Esperança

1403 Palavras
Forasteiro Passei tanto tempo me escondendo atrás de festas, bebidas e garotos que hoje me sinto perdida e o pior de tudo, sem saber como me encontrar. Você conseguiu ver através da máscara que usei e isso me surpreende,  você foi o primeiro e único a perceber. Por mais que eu queira abrir meu coração para você preciso dar um passo após o outro. Eu sei que posso ser muito feliz e alcançar grandes sonhos, mas no momento estou esperando minhas asas crescerem. Tudo que você tem me dito é maravilhoso e me enche de esperança,  e mesmo que você também tenha problemas,  sinto que posso aprender com você e viver coisas novas. O meu maior receio é você não poder esperar a minha cura. Eu peço aos céus que você tenha fé em mim e paciência. Ivy  Esperei dias por essa carta, pensando a todo o momento que talvez ela não fosse me responder. Mas aqui está ela... Sua carta. Suas palavras são carregadas de emoções, e todas a prendendo ao passado. O que eu não daria para estar agora ao seu lado. Quero ver seu sorriso de volta, aquele que sempre me iluminou quando eu estava entregue à escuridão. As imagens que mais dominam meus pensamentos são pequenos gestos que ela fazia quando estava nervosa e achava que ninguém estava vendo. Um olhar atravessado quando via algo que a deixava intrigada. Suas bochechas vermelhas quando ficava nervosa ou zangada. A maneira como ficava enrolando uma mexa de seus cabelos no dedo quando o professor falava mais que o padre na missa de domingo. São gestos como esses que me fazem querer ter ela perto de mim. Quero poder tocar seu rosto quando estiver prestes a beijá-la. Quero capturar o sorriso descontraído e debochado quando ela fala uma besteira e todos acham engraçado. Quero até mesmo fazer a cena mais i****a do mundo que é andar de mãos dadas na rua. O que ela diria se me conhecesse hoje? Iria me tratar de maneira diferente? Iria me ignorar, como me fez por meses seguidos? Confesso que o meu medo de contar a verdade, seja simplesmente o fato que ela não queira me dar uma chance. Ainda não é o momento de me apresentar. Como ela mesma disse, ela está procurando seu caminho. Eu quero que ela faça isso, que se encontre novamente. E quando isso acontecer, eu quero ser o primeiro que ela verá no final da estrada. - Não acredito que você ainda está aqui lendo essa carta novamente. – Raquel entra no meu quarto sem bater na porta. Ela tem a mania h******l de fazer isso. Qualquer dia desses, corro o risco dela me encontrar sem roupa. O que seria uma cena bem engraçada. - Ainda não aprendeu a bater na porta Raquel? Eu poderia estar sem roupa. - Uau. Quando vou ter essa sorte? – Ela fala rindo. - Raquel, você tem dezesseis anos, e se me lembro bem, seu pai é muito ciumento... Se ele pelo menos sonhar que você anda invadindo meu quarto... - Nunca invadi seu quarto. O problema é que você sempre deixa a porta aberta. - Eu não durmo aqui sozinho, veja ao seu redor, quantas camas você está vendo além da minha? Ela olhou para as camas, mas não respondeu. - Você precisa parar de fazer isso. Eu gosto do meu emprego e pretendo ficar aqui por um bom tempo. Se seu pai pegar marcação comigo por sua causa, vou ter que ir embora. É isso que você quer? - Não! Claro que não! - Então, agora vamos combinar uma coisa... - Qualquer coisa, só não fala mais que vai embora, ok? - De hoje em diante você sempre irá bater na porta antes de entrar. - Combinado. Raquel saiu do quarto fechando a porta. Segundos depois, ouvi uma batida. - Quem é? - Sou eu, Raquel, posso entrar? Balancei a cabeça e tentei não rir. - Pode. Ela abriu a porta e colocou só a cabeça. - Tem um tempinho livre? Preciso te mostrar uma coisa. - Estou de folga... Então sim... Eu tenho um tempinho livre. O que está aprontando? - Quem disse que estou aprontando? - E quando você não está