Iris González
O ritmo do restaurante parecia não mudar, uma sequência de tarefas que se repetiam de maneira quase automática. Eu já conhecia todos os passos: pegar a bandeja, entregar os pratos, recolher os pedidos, limpar as mesas. Mas, dessa vez, o que preenchia minha mente não era o barulho das conversas ao redor ou o cheiro da comida. Não, hoje meu pensamento estava em Domenico, e eu não conseguia afastá-lo.
A última semana foi… diferente. Ele vinha me buscar todos os dias pontualmente, com aquele sorriso que me fazia sentir algo em meu peito, algo que eu não sabia explicar completamente, mas que já dominava meus pensamentos. Ele era gentil de uma maneira que me fazia sorrir sem perceber. Cuidava de mim, sempre me chamando de “piccola” e, no começo, eu não sabia o que pensar disso. Ficava um pouco confusa, talvez, mas ele fazia tudo com tanta sinceridade que não havia como não me sentir aquecida por dentro.
Hoje, no restaurante, minha cabeça estava longe. Eu tinha acabado de passar por mais uma entrega de pedidos, mas o sorriso de Domenico estava lá, estampado em minha mente. Eu m*l percebia o tempo passar, até que uma voz me tirou da minha distração.
— Iris, pode vir aqui um minuto? — Camilo me chamou da porta do escritório, seu tom sempre suave e amigável.
Eu dei um último olhar para as mesas e caminhei até o local onde ele estava. Camilo era um homem mais velho, mas com uma energia que transbordava simpatia. A cada dia que passava, ele me surpreendia mais, principalmente porque era tudo o que Venâncio não era. Ele era atento, carinhoso, e, de alguma forma, sempre fazia com que eu me sentisse mais valorizada.
— Claro, Camilo. O que foi? — perguntei enquanto me aproximava.
Ele estendeu o envelope com o pagamento do mês.
— Pode conferir, Iris. Aqui está o seu pagamento.
Eu peguei o envelope, sentindo a textura do papel. A princípio, era só mais um mês, mas algo me dizia que havia algo diferente. Abri o envelope e comecei a contar as notas, quando um número me chamou a atenção. Cinco mil euros. O dobro do que eu costumava receber. Eu parei e olhei para Camilo, surpresa.
— Camilo, acho que há um erro. — eu disse, a voz trêmula. — Este valor é muito maior do que o meu salário.
Camilo sorriu gentilmente, como sempre fazia, e me olhou com paciência.
— Não há erro, Iris. Este é o seu novo salário. Você merece. Eu decidi fazer a mudança e achei que já estava na hora. Aproveite o aumento, ok?
Eu fiquei parada ali, olhando para o dinheiro, tentando processar o que estava acontecendo. Era mais dinheiro do que eu jamais imaginara ganhar. Era como se o universo estivesse me oferecendo uma chance de melhorar minha vida de uma forma que eu nunca teria imaginado.
— Mas… Camilo, é muito. — eu murmurei, ainda sem acreditar.
Ele balançou a cabeça com um sorriso tranquilo.
— Você merece, Iris. Trabalha duro todos os dias. Agora faça bom proveito. — Ele fez uma pausa, e então acrescentou: — Eu preciso ir ver meus netos agora. Você pode ir quando estiver pronta.
Eu assenti, mas fiquei ali, parada, segurando o envelope como se ele fosse me guiar em algum lugar. Como eu faria isso? O que eu faria com todo esse dinheiro? E, mais importante, o que eu faria com minha vida agora?
Foi quando meu celular tocou, interrompendo meus pensamentos. Olhei para o visor e vi o nome de Domenico. Meu coração disparou, e eu atendi rapidamente.
— Ciao, piccola. — A voz dele soou preocupada. — Onde você está? Está tudo bem?
Eu sorri ao ouvir o tom de preocupação em sua voz, mas tentei me acalmar.
— Eu estou bem, Domenico. Só estou no restaurante. — Enquanto falava, comecei a guardar o envelope na minha mochila, ainda tentando compreender o que estava acontecendo.
Ele fez uma pausa, e então ouvi um suspiro.
— Eu estou te esperando faz vinte minutos, e você ainda não saiu. Fiquei preocupado. — Domenico disse, a voz dele carregada de uma suavidade que fez meu coração derreter.
