Iris González
A manhã no restaurante passou arrastada. Embora o movimento estivesse normal, minha cabeça estava longe dali. Era difícil focar nas mesas, nos pedidos e nas conversas dos clientes quando eu sabia que, em poucas horas, daria um dos maiores passos da minha vida. Procurar um novo lar.
As palavras ecoavam na minha mente como algo grande, intenso. Novo lar. Novo começo.
Uma parte de mim estava ansiosa, animada até. Mas outra parte, aquela que ainda lutava contra os fantasmas do passado, sussurrava que eu não deveria. Que talvez eu não merecesse algo melhor.
Sacudi a cabeça, afastando os pensamentos enquanto limpava uma mesa perto da janela.
— Iris, querida. Tudo bem?
Me virei e vi Camilo atrás do balcão, começando a organizar alguns papéis. Aproveitei a oportunidade e caminhei até ele.
— Camilo, posso falar com você um minuto?
Ele ergueu os olhos e sorriu.
— Claro. Aconteceu alguma coisa? — Respirei fundo antes de responder.
— Eu queria saber se poderia sair mais cedo hoje. Marquei algumas visitas para ver apartamentos. Preciso me mudar o quanto antes.
Camilo piscou algumas vezes antes de abrir um sorriso genuíno.
— Você vai se mudar? Isso é ótimo, Iris!
A empolgação dele me pegou de surpresa.
— É, eu… acho que está na hora. — Ele assentiu com convicção.
— Sem dúvidas. Você merece um lugar melhor. Pode ir sem preocupação. Hoje o movimento está tranquilo, conseguimos segurar as coisas por aqui. — O alívio me tomou por inteiro.
— Muito obrigada, de verdade.
— Boa sorte. Espero que encontre um lugar maravilhoso. — Sorri e me afastei voltando a atender os clientes.
Por volta das 13h, peguei minhas coisas e saí do restaurante vendo Domenico encostado no carro, me esperando na calçada. Meu coração deu um leve salto ao vê-lo. Ele vestia um terno escuro impecável e segurava a chave do carro entre os dedos, girando-a devagar. Assim que me viu, abriu um meio sorriso e se afastou do carro, vindo ao meu encontro.
— Ciao, mia luce.
Antes que eu pudesse responder, ele se inclinou e deixou um beijo suave na minha bochecha. O toque foi breve, mas o suficiente para fazer meu rosto esquentar.
— Oi, Domenico.
Ele abriu a porta do carro para mim, um gesto pequeno, mas que sempre me deixava sem jeito. Quando entrei, ele deu a volta e assumiu a direção.
— Como foi a noite? — perguntou, me lançando um olhar rápido antes de ligar o carro. — Escutou algo estranho no prédio?
A pergunta fez um arrepio subir pela minha espinha.
— Nada demais. — Dei de ombros. — Só alguns vizinhos brigando, mas isso já virou rotina.
Domenico franziu o cenho.
— Isso não é normal, dolcezza.
Ele sempre dizia isso. E eu sabia que tinha razão.
O caminho até o primeiro apartamento foi tranquilo. Domenico dirigia com uma mão no volante e a outra descansando casualmente em minha perna. Em alguns momentos, seus dedos tamborilavam contra o tecido da calça, e eu percebi que ele estava pensativo.
Quando chegamos, uma mulher de salto alto e vestido elegante nos esperava em frente ao prédio.
— Senhorita Iris? Sou Valeria, a corretora. — Ela sorriu antes de olhar para Domenico. — E este é…?
— Domenico. — Ele apertou a mão dela, mantendo a outra pousada levemente na minha cintura.
Tentei ignorar o arrepio que percorreu meu corpo com aquele toque, mas era impossível. Domenico me despertava sensações que eu nem sabia que existia.
A corretora nos guiou para dentro do prédio e subimos pelo elevador. Aquele primeiro apartamento era bonito, espaçoso e bem iluminado. Todos os cômodos já estavam mobiliados, e o sofá na sala parecia confortável.
Domenico me observava com atenção enquanto eu caminhava pelo espaço, analisando cada detalhe.
— O que acha? — perguntou, a voz calma, mas cheia de interesse.
Mordi o lábio.
— Eu gostei, mas… a localização não é muito boa. Fica longe do restaurante, e eu acabaria gastando muito com transporte.
Ele assentiu, como se já esperasse essa resposta.
Seguimos para o segundo apartamento. Esse ficava mais perto do centro, o que era um ponto positivo, mas tinha um problema: não era mobiliado.
— Isso significa que você teria que comprar tudo, certo? — Domenico perguntou, analisando o espaço.
Assenti, cruzando os braços.
— Sim… e eu não tenho dinheiro para isso agora.
Ele respirou fundo, como se quisesse dizer algo, mas se conteve.
Quando chegamos ao terceiro apartamento, senti algo diferente. Era menor que o primeiro, mas ainda assim aconchegante. Os móveis eram novos, as janelas permitiam uma boa iluminação natural e, ao fundo, havia uma varanda com uma vista incrível.
Domenico permaneceu próximo a mim o tempo todo, como se sua presença pudesse me dar segurança.
— O que achou desse? — Sua voz saiu suave quando chegamos à varanda.
A brisa fria tocou minha pele, e eu observei a paisagem. O centro da cidade estava ali, não muito longe, e as montanhas ao fundo pareciam um quadro perfeito.
Fechei os olhos por um momento, tentando me imaginar ali. Conseguia me ver preparando o café da manhã naquela cozinha. Me via sentada no sofá, descansando depois de um longo dia de trabalho. Pela primeira vez, senti que aquele poderia ser um lar.
Abri os olhos e olhei para Domenico.
— Eu gostei. Eu me imagino vivendo aqui. — Ele sorriu, satisfeito.
— Então, se quiser, esse será o seu lar.
Suspirei ao ouvir os passos da corretora se aproximando.
— O que acharam? — Respirei fundo.
— Eu gostei, vou ficar com esse. — Valeria sorriu e começou a explicar os próximos passos, falando sobre o depósito do primeiro aluguel e a entrega das chaves. Domenico permaneceu ao meu lado o tempo todo, ouvindo tudo atentamente.
Quando saímos do prédio e entramos no carro, fiquei em silêncio por alguns minutos.
Eu deveria estar feliz. E eu estava. Mas uma inquietação começou a crescer dentro de mim.
Domenico, como sempre, percebeu de imediato.
— Piccola, o que está acontecendo?
Baixei o olhar para minhas mãos.
— Ainda é difícil para mim fazer algo por mim mesma… mesmo que seja só ter um pouco de conforto.
Ele segurou meu queixo suavemente, me fazendo encará-lo.
— Você merece isso, Iris. Merece ter um lar confortável, merece se sentir segura. Merece ser feliz.
Minha garganta se apertou.
— Eu… obrigada, Domenico.
Ele sorriu e, antes de dar a partida, deixou um beijo suave nos meus lábios.
Eu sorri e Domenico começou a dirigir dali direto para o banco.
Após os pagamentos e a entrega das chaves, percebi que não havia mais volta. Minha vida estava mudando. E pela primeira vez, eu me permitia aceitar isso.