Domenico Ricci
Deixei Iris na quitinete, mas minha mente não saiu de lá.
A cada passo para longe, sentia um incômodo crescendo no peito. Era instinto. Uma voz interna que sussurrava que aquele lugar não era seguro para ela. Eu não gostava daquele prédio, nem da vizinhança, nem do fato de que ela passava as noites ali, sozinha.
Antes de sair, fiz o que precisava ser feito. Passei pelos cômodos mínimos, chequei portas e janelas, analisei cada canto do ambiente. O espaço era pequeno, apertado, e de certa forma aquilo me irritava. Como alguém como Iris podia viver ali? Ela era feita para muito mais.
Iris não disse nada, mas seu olhar entregou o que sentiu. Uma mistura de surpresa e compreensão. Ela sabia que, se eu estava daquele jeito, era porque havia uma razão.
Ela ficou parada, segurando as flores que eu tinha lhe dado mais cedo, o perfume suave se misturando ao cheiro do quarto abafado. Eu queria dizer para ela pegar suas coisas e vir comigo, mas sabia que se fizesse isso, poderia assustá-la.
Ela precisava dar esse passo sozinha. Mas eu garantiria que ela soubesse que não estava sozinha nisso.
— Fica de olho, stellina. Se notar qualquer coisa estranha, me chama.
Toquei seu rosto antes de ir. Deixei um beijo demorado em sua testa e depois outro nos lábios. Algo dentro de mim gritava para não deixá-la ali, mas me obriguei a recuar.
Assim que saí do prédio, caminhei devagar pela calçada, observando a vizinhança. Movimentos suspeitos. Carros estacionados há tempo demais. Rostos desconhecidos.
Tudo parecia calmo. Mas eu não confiava na calma.
Subi no carro e dirigi sem rumo por alguns minutos, tentando dissipar a inquietação, mas não adiantou. Meus dedos tamborilavam no volante, a tensão percorrendo meu corpo. Suspirei tentando me concentrar.
Eu ainda precisava trabalhar.
Dirigi até o Il Lupo. Um dos cassinos de alto nível da família, onde o dinheiro trocava de mãos a cada segundo. Luxo, poder, jogadas arriscadas, tudo o que eu conhecia bem.
Assim que entrei, os olhares se voltaram para mim.
— Chefe. — Luca disse com um aceno discreto. Outros clientes apenas observavam, tentando entender quem eu era.
Passei pelo salão principal sem pressa, observando tudo ao meu redor. Jogadores concentrados nas roletas, homens engravatados murmurando acordos em cantos discretos, mulheres bem-vestidas servindo-se de champanhe.
Era o meu território. Mas, pela primeira vez, eu não me sentia realmente presente ali.
Minha mente estava em outro lugar.
Ou melhor, nela.
Segui até meu escritório, onde precisava revisar alguns números. Mas a verdade era que eu não conseguia me concentrar.
Os números no papel pareciam se embaralhar na minha frente. Pensei no dinheiro que Iris tinha recebido, no alívio e na surpresa em seu rosto quando viu as notas. Pensei no que aquilo significava para ela.
Aquele salário era o primeiro passo para sua liberdade.
De repente, meu celular vibrou sobre a mesa, tirando-me dos pensamentos.
Peguei o aparelho, e a tensão no meu corpo aumentou ao ver o nome dela na tela.
Abri a mensagem de imediato, já preparado para agir.
"Domenico, você pode me ajudar a escolher um lugar para morar?"
Parei por um momento.
Ela estava me pedindo ajuda.
Senti uma onda inesperada de alívio e satisfação percorrer meu peito. Ela queria que eu estivesse envolvido nisso.
E, acima de tudo, ela queria sair daquela quitinete.
"Claro, mia luce. Vai ser uma honra."
Respondi sem hesitar e a resposta veio logo em seguida.
"Marquei algumas visitas para amanhã. Você pode ir comigo?"
Sorri de lado, sentindo um calor diferente se espalhar pelo corpo.
"Eu te levaria mesmo se não pedisse."
Eu conseguia imaginar o rosto dela corando ao ler aquilo.
Iris tentou rebater com um “Eu sei que sim”, e minha risada escapou antes que eu percebesse.
Deixei o celular de lado, encostando-me na cadeira.
Era isso. Ela estava pronta para sair de lá.
Minha intuição não errava. A quitinete não era segura. Venâncio e Aleff não tinham revelado todos os nomes por trás do tráfico humano, e isso significava que algumas das vítimas ainda poderiam ser alvos.
E eu não permitiria que ela fosse uma delas.
Levantei e saí do escritório, voltando ao salão principal do cassino. Meu olhar percorreu as mesas de apostas, os rostos conhecidos e desconhecidos, os seguranças estrategicamente posicionados. Tudo estava sob controle.
Aproximei-me do bar, pedindo um whisky. O líquido âmbar preencheu o copo enquanto minha mente traçava novos planos.
Cada gole descia queimando pela garganta, mas não era o álcool que me aquecia.
Era a certeza do que estava acontecendo.
Eu estava me apaixonando por ela.
E isso não me assustava.
Pelo contrário, me fazia sentir vivo de um jeito que eu nunca tinha sentido antes.
Antes, minha vida girava em torno do luxo, do poder, das jogadas calculadas. Agora, girava em torno de algo muito maior.
Companheirismo. Cuidado. Proteção.
Amor.
O amor que estava crescendo a cada dia mais por minha luz. Minha stellina.