Eu olhei para o relógio e percebi que, realmente, tinha ficado parada ali por um tempo mais longo do que eu imaginava.
— Desculpa, já estou saindo. — Eu falei, apressada, colocando a mochila nas costas e saindo em direção à porta.
Quando eu saí do restaurante, procurei Domenico com os olhos. O clima estava começando a esfriar um pouco, mas a rua ainda era movimentada, cheia de gente indo e vindo. Eu não o vi imediatamente e, por um momento, pensei que ele tivesse ido embora. Mas então, ouvi um leve pigarreado atrás de mim. Me virei rapidamente, e ali estava ele, com aquele sorriso encantador que sempre me fazia perder o rumo, segurando um buquê de flores coloridas.
Eu fiquei paralisada por um momento. Ele estava me esperando ali, com flores. Para mim. Ele sorriu e me entregou o buquê, suas mãos firmes, mas gentis.
— Estas são para você, piccola. — Ele disse, sua voz suave e cheia de carinho.
Eu não consegui mais conter as lágrimas que vinham subindo. Como eu poderia merecer tudo isso? O aumento, as flores, o carinho… Eu sentia como se estivesse flutuando, mas ao mesmo tempo, uma parte de mim não acreditava em tanta gentileza.
As lágrimas escorriam sem que eu pudesse impedir. Domenico me abraçou com suavidade, como se entendesse o turbilhão de sentimentos dentro de mim.
— Por que você está chorando? — ele perguntou, a preocupação estampada em seu rosto.
Eu solucei, tentando controlar a respiração.
— Eu… Eu ganhei um aumento, Domenico. E agora… agora tenho flores. Eu… não sei se mereço tudo isso. — minha voz estava trêmula, mas as palavras saíam como um alívio.
Ele levantou suavemente meu rosto para que eu o olhasse nos olhos, com um olhar profundo e sincero.
— Você merece isso, Iris. E muito mais. — Ele disse, antes de me dar um beijo suave nos lábios. — Nunca duvide disso.
Ele me deu um beijo na testa e me abraçou novamente. Eu fiquei ali, sentindo sua presença me envolvendo, a doçura das palavras e a gentileza do gesto. Quando ele se afastou um pouco, ainda sorrindo, eu limpei minhas lágrimas e olhei para o buquê.
— As flores são lindas. — Eu disse, ainda um pouco sem palavras. — Obrigada, Domenico.
Ele sorriu, a expressão de orgulho em seu rosto.
— Elas são como você, piccola. Lindas e especiais. — Ele me disse, com um brilho no olhar.
Domenico então me guiou até o carro e abriu a porta para mim. Eu entrei, sentindo aquele calor de sempre. Ele se acomodou no banco do motorista, e antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ele falou.
— Agora que você tem esse aumento, o que você pensa em fazer com ele? — ele perguntou, curioso, mas sem pressão.
Eu suspirei, pensando no que seria melhor. Eu estava em um dilema. O aumento significava mais opções para minha vida, mais liberdade. Mas, ao mesmo tempo, minha família precisava de ajuda. Eu sabia disso.
— Não sei ainda… — comecei, minha mente dividida entre os dois mundos. — Eu sinto que não posso mais continuar na quitinete. Tem alguns dias que ouço barulhos estranhos, e não me sinto bem lá. Talvez eu possa usar parte do dinheiro para procurar um lugar melhor. Mas… ao mesmo tempo, minha família ainda precisa de mim.
Domenico me olhou com seriedade, mas também com uma suavidade que me confortava.
— Iris, você precisa fazer o que se sentir mais confortável. A sua segurança é o mais importante. Agora, você pode procurar um lugar melhor para viver. Eu sei que vai ser o melhor para você.
Eu fiquei pensativa, mas sabia que ele estava certo. No fundo, eu entendia que se não estivesse bem comigo mesma, não conseguiria ajudar ninguém. Eu precisava cuidar de mim primeiro.
— Obrigada, Domenico. — Eu disse, a voz um pouco mais tranquila. — Eu vou pensar com calma no que fazer.
Ele sorriu, e enquanto ele dirigia, eu sabia que ele estava ao meu lado, me apoiando em cada decisão.