Forasteiro...
Gostei deste nome, mas ao mesmo tempo fico triste em não poder ouvir o meu nome verdadeiro saindo dos seus lábios.
Ivy, não seja tola, nada nessa vida me dará mais prazer do que esperar a sua melhora. E se você me permitir ajudá-la a passar por tudo isso, será melhor ainda.
Para mim nunca houveram máscaras, eu sempre conseguia ler cada gesto seu e hoje mesmo longe, ainda é assim. Está tudo bem? Sei que este processo é doloroso, pois eu mesmo estou nele.
Conte-me suas dores minha querida e eu te contarei as minhas e juntos curaremos um ao outro.
Seu sempre F.
Estou deitada em minha cama lendo minha recente carta. André me entregou há poucos minutos, e mesmo sabendo que hoje é dia de visita, não consegui aguentar até a noite. É possível uma pessoa se apegar a alguém em tão pouco tempo?
Estamos nos correspondendo a menos de um mês e já me sinto como se fossemos muito mais que dois estranhos. Na verdade, ele ainda é um estranho. Um forasteiro. Ele me conhece tão bem, que é como se ele estivesse aqui comigo.
Não tenho uma imagem formada dele. Não sei sua cor, nem o modo como usa seus cabelos. Não sei sua altura... Nada. Eu não sei nada que seja pessoal. E nem sei por que ainda não fiz essas perguntas a ele. Será medo? Talvez...
O medo que ele seja diferente do que diz nas cartas. Que talvez eu esteja ficando maluca em continuar a me corresponder com ele. Não contei a ninguém sobre as cartas, nem mesmo as minhas amigas. Acho que elas não entenderiam se eu tentasse explicar que desde a primeira carta, sinto que mais alguém se importa comigo e que me conhece a tal ponto que está disposto a me esperar.
Ouço uma batida na porta e logo em seguida, uma cabeça conhecida passa por ela. É Nanda.
- Oi, será que posso entrar?
- Nanda!
Eu salto da cama dobrando a carta e enfiando no meu bolso. Eu estou surpresa, não esperava sua visita. Eu termino de abrir a porta e puxo para um abraço.
- Nanda, eu não estava esperando por você.
- Me desculpe, não pude vir nas últimas vezes... Belinda deve ter contado o que aconteceu.
- Sim, ela me contou... E eu estou tão feliz por vocês. Você está até mais bonita, mas radiante... – Falei afastando-a um pouco para ver um sorriso verdadeiro em seus rosto. – A volta de Nick te fez muito bem.
- E como fez. Faz duas semanas desde que ele chegou e não ficamos separados por muito tempo.
- Entra, vamos sentar, quero saber de tudo.
Puxei Nanda para dentro e fechei a porta.
- Como está a recuperação dele? Já está cantando e fazendo as coisas que fazia antes?
- Ainda não. Ele me fez uma surpresa...
- Eu sei, Belinda contou todos os detalhes.
- Ela e Kadu conseguiram me enganar direitinho. Eu sabia que ela estava aprontando alguma coisa quando inventou que iria gravar a apresentação para que eu mostrasse a Nick quando ele voltasse. – Nanda disse rindo.
- É bem típico dela mesmo em fazer surpresas para os amigos.
- Verdade. Mas mesmo assim, Nick ainda não voltou a cantar, por ele até voltaria, mas o convenci a fazer tudo o que os médicos pediram antes de voltar com sua vida normal.
- E vocês, estão bem mesmo? Tipo, juntos?
- Sim. Acho que dá para ver pelo meu sorriso de coringa.
Nós duas rimos.
- O único problema é que ele e o pai não estão se entendendo muito bem.
- Por quê?
- Primeiro foi por saber que nós estamos juntos. Depois da confusão em que ele acabou ficando entre a vida e a morte por minha causa...
- Por minha causa também. Não esqueça que você se arriscou para me ajudar. – Tentei pegar um pouco da sua culpa.
- Ivy, a ideia de me meter em uma briga de traficante foi toda minha, mas enfim, Nick bateu de frente e saiu de casa, quer dizer, saiu do apartamento que dividia com Kadu.
