Iris González
O dia estava agradável, com um leve sol aquecendo o clima frio da Itália. A brisa suave soprava contra meu rosto dentro do carro rumo à casa dos meus pais. Domenico segurava minha mão com firmeza, os dedos entrelaçados nos meus como se não quisesse soltar nunca mais.
Ele parecia estar mais descansado, algo que eu percebia pelos pequenos apertos na minha mão e pelo olhar tranquilo que me lançava de vez em quando. Depois dos últimos dias cheios de preocupações com o cassino, vê-lo mais relaxado era um alívio.
— Está ansiosa para ver sua família? — ele perguntou, sua voz carregada de um carinho que me fez sorrir.
— Sempre estou. É difícil sair de uma rotina em que eu os via todos os dias para vê-los de vez em quando. — respondi, suspirando.
Domenico me puxou para mais perto, deixando um beijo no topo da minha cabeça.
— Fico feliz por eles estarem aqui. Você fica mais leve quando está perto deles. — Sorri, encostando a cabeça no ombro dele.
— Você também gosta de estar com eles.
— Claro que gosto. Seu Antônio é minha diversão — ele riu, e eu balancei a cabeça, sabendo que meu pai e ele tinham uma relação única.
Ao chegarmos à casa dos meus pais, fui recebida por um abraço apertado da minha mãe, seguido por um beijo estalado de Leonor, que logo puxou minha mão para me mostrar seus novos desenhos. Dolores e Manuel estavam conversando na sala, enquanto Juan estava jogado no sofá, mexendo no celular.
Domenico cumprimentou minha mãe e meu pai antes de se abaixar para pegar Leonor no colo.
— E aí, mocinha, o que andou aprontando na escola? — perguntou erguendo ela.
— Aprontando nada! Eu sou estudiosa! — ela respondeu, indignada, fazendo todos rirem.
— É mesmo? E que nota tirou na última prova? — perguntou com os olhos cerrados.
— Tirei dez! — Domenico abriu um sorriso orgulhoso e olhou para Dolores e Manuel.
— E vocês? Estão estudando direitinho?
— Claro, a professora é muito rígida — Dolores respondeu e Manuel concordou.
— As vezes eu não entendo nada do que ela fala — Manuel disse e Domenico riu.
— Eu gostaria que todos estudem e tirem boas notas. Vocês são muito inteligentes, e eu ficaria muito feliz em saber que estão indo bem — Domenico disse, olhando para cada um deles com sinceridade.
Leonor sorriu e estendeu um desenho para ele. Domenico pegou o papel e franziu o cenho ao analisá-lo.
Era um desenho do avião em que viemos para a Itália, com nossa família desenhada na janelinha, sorrindo. Acima da imagem, Leonor escreveu com letras meio tortas: “Obrigado, Domenico”.
Meu coração apertou ao ver a expressão dele. Seu rosto suavizou, os olhos escureceram ligeiramente, e ele segurou o papel com tanto cuidado que parecia temer amassá-lo.
— Você fez isso para mim? — sua voz saiu rouca. Leonor assentiu, animada.
— Você nos trouxe para a Itália. E agora a gente tem uma casa, um quarto para cada um, comida gostosa e escola nova. Mamãe disse que você fez isso para que fôssemos felizes. — Respondeu com sinceridade.
Domenico olhou para mim, como se tentasse processar as palavras dela.
— Eu fiz isso porque vocês são minha família também. E porque quero ver todos felizes. — Falou ainda olhando para o desenho.
Leonor se inclinou e abraçou Domenico com seus bracinhos pequenos. Ele demorou um segundo antes de envolvê-la em um abraço apertado, beijando o topo de sua cabeça.
— Vou guardar esse desenho comigo. Prometo.
Fiquei observando em silêncio, sentindo um calor gostoso no peito. Domenico raramente se emocionava daquele jeito. Eu sabia que esse momento significava muito para ele.
Abracei seu braço e apoiei minha cabeça ali, sentindo o cheiro amadeirado e forte de seu perfume.
— Você está bem? — perguntei baixinho.
— Você não imagina o que isso significa para mim, mia vita. — Ele assentiu, ainda segurando o desenho com carinho. Sorri, deixando um beijo suave no ombro dele.
— Você merece tudo isso e muito mais. — Antes que ele pudesse responder, meu pai pigarreou alto atrás de nós.
— Chega de grude aí, hein! — falou cruzando os braços.
Domenico riu e me puxou mais para perto, olhando para meu pai com um sorriso travesso.
— Sinto muito, sogro, mas eu amo sua filha. — Falou e meu pai revirou os olhos, cruzando os braços.
— Sorte a sua que gosto de você. — Resmungou. Domenico se levantou e se aproximou dele com um olhar divertido.
— Se gosta de mim, então me dá um abraço. — Meu pai arregalou os olhos e começou a dar passos para trás.
— Para trás, rapaz! Homem não abraça homem! — Disse desconfiado.
— Que preconceito, Seu Antônio. Eu te amo! Só quero um abraço — Domenico fingiu um tom dramático, estendendo os braços.
— Sai para lá! Eu sou macho! — meu pai disse, saindo da sala quase correndo.
Eu já estava rindo tanto que minha barriga doía. Domenico voltou para o sofá rindo também, passando um braço ao meu redor e me puxando para mais perto.
— Você gosta de provocar ele — murmurei.
— Ele gosta de mim, só não admite — Domenico deu de ombros, beijando o topo da minha cabeça.
Ficamos ali por mais um tempo, conversando com minha mãe sobre como estava a adaptação deles à nova casa. Juan estava se adaptando na faculdade mais rápido que o imaginado e eu ficava imensamente feliz em ver meu irmão nesse processo.
Depois de algum tempo, Domenico olhou para o relógio e suspirou.
— Acho que já está na hora de irmos. — Eu assenti, me levantando ao lado dele.
Nos despedimos das crianças, da minha mãe e, por fim, do meu pai, que ainda mantinha uma expressão desconfiada para Domenico, mas aceitou um aperto de mão.
Quando saímos da casa e começamos a caminhar pela calçada até o carro, senti Domenico apertar minha mão e me puxar para perto.
— O que foi? — perguntei, ao notar seu olhar perdido. Ele demorou um segundo antes de falar.
— Estava pensando que quero isso. — Olhei para ele confusa.
— Isso o quê?
Ele parou, virou-se para mim e segurou meu rosto com as duas mãos.
— Quero uma família com você, Iris. — Disse com sinceridade. Meu coração parou por um segundo.
— Domenico…
— Eu te amo, e não vejo minha vida sem você. Vejo essas crianças e penso no quanto quero que nossos filhos cresçam com amor, com união e alegria. — Falou e eu perdi o fôlego.
Meus olhos marejaram, e eu o abracei forte.
— Eu também quero isso, Dom. — Falei e Domenico suspirou contra o meu cabelo, segurando minha cintura com firmeza.
— Vamos construir nossa vida juntos, amore mio. — Assenti, segurando o rosto dele e beijando seus lábios com ternura. O beijo foi demorado, carregado de promessas silenciosas. Quando nos afastamos, Domenico sorriu e pegou minha mão novamente.
— Vamos para casa? — perguntou sorrindo.
— Vamos.
E, com meu coração transbordando de amor, seguimos juntos, prontos para o futuro que nos aguardava.