Iris González
A casa estava silenciosa depois que Domenico se foi. Eu estava sozinha no meu novo apartamento, ainda me acostumando com cada canto. O ambiente era amplo, muito mais do que qualquer coisa que eu já tivera. A simples ideia de ter um espaço só para mim me causava uma mistura de gratidão e saudade.
Eu estava arrumando as coisas, colocando minhas roupas no novo armário, quando senti algo cair do bolso de um casaco. Me abaixei para pegar e, ao olhar, vi que era um pedaço de papel amassado. Desdobrei com cuidado e, ao ver o que era, um peso tomou conta do meu peito. Era uma fotografia da minha família.
Sentei-me na cama, incapaz de desviar os olhos da imagem. Meus pais estavam sentados, sorrindo. Juan, Manuel e eu em pé atrás deles, e Leonor e Dolores sentadas no chão, com sorrisos inocentes. A saudade apertou forte no meu peito e algumas lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Olhei para o sorriso deles e o peso da saudade me tomou. Aquela foto representava tudo o que eu estava tentando mudar. Era por eles que eu estava fazendo isso. Por cada um deles, para dar uma vida melhor.
Olhei ao redor do quarto. O silêncio era completo, algo tão novo para mim. Uma cama maior do que qualquer uma que já tivera. Um quarto sem mofo, sem goteiras. Não havia o barulho de brigas nos outros apartamentos, nem o rangido do chão sempre que eu me movia. Era tranquilo, mas a saudade parecia envolver cada canto.
Coloquei a foto em cima da cama e voltei a mexer na mala. Eu ainda não tinha tirado tudo de lá, e havia mais algumas peças de roupa.
A última peça que tirei foi uma calça de moletom. E foi quando, ao retirá-la, algo me surpreendeu. No fundo, uma boneca de pano apareceu e eu a reconheci imediatamente. Era a boneca de Leonor.
Meu coração disparou. Não sabia que ela tinha colocado aquilo ali. Desde que cheguei na Itália, não tinha visto aquela boneca antes e, agora, ela estava ali, em minhas mãos. A saudade me invadiu de forma quase insuportável.
Sentei-me na cama, apertando a boneca contra o peito sem conseguir segurar mais as lágrimas. Era como se a presença deles estivesse comigo. A saudade era imensa. A dor no peito, cada vez mais forte.
Fiquei ali, abraçada à boneca, até que o som do celular cortou o silêncio. Olhei para a tela e vi que era uma mensagem de Domenico. Ele perguntava se eu estava bem. Antes que eu tivesse tempo de responder, a mensagem se transformou em uma ligação de vídeo. Surpresa, atendi, tentando esconder as últimas lágrimas.
— Oi, Domenico — disse, forçando um sorriso na voz.
Domenico logo percebeu a mudança no meu tom.
— Iris, por que você está chorando? — sua voz, preocupada, parecia me envolver de maneira protetora.
Eu tentei disfarçar, mas sabia que ele me conhecia bem demais para não perceber.
— Não é nada — falei, a voz falhando. — Só… é difícil assimilar tudo. Eu sinto tanta falta da minha família. Não é fácil.
Domenico ficou em silêncio por um momento, observando, e depois falou com suavidade.
— Eu entendo, amore. Sei o quanto sua família significa para você. E eu sei também que eles estão muito orgulhosos do que você está fazendo. Você está fazendo o melhor por todos eles.
Eu respirei fundo, tentando controlar as emoções. Aquelas palavras me trouxeram um alívio momentâneo.
— Eu espero que sim — murmurei. — Só quero dar uma vida melhor para eles, Domenico. Isso é tudo o que importa.
Domenico sorriu, aquele sorriso que sempre me fazia sentir uma paz que eu não sabia explicar.
— Você está fazendo isso, Iris. Vai conseguir. Pode ter certeza disso.
Eu o olhei, e naquele momento, senti que ele realmente acreditava em mim. Ele me fazia acreditar em mim mesma também.
— Já terminou de arrumar tudo aí? — ele mudou de assunto, de maneira suave, mas perceptível.
— Sim, já. Agora vou fazer algo simples para comer, porque amanhã preciso acordar cedo.
— O que você vai fazer? — ele perguntou, a curiosidade evidente na voz.
Eu sorri, sabendo exatamente o que queria fazer.
— Algo simples. — No mesmo momento uma ideia surgiu. — Sabe, eu poderia fazer algumas comidas típicas da República Dominicana para nós. O que acha?
Domenico ficou em silêncio por um momento, claramente interessado.
— Eu adoraria! Quero muito experimentar algo típico de lá. Vai ser incrível, amore.
A empolgação na voz dele me fez sorrir com mais vontade.
— Então poderia ser amanhã — Ele sorriu de volta, com aquele brilho no olhar que me deixava sem palavras.
— Claro, vou te pegar no trabalho. Estarei lá, te esperando.
Fiquei imaginando o momento em que o veria de novo. Aquela expectativa no peito, aquele calorzinho no coração. Mas antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, um bocejo escapou de meus lábios. O sono estava começando a me vencer.
Domenico, ao perceber, riu suavemente.
— Vai descansar, Iris. Eu só liguei para saber se você estava bem.
Eu ri de leve, ainda com aquele aperto no peito. Domenico tinha um jeito tão natural de cuidar de mim. Ele fazia com que eu me sentisse única, especial, de uma forma que eu não sabia explicar.
— Obrigada por se preocupar comigo, Domenico. Isso significa muito para mim. — Ele sorriu de novo.
— É o meu dever, princepessa. Agora, vai descansar. Se cuida.
Ele mandou um beijo através da tela, e eu, com um sorriso tímido, retribuí.
Desliguei a chamada e fiquei ali por um tempo, olhando para a foto em cima da cama. A saudade estava lá, mas eu sabia que, de alguma forma, estava no caminho certo. O futuro começava a se desenhar de uma maneira que eu nunca poderia ter imaginado. Talvez, eu estivesse realmente começando a acreditar que poderia ser feliz aqui. Mesmo longe da minha família, eu ainda estava tentando dar a eles o melhor.
O tempo, e Domenico, estavam me mostrando que, sim, a vida poderia ser mais leve, mais cheia de possibilidades.
Eu ainda tinha muito a conquistar, mas naquele momento, me senti mais perto de alcançar o que tanto sonhei.