Capítulo 53. Ensaiando

482 Palavras
Oliver ficou ali, parado no meio do escritório, depois que o corvo saiu menos cansado com o pagamento em mãos.O silêncio da casa parecia mais pesado do que de costume talvez porque, pela primeira vez, Clarice estava dormindo ali… e não por vontade própria. Ele passou as mãos no rosto, respirou fundo e sentou-se na poltrona, inclinando-se para frente. Precisava pensar. Precisava organizar tudo antes que ela acordasse. “Como eu conto isso sem assustá-la?” Essa pergunta martelava como um eco dentro dele. Ele começou a montar um plano mental, como fazia em cirurgias complexas: 1. Não podia contar tudo de uma vez. Se dissesse que a seguiu, que o corvo estava monitorando sua rotina, que a tirou do meio da confusão com Henry tudo de uma só vez, ela simplesmente não confiaria mais nele. Talvez fugisse. Talvez achasse que ele era tão perigoso quanto o próprio Henry. 2. Precisava começar pelo essencial: segurança. Contar que Henry apareceu agressivo, que ele estava perto por coincidência que a viu vulnerável… Mas não mencionar ainda que a seguiu desde o bar. 3. Depois, explicar que ela está ali porque seria arriscado deixá-la sozinha. Claro. Simples. Real. Ele não precisaria inventar nada, apenas esconder algumas coisas. 4. E só depois, muito depois, admitir que fez mais do que deveria. Quando ela estivesse calma. Quando confiasse nele o suficiente para não interpretar como perseguição… mas como preocupação. O problema é que, no fundo, ele sabia que aquilo não era só preocupação. Ele recostou a cabeça na poltrona, fechando os olhos. Podia sentir o cheiro suave do perfume dela ainda impregnado em suas roupas. Podia ver, perfeitamente, a imagem de Clarice dormindo apoiando a cabeça em seu ombro enquanto ele a carregava escada acima. E isso tornou tudo ainda mais difícil. — Eu vou assustá-la… — murmurou para si mesmo. Mas então endireitou a postura, tenso, determinado. — Não. Eu vou explicar com calma. Ela merece clareza. E… — passou a mão no peito, como se precisasse apertar o próprio coração no lugar — eu preciso que ela não tenha medo de mim. Levantou-se e começou a caminhar pelo escritório, como se estivesse ensaiando. — “Clarice, você não estava bem ontem. Eu não podia te deixar na rua naquela situação.” — “Clarice, eu só queria garantir que você estivesse segura.” — “Clarice, o Henry… ele é imprevisível.” Ele parou. Aquilo ainda parecia pouco. Talvez… talvez fosse melhor cozinhar algo para ela. Deixar o clima mais leve. Mostrar cuidado em pequenos gestos antes de explicar o que ocorreu. Sim. Isso poderia ajudar. Ele respirou fundo, pela primeira vez um pouco mais calmo. O plano não estava perfeito, mas estava claro: ele precisava que ela entendesse que não era uma ameaça e sim a única pessoa realmente tentando protegê-la. Agora, só faltava torcer para que ela acreditasse nisso, acreditasse na bondade dele
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