- Meu Deus Nanda. E a faculdade, quem está pagando?
- Por enquanto ele. Nick tem uma boa economia guardada, então até ele voltar a cantar, vai dar para segurar a barra.
- E onde ele está morando?
- Ele alugou um apartamento perto da faculdade. Nossa amiga Belinda também está envolvida nisso. Uma vez a peguei folheando uma revista de decoração...
- Ela ajudou Nick a decorar o apartamento?
- Mais ou menos. Quem fez tudo realmente fui eu com uma pequena ajuda do Nick.
- Então isso quer dizer que... – Lancei a dúvida no ar.
- Estamos pensando em morar juntos. Nick está sendo bem persuasivo nessa questão.
Nanda ficou um pouco constrangida quando terminou a frase.
- Vocês já... Quer dizer, não que isso seja da minha conta, mas... Já chegaram na segunda parte do relacionamento?
- Ivy... –Nanda falou um tom mais alto, mas logo começou a rir.
- Ué, não perguntei nada demais. Se o cara já te chamou para morar com ele, isso quer dizer que ele não faria o convite sem ter uma prova do produto, que no caso é você. Estou errada?
Nanda riu e eu a acompanhei.
- Sim, já passamos da segunda fase. Indo agora para a terceira.
- E quando você pretende se mudar?
- Eu não disse que iria...
- É claro que vai. A resposta está gritando na minha frente.
- Eu ainda não falei com minha mãe. Sei que ela vai falar alguma coisa, não que ela seja contra nosso namoro, é só que Nick e eu somos de classes totalmente diferentes.
- Bem, até onde eu sei, amor não tem classe, cor ou diferença... Amor é simplesmente amor.
- E desde quando você adquiriu tanta sabedoria, posso saber? – Disse Nanda colocando as mãos na cintura.
- Passar por uma experiência como a que passei e vir parar aqui.
Nanda perdeu o sorriso de imediato.
- Calma Nanda, eu estou bem. Eu realmente estou bem. Aqui, eu estou começando a me descobrir, estou me conhecendo melhor. – Disse não deixando meu sorriso morrer.
Com uma pequena ajuda do forasteiro. Um pensamento que guardei comigo.
- Fico feliz em ouvir isso. Eu realmente me importo com você.
- Eu sei, assim, como eu me importo com você.
Nanda me abraçou e ficamos assim por alguns segundos, até ela me soltar.
- Eu trouxe alguém comigo.
- Quem? Achei que eu só pudesse ter uma visita por semana.
- Mas essa visita é especial. Posso chamá-la?
- Claro que pode. É alguém que eu conheço?
- Você o conhece muito bem. Só um instante, vou buscá-lo.
Nanda se levantou e seguiu para a porta. Eu me levantei e dei uma arrumada rápida na minha roupa e nos meus cabelos que hoje eu estava usando um daqueles lenços que se faz um laço no alto da cabeça.
Segundos depois a porta abriu novamente e Nick entrou me oferecendo um sorriso maior do que o da Nanda. De cara logo percebi que ele estava mais magro, e seus cabelos estavam mais curtos, mas ainda assim era o mesmo Nick de sempre.
- E aí maluquinha, achou que eu não viria te visitar? – Perguntou enquanto me puxava para um abraço de urso.
- Você realmente é a última pessoa que eu esperava ver aqui. – Falei quando nos afastamos.
- Por que pensou isso?
- Bem, depois de te ver caído no chão daquele depósito e tudo por minha culpa, achei que nunca mais iria querer me ver novamente.
- Ivy, eu já falei o que penso sobre isso. – Nanda interviu.
- Nanda tem razão. Nada foi sua culpa. Foram à junção de vários acontecimentos que levou a tudo o que aconteceu. Mas eu não vim aqui para falar do passado. Vim ver você, saber como está indo sua recuperação... Enfim, saber de tudo.
- Então vamos sentar por a história é longa e temos pouco tempo.
Nós três rimos.
