar.
3. Depois, explicar que ela está ali porque seria arriscado deixá-la sozinha.
Claro. Simples. Real. Ele não precisaria inventar nada, apenas esconder algumas coisas.
4. E só depois, muito depois, admitir que fez mais do que deveria.
Quando ela estivesse calma. Quando confiasse nele o suficiente para não interpretar como perseguição… mas como preocupação.
O problema é que, no fundo, ele sabia que aquilo não era só preocupação.
Ele recostou a cabeça na poltrona, fechando os olhos.
Podia sentir o cheiro suave do perfume dela ainda impregnado em suas roupas.
Podia ver, perfeitamente, a imagem de Clarice dormindo apoiando a cabeça em seu ombro enquanto ele a carregava escada acima.
E isso tornou tudo ainda mais difícil.
— Eu vou assustá-la… — murmurou para si mesmo.
Mas então endireitou a postura, tenso, determinado.
— Não. Eu vou explicar com calma. Ela merece clareza. E… — passou a mão no peito, como se precisasse apertar o próprio coração no lugar — eu preciso que ela não tenha medo de mim.
Levantou-se e começou a caminhar pelo escritório, como se estivesse ensaiando.
— “Clarice, você não estava bem ontem. Eu não podia te deixar na rua naquela situação.”
— “Clarice, eu só queria garantir que você estivesse segura.”
— “Clarice, o Henry… ele é imprevisível.”
Ele parou. Aquilo ainda parecia pouco.
Talvez… talvez fosse melhor cozinhar algo para ela.
Deixar o clima mais leve.
Mostrar cuidado em pequenos gestos antes de explicar o que ocorreu.
Sim. Isso poderia ajudar.
Ele respirou fundo, pela primeira vez um pouco mais calmo.
O plano não estava perfeito, mas estava claro:
ele precisava que ela entendesse que não era uma ameaça e sim a única pessoa realmente tentando protegê-la.
Agora, só faltava torcer para que ela acreditasse nisso, acreditasse na bondade dele