Capítulo 50

1426 Palavras
Iris González Eu estava terminando de ajeitar os cachos do meu cabelo, ainda com a mente um pouco perdida, quando ouvi a buzina do carro de Domenico. Meu coração deu um salto, e uma onda de ansiedade me invadiu. Aquele simples som me lembrava de como a presença dele me afetava. Ele estava me esperando, como prometido. Dei uma última olhada no espelho, ajustando mais uma vez alguns fios de cabelo, e, com um suspiro, peguei minha bolsa, trancando a porta do apartamento. O que me esperava hoje era algo novo. Algo que eu não sabia muito bem o que seria, mas que, de alguma forma, me deixava com uma sensação boa. Assim que eu saí para encontrá-lo, não pude deixar de sorrir. Ele estava lá, me esperando, vestindo um conjunto de moletom e tênis, completamente diferente do homem que sempre estava envolto em ternos e atitudes formais. Mas, no fundo, ele era o mesmo. O mesmo sorriso irresistível. A mesma presença que me fazia perder o rumo. Ele me viu e logo sorriu, aquele sorriso que nunca falhava em me deixar sem palavras. — Ciao, la mia bella. — A voz dele, suave e calorosa, me envolveu como sempre. Ele me puxou para um beijo, aquele beijo rápido, mas com a intensidade de quem sente a falta da outra pessoa. — O que vamos fazer hoje? — perguntei assim que nos afastamos. — Hoje quero você apenas para mim. — Ele disse com um olhar intenso, e eu senti a sensação de ser completamente tomada por ele, mesmo com aquelas poucas palavras. Meu coração acelerou de um jeito que me fez rir. A ideia de passar o dia com ele, sem pressa, sem compromissos, me parecia maravilhosa. Ele abriu a porta do carro, me guiando para o banco do passageiro. O caminho até o seu apartamento foi tranquilo, mas, em cada quilômetro que passava, eu sentia a tensão de estar prestes a conhecer um lado mais íntimo de Domenico. Eu sabia que ele estava me mostrando algo mais pessoal. Chegando ao prédio, a magnitude do lugar me deixou sem palavras. O edifício era imponente, com um ar de riqueza e sofisticação que contrastava com tudo o que eu já tinha visto até então. Ao lado de Domenico, eu me senti pequena, mas, ao mesmo tempo, segura. Como se, naquele momento, eu fosse a única pessoa que importasse para ele. Ele estacionou o carro e, com uma suavidade que só ele tinha, abriu a porta para mim. Juntos, caminhamos até o elevador. Eu podia sentir sua mão em minha cintura, como se ele não quisesse me deixar escapar, e, ao mesmo tempo, sentia um calor no peito que me fazia me aproximar mais dele, sem querer pensar no que viria a seguir. Quando chegamos ao apartamento, fui tomada por uma sensação de surpresa. O lugar era perfeito e a cara dele. Elegante, com um toque de poder e sofisticação que representava tudo o que Domenico era, mas ao mesmo tempo acolhedor, como se ele estivesse tentando me mostrar um lado dele que eu ainda não conhecia. Me perdi por um momento, olhando pela grande janela de vidro, observando a cidade lá embaixo. Nunca imaginei estar em um lugar como aquele. Eu estava longe da minha realidade, mas com ele ao meu lado, me sentia em casa. — Gostou? — Ele perguntou por trás, seu tom suave preenchendo o silêncio. Eu sorri sem virar, ainda olhando para a cidade. — É lindo, Domenico. Combina com você. — Respondi com sinceridade. Ele se aproximou, abraçando-me por trás. Seu corpo tão perto do meu me fez sentir um calor repentino. O toque dele era sempre como uma chama que acendia algo em mim. — O que você quer fazer hoje? — Perguntei sentindo sua respiração quente em minha nuca. A verdade era que, naquele momento, o que eu mais queria era estar ao lado dele. Sem pressa. Sem preocupações. — Acho que não seria uma má ideia passarmos o dia deitados juntos. — Ele disse soltando um leve riso. Eu ri da sua voz profunda e cheia de satisfação. — Vou preparar um café da manhã para nós. — Ele falou, me soltando com um gesto suave. A cozinha era integrada à sala, então eu podia vê-lo enquanto ele preparava o