terceiro

940 Palavras
Na manhã seguinte.... Pov's Khadija. Estados Unidos. 🏥 Nova York. 07:30 AM. Resolvo esquecer a frustração de ontem e recomeçar do zero hoje.  Sinto-me mais confiante. Piso firme com o salto pelos corredores do hospital. Ignoro os olhares que recebo, por causa do meu hijab, conforme passo. Sigo adiante, até que esbarro com um dos residentes. — Doutor Dylan, está a esperando na sala cirúrgica.– recebo o prontuário. Analiso a ficha do paciente. Homem de 68 anos, com coração crescido. Diabético. — Sala cirúrgica?– sussurro perdida. — Anda, não fica aí parada.— o médico me chama, e vou atrás. Quando entro na sala de cirurgia, sou o centro das atenções. Doutor Dylan já está todo empacotado; com luvas, máscaras, óculos de proteção. — Ajeitem ela.— ele manda, e as enfermeiras vem até mim. — Hoje você vai ser a minha assistente, muçulmana. O tom rouco dele percorre, e escuto a ironia. Recebo todo preparo adequado. Desde das limpezas das mãos, até touca e outros meios que uma profissional precisa para está no centro cirúrgico. Me posiciono ao lado do meu chefe. — Doutor, são 07:46 AM.— a enfermeira avisa. — Vamos iniciar, temos 18 horas pela frente.— ele entreolha para mim, com sarcasmo. Penso mentalmente. Eu não comi nada nesta manhã. Finjo normalidade, embora esteja suando frio. — Espero que você não vomite, muçulmana. Doutor Dylan tira sarro, marcando a região no qual vai abrir o paciente. — Bisturi.— ele pede, estendendo a mão. Fico paralisada, com os pensamentos distantes. É um paciente homem. Então me travo, pois vou ter que quebrar um preceito da minha religião. — Tô falando com você, muçulmana. — Ah sim, desculpe doutor.— me direicono para pegar na bandeja que uma das enfermeiras segura.— Está aqui.— estendo. — Esse não.— o cirurgião nega.— É o mais fino. Retorno novamente para buscar. Arregalo os olhos, vendo a postura nada ética do doutor Dylan, quando recebe nas mãos... – Tá aqui doutor, seu copo de uísque. — Obrigado Candice, você é dez.— o médico a elogia, piscando o olho para enfermeira loira. As outras duas enfermeiras entreolham para mim, como se não aprovasse a atitude. — Este lugar tá muito em silencioso, coloca uma música. — ele ordena, tirando a máscara para beber. — Doutor...— procuro pronunciar, mas sou interrompida. — O quê é?— sou intimidada com seus olhos afiados. — Queria pedir permissão para abrir o paciente. — Tá bom, já que não tem medo de sangue — o próprio aceita e a reajo surpresa, quando me entrega o bisturi.– Mas qualquer errinho bobo, eu posso f***r com a sua residência. Fica ligada! Toda vez que o chefe cirurgião fala comigo, é nesse tom de ameaça. Até o jeito de como ele me olha, há um ar de preconceito. Me posiciono para realizar o procedimento. Sempre fui ótima nas minhas aulas práticas, mas não era um corpo de verdade, e sim, um boneco como demonstração. Fico sendo observada pelo doutor Dylan, enquanto realizo o corte. As minhas mãos tremem um pouco, mas o meu chefe intervém, me passando confiança.  Quando finalizo, escuto: — Ótimo trabalho, muçulmana. Por incrível que pareça, sou elogiada, por quem eu menos espero. Até sorrio fraco, orgulhosa de mim mesma. — Mas não pense que isso vai chegar no nível, onde você chegará no meu patamar.— ele logo corta as minhas expectativas.— Não é meninas? — Doutor Dylan é melhor cirurgião, não tem como ele.— enfermeira afirma e os dois trocam sorrisos. E isso aumenta mais o ego do médico, que fica deslumbrado com os comentários. Fico apenas calada, nem respondo, não quero ser repreendida igual ontem. As horas se passam e me preocupo, é um procedimento complicado e doutor Dylan está bebendo, como se tivesse numa festa. A música alta toca dentro da sala cirúrgica, sendo impossível a comunicação. Até que um dos bisturi, acaba atingindo uma parte do órgão e furando, fazendo surgir uma hemorragia. Ele manda abaixar o som. — Pressão arterial caindo!— enfermeira alerta, enquanto analisa na tela.— Pressão arterial 8/4. Ele tenta estancar, colocando o máximo de gases. O ajudo, mas os batimentos cardíacos acabam caindo pro zero. Nos até tenta reanimar o paciente, mas.... — Hora da morte....— a enfermeira vai pronunciar. — Deixa que muçulmana fala. O médico entreolha para mim, passando a responsabilidade tão difícil. Nenhum médico gosta de ver seu paciente morrer. Eu perco a voz, passa inúmeros questionamentos pela minha cabeça. Será que foi negligência? — Hora da morte...— fecho os olhos, soando com a voz trêmula — 17:30. Doutor Dylan se retira sala, saindo normalmente. As enfermeiras ficam para limpar e eu permaneço paralisada. Vários erros aconteceram nessa cirurgia. E saio, arrasada, pelos corredores. Esbarro com o meu chefe, que está com o prontuário na mão e me entrega. — Você vai informar os familiares do paciente, boa sorte. — Por quê eu?— questiono, olhando-o insegura. — Eu não tenho paciência para ficar ouvindo choro. É melhor não chorar junto.— seus olhos me provocam. Ele passa por mim, cheirando a bebida. Suspiro fundo, sentindo uma revolta dentro de mim, como médica. Vou andando, indo até sala de espera, onde vejo: os filhos do paciente, a esposa, a mãe. Todas essas pessoas perderam um ente querido. — Eu sou a doutora Khadija, eu acompanhei a cirurgia. Lamentavelmente, houveram complicações durante o procedimento e o paciente Klaus Kevin veio ao óbito. Informo. E me seguro para não chorar, ao presenciar de perto o sofrimento daquela família.
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