- Acho que estou indo muito bem. Tem vários malucos aqui e na maioria das vezes são normais. Estou falando malucos no bom sentido, entenderam? – Brinquei.
- Entendemos.
- Mas eu quero saber mais de vocês. Nanda disse que você alugou um apartamento...
- É verdade. Estou tentando convencer essa cabeça dura a vir morar comigo. – Disse Nick pegando na ponta do nariz da Nanda.
- Nick, não é assim tão fácil...
- Claro que é.
- Tem minha mãe...
- Eu já te disse que vou falar com ela. Sua mãe me adora, é claro que ela vai aprovar nossa decisão.
- Está vendo Ivy? Ele está tentando me convencer que minha mãe vai adorar a ideia que sua filha vai morar com o namorado com tão pouco tempo de namoro.
- Me desculpe Nanda, mas vou ter que concordar com Nick. Ele já provou que quer ficar com você. Quer prova maior do que bater de frente com o pai para ficar com você?
- Obrigada Ivy, eu sabia que você iria concordar comigo.
- Traidora.
- Eu prefiro o termo realista.
Nosso tempo juntos durou menos do que eu esperava. Só fiquei satisfeita por que os dois me prometeram que voltariam logo a me visitar. Eu ainda fiz Nanda prometer que ela iria pensar no pedido de Nick e que se eles fossem fazer uma festa para comemorar a nova vida juntos, teriam que esperar até eu sair da clínica. Eu queria muito estar presente quando isso acontecesse.
Eu tinha ganhado meu dia. Primeiro a carta do Forasteiro, depois a visita surpresa de Nick. Muito em breve, eu esperava voltar para minha vida, voltar para a faculdade... Continuar de onde eu tinha parado.
Depois do jantar, ainda fiquei um pouco conversando com restante do grupo. Gustavo sentou ao meu lado e ficou me olhando.
- O que foi?
- Você ficou mais feliz depois da visita.
- Você percebeu?
- Sim. Sempre que seus amigos vêm aqui, você fica com os olhos mais alegres. E por sinal, tem muitos amigos.
- Ainda bem. Eles montaram uma agenda de visitas. Hoje eu tive uma visita em dobro.
- Vi um cara entrando com sua amiga. Estava longe e não deu para ver direito. É seu namorado? É por isso que está mais feliz do que nas últimas vezes?
- Gustavo, você sabe muito bem que não tenho namorado. E o cara que você viu é o Nick, namorado da Nanda.
- Aquele cara que estava em coma?
- Sim. Ele mesmo.
- Quando ele acordou?
- Uma longa história. O importante é que ele veio. Eu estava com medo que Nick não quisesse mais falar comigo depois do que aconteceu... Mas ele veio e fiquei sabendo de várias novidades.
- E essa alegria é só por isso?
- Sim. Meus amigos estão bem, eu estou cada dia melhor. Acho que já posso ficar confiante que vou sair daqui em breve.
- Eu vou ficar triste com sua partida, mas também feliz que irá recuperar sua vida de volta.
- E você? Não fica pensando em sair daqui?
- Às vezes penso, às vezes não. Na verdade, acho que ainda não estou preparado para deixar esse lugar.
- Sei...
- Me acha medroso por ter esse pensamento?
- Medroso não seria a palavra. O que lhe falta é um pouco de confiança em você mesmo. Você tem planos, metas para cumprir? Quais são seus sonhos?
- Terminar a faculdade, eu acho.
- Engraçado, estamos aqui há quase o mesmo tempo, eu não sabia que você fazia faculdade.
- Eu faço medicina. Na verdade fazia. Até ser pego roubando medicamentos no hospital onde fazia estágio.
Gustavo me deu um sorriso amarelo.
- Mas esse não é o momento para falar sobre isso.
- Outro dia você me conta então?
- Claro, outro dia... Eu prometo. – Ele sorriu.
Minutos depois, André apareceu na sala e mandou para cada um ir para seu quarto. Quando voltei para o meu, eu estava mais que disposta a responder a carta do meu Forasteiro. Peguei meu caderno, minha caneta e comecei a escrever.