Capítulo 44

947 Palavras
Iris González O silêncio da quitinete era denso, preenchido apenas pelo leve zumbido do ventilador e pelo som dos trovões distantes. Era uma noite quente e abafada, e a atmosfera parecia refletir as minhas emoções, que estavam pesadas. Domenico tinha acabado de sair, depois de fazer uma verdadeira varredura no prédio, verificando cada canto e garantindo que não havia nenhum perigo por perto. Eu sabia que ele estava armado. A mão sobre o cós da calça era um alerta claro, sinal de que ele estava sempre pronto para agir. E eu não podia negar que isso me fazia sentir segura, mesmo que esse mundo fosse tão diferente do meu. Ele saiu depois de ter certeza de que estava tudo certo, mas não sem antes me dar um beijo na testa e me pedir para entrar em contato se percebesse qualquer coisa estranha. Sua preocupação era palpável, e mesmo sabendo o quão distante nossa realidade era, aquilo me fazia sentir protegida de uma forma que eu nunca tinha experimentado antes. Agora, sozinha, olhei ao redor da quitinete. Cada pedaço do lugar me lembrava o quanto era precário viver ali. Tomei um banho rápido, me sentindo mais leve, e depois comi algo simples. Estava cansada, mas minha mente estava acelerada. Quando me sentei na cama, o dinheiro que tinha juntado nos últimos meses estava ali diante de mim. Estiquei as mãos para ele, tocando as notas com cuidado, como se aquelas cifras representassem mais do que apenas valores monetários. Elas eram o simbolismo de todo o esforço que fiz para chegar até aqui, e talvez, finalmente, a oportunidade de dar o próximo passo. No total, haviam seis mil euros. Não era uma fortuna, mas para mim, era o suficiente para um novo começo. Mas o que eu faria com isso? O que era realmente importante? Eu queria dar o primeiro passo para uma vida diferente, mas ainda me questionava se seria a decisão certa. Não queria perder a chance de fazer algo bom por mim mesma, mas também não queria ser egoísta. Sentei-me novamente, olhei o celular e comecei a pesquisar por apartamentos em Turim. Quando vi os preços, meu coração afundou um pouco. Alguns eram absurdamente caros, mas aos poucos, ajustando a pesquisa, encontrei alguns lugares dentro da minha faixa de preço. Apartamentos pequenos, mas com mais estrutura do que a quitinete onde eu estava. Lugares que tinham mais chances de me fazer sentir mais em casa, mais confortável. Eu observei as fotos, imaginei minha vida ali, mas a indecisão me paralisou. Será que realmente valeria a pena? E, mais importante, será que eu deveria gastar esse dinheiro comigo? Com minha vida? Ou deveria continuar mandando o que conseguia para minha família? A dúvida me consumia, mas então, como se ele tivesse lido meus pensamentos, Domenico apareceu na tela do celular. "Oi, Domenico. Você ainda está acordado?" Ele respondeu quase imediatamente, o que me fez sorrir sem querer. "Queria saber como você estava." Eu me senti um pouco boba, mas não pude evitar a sensação de conforto que aquelas palavras traziam. "Está tudo bem. Eu só… estava olhando alguns apartamentos para alugar e queria saber sua opinião." Dessa vez, ele demorou um pouco mais para responder, o que fez meu coração bater mais forte. Ele parecia estar pensando no que dizer. "Você precisa de ajuda para escolher um lugar?" Aquilo me fez suspirar aliviada. Ele não estava pressupondo o que eu deveria fazer, mas me oferecia o suporte que eu precisava. Era como se ele soubesse exatamente o que dizer para me tranquilizar. "Eu adoraria sua ajuda… Não sei se estou escolhendo certo." Ele respondeu rapidamente, com aquele jeito firme que me fazia sentir segura. "Está fazendo o necessário, piccola. Me avise os lugares e eu vou com você, sem pressa, e podemos ver tudo com calma." Meu peito aqueceu com as palavras dele. Ele não estava apenas oferecendo ajuda, ele estava se colocando à disposição para me apoiar no que fosse necessário. "Você me faz sentir mais segura. Agradeço por tudo." "É para isso que estou aqui, mia cara. Vou estar com você em cada passo, pode contar comigo." O sorriso que surgia no meu rosto era inevitável. Ele conseguia transformar qualquer momento, até mesmo o mais simples, em algo significativo. "Então, eu vou marcar as visitas para amanhã. Acha que seria bom?" "Perfeito. Me avise o horário e eu te busco, como sempre." Eu ri baixinho ao ler a última parte. "Eu sabia que você diria isso." "Porque é o meu dever garantir que você esteja bem, confortável e segura. E você já deveria saber disso." Eu não podia deixar de sorrir, o toque de brincadeira na conversa fazendo com que me sentisse mais leve. "Muito obrigada, Domenico. De verdade." "Agora vá descansar, amanhã será um grande dia. Vamos encontrar o melhor lugar para você, ok?" Era incrível como ele fazia tudo parecer tão fácil, como se todas as preocupações do mundo pudessem ser resolvidas com uma palavra ou um gesto dele. E, de certa forma, ele estava certo. Talvez esse fosse o primeiro passo para a mudança que eu tanto buscava. Com as últimas palavras de Domenico ecoando na minha mente, deitei-me na cama e olhei para o dinheiro espalhado ao meu lado. Seis mil euros. Aquele era um momento que eu sabia que jamais poderia voltar atrás. Mas agora, sentia que estava no controle de algo, talvez pela primeira vez. Olhei mais uma vez para o celular, onde a última mensagem de Domenico brilhava na tela. Ele estava certo. Esse seria, sem dúvida, um grande dia. Eu sabia que, por mais difícil que fosse, estava começando a escrever uma nova história para mim mesma.
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