café. Comecei a andar pelo ambiente observando os detalhes. Cada objeto, cada móvel parecia refletir a personalidade de Domenico, e isso me deixava mais fascinada a cada passo que dava. Foi então que percebi a foto na parede. Uma foto em que Domenico aparecia, junto com seus pais, uma moça e um homem que eu logo reconheci como seu irmão. Eles estavam em uma sala ampla e luxuosa, e ao fundo, um brasão de família exibia o nome Carbone. Domenico apareceu atrás de mim, parecendo notar meu olhar. — Aqueles são meus pais e meus irmãos. — Sua voz carregava um peso. Ele suspirou, parecendo afastar-se do presente por um momento. Quando ele continuou, seu tom foi suave, mas carregado de uma melancolia sutil. — Eu queria ter te mostrado uma vida mais leve, Iris. — Ele disse, com a voz um pouco rouca. — Mas essa é a minha realidade. Desde os quatorze anos, eu fui introduzido nesse mundo criminoso, sem escolha. Fomos treinados desde cedo. Eu não tive adolescência, meu irmão não teve infância… Apenas Donatella que pode viver um pouco mais tranquila, mas ainda sim recebeu seu treinamento. Eu me virei para ele, minha mão automaticamente buscando a dele. Segurei sua mão com carinho, tentando transmitir a ele algo que as palavras não poderiam. — Isso não define quem você é, Domenico. — Falei, com a voz firme, mas doce. — No começo, eu fiquei receosa. Mas agora… agora eu sei que você não é a máfia. Você é alguém que não teve escolha, alguém que foi empurrado para isso. E mesmo assim, você é muito mais do que isso. Ele sorriu, mas o sorriso era pequeno, quase triste. — Eu gostaria que as coisas tivessem sido diferentes. — Ele disse, antes de me puxar para um abraço apertado. — Eu gostaria de ter tido mais tempo com o meu irmão. Mas a vida… a vida nos colocou em um caminho que não podíamos escolher. Eu o abracei de volta, sentindo seu corpo relaxar contra o meu. Ele estava se permitindo, ao menos por aquele momento, ser vulnerável. E isso me fazia admirar ainda mais a coragem dele. — Como era a relação entre vocês? — Perguntei me afastando levemente. Ele sorriu, o sorriso agora mais amplo. — Bom, atualmente é boa. Todos nós nos entendemos e nos apoiamos, mas, quando éramos mais jovens, as coisas eram diferentes. Eu queria jogar bola com o meu irmão, mas ele estava sempre ocupado com os negócios da família. O que me restou foi ser o mordomo das bonecas da minha irmã.— Ele riu, e eu o acompanhei com uma gargalhada. — E seus pais? — Perguntei, querendo saber mais. Ele ficou pensativo, os olhos suavizando com as memórias. — Meu pai… bom, ele sempre foi durão e rígido, mas agora ele relaxou um pouco. E minha mãe… ela sempre foi um doce. Ela sempre quis o melhor para nós, sempre preocupada e carinhosa. Eu o ouvi atentamente, percebendo como, por mais que tivesse crescido em um mundo de poder e dinheiro, ainda existia uma humanidade imensa dentro dele. E, naquele momento, percebi que o dinheiro nunca poderia ser o que realmente definia alguém. Eu segurei sua mão, apertando-a levemente, e ele me olhou com um sorriso sincero. — Obrigada por me contar tudo isso, Domenico. — Falei, minha voz suave e cheia de gratidão. — Significa muito para mim. — Ele sorriu e me guiou até a mesa. Depois de tomarmos o café, ele me puxou para a sala e me deitou no sofá, com minha cabeça descansando no peito dele. Senti o calor do seu corpo e o ritmo tranquilo de seu coração, como se ele fosse o meu porto seguro. Nunca me senti tão confortável antes. Com ele, eu sabia que havia encontrado um refúgio. Um lugar onde poderia ser eu mesma, sem medo de ser julgada. E, mais importante, eu sabia que não estava sozinha. Ele estava comigo, e nada mais importava. No meio de tudo o que estávamos vivendo, eu encontrei a felicidade, não nas grandes promessas ou gestos, mas nos momentos simples, nos carinhos trocados, nas palavras suaves e no calor do toque dele. E isso, para mim, era o suficiente.
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