aprontando? * Raquel me levou para um terreno onde segundo ela irão começar a construir uma escola de verdade para as crianças da região. Ainda estava coberto de mato, mas já dava para ver que seria melhor do que o galpão onde eu estava dando aula. - Como você soube disso? Seu pai te contou? - Até parece que meu pai fica me contando sobre seus projetos. – Disse revirando os olhos. Raquel tem a mesma mania de Ivy, de revirar os olhos quando está falando com desdém de uma situação. Por um momento o rosto de Ivy se formou na minha frente. Parecia que eu estava vendo ela de verdade. - Vinny, você está me ouvindo? A voz de Raquel me trouxe de volta. - Me desculpe, o que estava dizendo? - Sabia que você fica com cara de i****a o dia inteiro quando recebe uma carta? O que tem de tão importante nelas para te deixar assim? - Coisas de adultos. - E o que eu sou? - Uma adolescente, e por sinal muito irritante. - Eu não sou irritante. Temos quase a mesma idade... - O seu quase é bem diferente do meu. Sou seis anos mais velho. - Grande coisa. – Disse cruzando os braços sobre o peito em sinal de protesto. - Você fica uma gracinha quando está com a cara amarrada. – Eu falei apertando sua bochecha. - Não sou corda para estar amarrada. E para sua informação, eu não estou com a cara amarrada. Raquel me deu as costas e saiu pisando forte para sua casa. - Ei Raquel, volta aqui... Eita que garota esquentada. – Falei rindo, fazendo meu caminho de volta para o meu quarto. * O r**m de cidade pequena, é que não tem nada de interessante para passar seu tempo. De vez em quando, ou na maior parte do tempo, sinto falta de festa, grandes grupos de amigos bebendo e se divertindo. Acho que ainda vou levar tempo para me adaptar de vez a esse lugar. Conviver com crianças foi uma coisa que eu descobri que eu gostava. Nunca tive muitos amigos, e o fato de ser filho único não me ajudou muito. Lembro-me da minha casa, uma área pequena localizada nesses condomínios de prédios construídos pela prefeitura para famílias com baixa renda. A casa tinha, quer dizer, ainda tem dois quarto, uma sala minúscula que m*l cabe um sofá de dois lugares, uma cozinha, e um banheiro onde o chuveiro vive quebrando. Cresci querendo ter a sorte que outros da minha idade tinham. Eu queria ter dinheiro, roupas de marca, tudo que um filhinho de papai tinha. Agora, depois de conhecer Ivy, percebi que ter dinheiro, não significa ter felicidade. Ela sempre teve de tudo, mas não foi o bastante para satisfazê-la. Vejo o quanto eu errei buscando a minha maneira de ser feliz. De vez em quando, tenho vontade de ligar para meus pais, saber como eles estão, mas sempre desisto quando penso em tudo que fiz e que os magoei no caminho. Acho que eles estão bem melhores sem mim. Quem sabe, se eu conseguir ajudar Ivy a passar por essa fase r**m da sua vida, eu consiga o perdão de Deus por tudo que fiz e que estou fazendo meus pais passarem. Essa é só mais um desejo entre tantos, que eu quero realizar para poder me sentir finalmente em paz. Olho para o relógio e fico imaginando o que ela estará fazendo a essa hora. Passa um pouco das dez da noite, com certeza já deve estar dormindo. Será que está pensando em mim? Será que está ansiosa para receber minha próxima carta? São tantas perguntas sem respostas. Tantas dúvidas. Nessa confusão de sentimentos, só tenho uma única certeza. Eu preciso de Ivy, tanto quanto ela precisa de mim. Somos nós dois contra o mundo. Eu preciso escrever para ela. Dizer que estou aqui, que pode contar comigo, ainda que eu não possa revelar meu nome. Essa será minha nova missão, fazer com que Ivy se encontre, para depois me encontrar. Pego o caderno que está guardado debaixo do meu colchão, abro em uma folha qualquer, pego uma caneta e começo a escrever.
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