Iris González
O restaurante estava agitado como sempre. O tilintar dos pratos, o barulho das bandejas sendo levadas de um lado para o outro, as conversas se misturando no ar, os pedidos saindo em um ritmo frenético… Tudo era parte da rotina cansativa que, com o tempo, aprendi a suportar.
Meus pés doíam. Meu corpo pedia descanso. Mas minha mente estava em outro lugar. Em Milão com Domenico.
Entre uma mesa e outra, aproveitei uma pequena pausa para puxar o celular do bolso e conferir as mensagens dele. Ele estava lidando com problemas no cassino e, pelo tom de suas palavras, eu sabia que a situação não era boa.
“Não está fácil. Muito caos por aqui.
Vou tentar resolver tudo, mas está sendo um inferno.”
Suspirei. Ele não precisava me dizer muito para que eu entendesse o que estava acontecendo. O jeito seco, a frustração implícita, o cansaço evidente… Ele estava esgotado.
— Iris, mesa oito! — A voz do meu chefe me fez sair do transe, e eu rapidamente voltei ao trabalho. Mas minha cabeça não saía de Domenico. De como ele estava lidando com tudo sozinho.
Quando meu turno finalmente chegou ao fim, soltei um suspiro de alívio. Peguei minhas coisas, joguei a mochila nos ombros e, antes de sair do restaurante, olhei mais uma vez o celular.
“Estou indo embora agora. Chego em duas horas.”
Sorri. Eu sabia que ele não estava apenas me informando o horário de chegada. Ele queria que eu estivesse lá.
“Vou preparar algo para você comer. Você precisa descansar.”
Ele não respondeu, mas eu sabia que ele gostava quando eu cuidava dele.
Caminhei até o ponto de ônibus com pressa. O vento frio da noite me fazia abraçar a mim mesma enquanto esperava. Assim que o ônibus chegou, entrei, me sentando ao fundo. Apoiei a cabeça na janela e fechei os olhos por um instante.
A ansiedade era quase palpável. Eu queria estar com ele, queria que, ao menos por algumas horas, ele esquecesse do peso que carregava nos ombros.
Quando o ônibus parou no ponto mais próximo ao prédio de Domenico, desci e caminhei até lá. O porteiro me cumprimentou com um aceno, pois já me reconhecia. Subi pelo elevador até a cobertura e destranquei a porta.
O lugar estava escuro e silencioso.
Respirei fundo e sorri. Aquele lugar era um pedaço dele.
Deixei minha mochila na lavanderia e, sem perder tempo, fui para o banheiro. Tirei a roupa do trabalho e entrei no chuveiro, deixando a água quente levar embora o cansaço do dia. Quando saí, peguei uma de suas camisetas e a vesti. O tecido largo cobria meu corpo por completo, e o cheiro dele no tecido me envolveu como um abraço invisível.
Caminhei até a cozinha e abri a geladeira, procurando algo que pudesse preparar. Pensei por um tempo e optei por um macarrão com molho branco e frango grelhado. Algo simples, mas que ele gostava.
Enquanto a comida cozinhava, olhei o relógio. Já eram quase dez da noite e ele já deveria estar chegando.
Poucos minutos depois ouvi o som da chave girando na fechadura. Me virei para a sala no instante em que Domenico entrou.
Ele parecia exausto. Os ombros caídos, a gravata frouxa, os cabelos bagunçados. A forma como ele largou a chave sobre a mesa de centro mostrava o peso do dia em seus ombros.
Quando ele me viu, um pequeno sorriso apareceu no canto de seus lábios.
— Oi, meu amor… — ele murmurou, a voz carregada de cansaço.
Domenico veio até mim, segurou meu rosto entre as mãos e depositou um beijo em minha testa.
— Como foi? — perguntei baixinho, acariciando seu rosto.
Ele suspirou, fechando os olhos por um breve momento.
— Vou tomar um banho. Depois conversamos. — Assenti. Ele me olhou por mais um segundo antes de se afastar, indo até o quarto.
Terminei de preparar a comida e arrumei a mesa colocando os pratos, os copos e servi o suco, deixando tudo pronto.
Pouco tempo depois, Domenico voltou.
Mas, dessa vez, ele não disse nada. Apenas veio até mim e me envolveu nos braços com força. Era um abraço desesperado. Como se ele precisasse daquele toque para se manter de pé.
Eu deslizei meus dedos por sua nuca, fazendo um carinho suave. Ele respirou fundo e escondeu o rosto em meu pescoço.
— Está tudo bem agora… — murmurei contra seu cabelo, sentindo seu cheiro misturado ao perfume amadeirado que ele sempre usava.
Ele não respondeu de imediato. Ficamos ali, em silêncio, apenas sentindo a presença um do outro. Até que ele finalmente se afastou o suficiente para encostar a testa na minha.
— Estou cansado, Iris…
— Eu sei… — murmurei, roçando meu nariz contra o dele. — Quer me contar o que aconteceu?
Ele passou uma mão pelo rosto e suspirou.
— O cassino está um caos. Se continuar assim, vamos começar a ter prejuízo. Está tudo por um fio. Estou tentando resolver, mas é como apagar um incêndio com um copo d’água. — Falou desanimado.
Segurei seu rosto entre as mãos e o obriguei a me olhar nos olhos.
— Você vai conseguir. Eu sei que vai. Você sempre dá um jeito. — Ele sorriu, fraco.
— Tomara que esteja certa. — Disse me abraçando novamente.
— Estou. — Falei e ele soltou um riso baixo beijando minha testa.
— Vem, você precisa comer. — segurei sua mão e o guiei até a mesa.
Domenico se sentou e eu servi seu prato antes que ele protestasse.
— Eu posso me servir, amor… — Resmungou.
— Hoje não. Hoje, eu cuido de você. — Falei colocando o prato na sua frente. Ele ergueu os olhos para mim, e algo neles brilhou.
— O que eu fiz para merecer você, hein? — perguntou. Sorri, dando de ombros.
— Deve ter sido algo muito bom. — Respondi rindo. Ele segurou minha mão e beijou o dorso suavemente.
— Eu te amo. — Sussurrou.
— Eu também te amo, Domenico.
E naquela noite, entre bocados de macarrão e olhares prolongados, deixamos que o amor falasse mais alto do que qualquer problema.