Na manhã seguinte....
Pov's Khadija.
Estados Unidos. 🏥 Nova York. 07:30 AM.
Resolvo esquecer a frustração de ontem e recomeçar do zero hoje.

Sinto-me mais confiante. Piso firme com o salto pelos corredores do hospital.
Ignoro os olhares que recebo, por causa do meu hijab, conforme passo.
Sigo adiante, até que esbarro com um dos residentes.
— Doutor Dylan, está a esperando na sala cirúrgica.– recebo o prontuário.
Analiso a ficha do paciente. Homem de 68 anos, com coração crescido. Diabético.
— Sala cirúrgica?– sussurro perdida.
— Anda, não fica aí parada.— o médico me chama, e vou atrás.
Quando entro na sala de cirurgia, sou o centro das atenções.
Doutor Dylan já está todo empacotado; com luvas, máscaras, óculos de proteção.
— Ajeitem ela.— ele manda, e as enfermeiras vem até mim. — Hoje você vai ser a minha assistente, muçulmana.
O tom rouco dele percorre, e escuto a ironia.
Recebo todo preparo adequado. Desde das limpezas das mãos, até touca e outros meios que uma profissional precisa para está no centro cirúrgico.
Me posiciono ao lado do meu chefe.
— Doutor, são 07:46 AM.— a enfermeira avisa.
— Vamos iniciar, temos 18 horas pela frente.— ele entreolha para mim, com sarcasmo.
Penso mentalmente. Eu não comi nada nesta manhã. Finjo normalidade, embora esteja suando frio.
— Espero que você não vomite, muçulmana.
Doutor Dylan tira sarro, marcando a região no qual vai abrir o paciente.
— Bisturi.— ele pede, estendendo a mão.
Fico paralisada, com os pensamentos distantes. É um paciente homem. Então me travo, pois vou ter que quebrar um preceito da minha religião.
— Tô falando com você, muçulmana.
— Ah sim, desculpe doutor.— me direicono para pegar na bandeja que uma das enfermeiras segura.— Está aqui.— estendo.
— Esse não.— o cirurgião nega.— É o mais fino.
Retorno novamente para buscar. Arregalo os olhos, vendo a postura nada ética do doutor Dylan, quando recebe nas mãos...
– Tá aqui doutor, seu copo de uísque.
— Obrigado Candice, você é dez.— o médico a elogia, piscando o olho para enfermeira loira.
As outras duas enfermeiras entreolham para mim, como se não aprovasse a atitude.
— Este lugar tá muito em silencioso, coloca uma música. — ele ordena, tirando a máscara para beber.
— Doutor...— procuro pronunciar, mas sou interrompida.
— O quê é?— sou intimidada com seus olhos afiados.
— Queria pedir permissão para abrir o paciente.
— Tá bom, já que não tem medo de sangue — o próprio aceita e a reajo surpresa, quando me entrega o bisturi.– Mas qualquer errinho bobo, eu posso f***r com a sua residência. Fica ligada!
Toda vez que o chefe cirurgião fala comigo, é nesse tom de ameaça. Até o jeito de como ele me olha, há um ar de preconceito.
Me posiciono para realizar o procedimento. Sempre fui ótima nas minhas aulas práticas, mas não era um corpo de verdade, e sim, um boneco como demonstração.
Fico sendo observada pelo doutor Dylan, enquanto realizo o corte. As minhas mãos tremem um pouco, mas o meu chefe intervém, me passando confiança.

Quando finalizo, escuto:
— Ótimo trabalho, muçulmana.
Por incrível que pareça, sou elogiada, por quem eu menos espero. Até sorrio fraco, orgulhosa de mim mesma.
— Mas não pense que isso vai chegar no nível, onde você chegará no meu patamar.— ele logo corta as minhas expectativas.— Não é meninas?
— Doutor Dylan é melhor cirurgião, não tem como ele.— enfermeira afirma e os dois trocam sorrisos.
E isso aumenta mais o ego do médico, que fica deslumbrado com os comentários.
Fico apenas calada, nem respondo, não quero ser repreendida igual ontem.
As horas se passam e me preocupo, é um procedimento complicado e doutor Dylan está bebendo, como se tivesse numa festa.
A música alta toca dentro da sala cirúrgica, sendo impossível a comunicação.
Até que um dos bisturi, acaba atingindo uma parte do órgão e furando, fazendo surgir uma hemorragia. Ele manda abaixar o som.
— Pressão arterial caindo!— enfermeira alerta, enquanto analisa na tela.— Pressão arterial 8/4.
Ele tenta estancar, colocando o máximo de gases. O ajudo, mas os batimentos cardíacos acabam caindo pro zero.
Nos até tenta reanimar o paciente, mas....
— Hora da morte....— a enfermeira vai pronunciar.
— Deixa que muçulmana fala.
O médico entreolha para mim, passando a responsabilidade tão difícil.
Nenhum médico gosta de ver seu paciente morrer.
Eu perco a voz, passa inúmeros questionamentos pela minha cabeça. Será que foi negligência?
— Hora da morte...— fecho os olhos, soando com a voz trêmula — 17:30.
Doutor Dylan se retira sala, saindo normalmente. As enfermeiras ficam para limpar e eu permaneço paralisada.
Vários erros aconteceram nessa cirurgia. E saio, arrasada, pelos corredores.
Esbarro com o meu chefe, que está com o prontuário na mão e me entrega.
— Você vai informar os familiares do paciente, boa sorte.
— Por quê eu?— questiono, olhando-o insegura.
— Eu não tenho paciência para ficar ouvindo choro. É melhor não chorar junto.— seus olhos me provocam.
Ele passa por mim, cheirando a bebida.
Suspiro fundo, sentindo uma revolta dentro de mim, como médica.
Vou andando, indo até sala de espera, onde vejo: os filhos do paciente, a esposa, a mãe. Todas essas pessoas perderam um ente querido.
— Eu sou a doutora Khadija, eu acompanhei a cirurgia. Lamentavelmente, houveram complicações durante o procedimento e o paciente Klaus Kevin veio ao óbito.
Informo. E me seguro para não chorar, ao presenciar de perto o sofrimento daquela família.