Iris González
Dois meses. Dois meses desde que tudo mudou para sempre. Desde que minha família e eu começamos uma nova vida aqui, na Itália, e conseguimos nos adaptar. A cada dia, os desafios pareciam ficar menores, e a sensação de pertencimento crescia. Juan estava começando a faculdade, com a cabeça cheia de planos para o futuro, e as meninas, Dolores e Leonor, estavam se divertindo na escola. Meus pais, que sempre foram apaixonados por jardinagem, finalmente encontraram o que amavam fazer aqui. Eles estavam mais felizes, mais leves, trabalhando em pequenos projetos e cuidando dos jardins de algumas casas em Turim. Ver todo mundo encontrando o seu caminho me trazia uma paz enorme.
Eu, por outro lado, estava de volta à rotina no restaurante. O local já não era mais novidade para mim, mas ainda assim, eu me sentia realizada por fazer parte daquele lugar. O trabalho estava indo bem, e eu me orgulhava de cada prato que servia. Tudo estava finalmente se encaixando, mas havia sempre uma parte do meu dia que eu aguardava ansiosamente: o final do meu turno, quando Domenico vinha me buscar. Aquela rotina simples me fazia sentir que, por mais turbulenta que a vida pudesse ser, eu tinha um porto seguro.
Foi assim naquela noite. O relógio marcava o fim do meu turno, e eu estava preparando as coisas para sair, quando vi Domenico aparecer, com aquele sorriso no rosto que sempre fazia meu coração acelerar. Ele entrou no restaurante como se fosse sua segunda casa, e logo se aproximou de mim.
— Ciao, amore — ele disse, com aquele tom carinhoso, e me deu um beijo quente, daqueles que fazem a pele arder. — Estava com saudades.
— Eu também — respondi, sorrindo. — E então, quais são os planos para hoje?
Ele fez uma careta, como se já tivesse uma resposta pronta, mas, ao mesmo tempo, não era o que ele planejava.
— Se dependesse de mim, a gente iria para casa e ficaria a noite inteira se acabando um no outro — ele disse, com um sorriso malicioso, e eu ri, sabendo que ele falava brincando, mas com um desejo sincero.
— Mas? — perguntei, já percebendo que havia um porém.
— Mas, na verdade, Damiano e Serena nos convidaram para uma noite descontraída na casa deles. — Ele fez uma careta de desapontamento, e eu ri da expressão dele.
— Então, vamos lá — falei, ainda rindo. — Mas vou precisar passar em casa para trocar de roupa.
Ele suspirou, mas aceitou a ideia. Sabia que não adiantava discutir.
— Eu estava torcendo para você dizer que queria ficar em casa hoje — disse ele, me dando uma piscadela e, em seguida, dirigindo até o meu apartamento.
Chegamos rapidamente ao meu prédio, e logo subi para tomar um banho. Eu precisava me refrescar e trocar de roupa para a noite. Não demorou muito, e logo estava pronta. Domenico estava deitado na cama, com os olhos fechados, mas logo se mexeu quando ouviu o som da porta abrindo.
— Podia demorar mais, minha vita. Não precisava ser tão rápido — ele disse, fingindo estar desanimado, mas com aquele sorriso de quem não estava nem um pouco infeliz. — Acho que podíamos cancelar, não é? — ele perguntou, fazendo um drama exagerado, e eu ri.
— Não, Domenico. Vamos, vamos logo — respondi, tentando disfarçar o sorriso.
— Você vai mesmo me deixar assim, necessitado? — Ele fez cara de cachorro abandonado, e eu não pude deixar de rir mais ainda.
— Sim, vou — falei, com uma risadinha travessa.
Ele suspirou, derrotado, mas se levantou da cama e me acompanhou até o carro. A viagem até a casa de Damiano foi tranquila, e logo estávamos parando na frente da casa dele. Serena nos recebeu na porta com um sorriso acolhedor e um abraço apertado, como sempre.
— Ciao! — ela disse, me abraçando com carinho. — Entrem, entrem! Está tudo preparado.
Eu sorri para ela, sentindo uma familiaridade boa. Ela me fez sentir parte da família desde o início, e não era difícil perceber o quanto ela amava a companhia de todos.
— E o Nicolas? — perguntei, sabendo que ele provavelmente estava dormindo, mas queria ouvir da própria Serena.
Serena fez uma careta cansada, e suspirou.
— Já dormiu. Ele estava uma pilha hoje, não ia aguentar muito tempo — ela disse, com um sorriso de leveza, mas também um toque de exaustão.
— Imagino como deve ser cansativo — falei, mesmo não tendo muito a noção do que é ser mãe.
— É, mas é maravilhoso. Eu amo ser mãe — ela respondeu, com os olhos brilhando de tanto amor por Nicolas. — Não trocaria por nada.
Eu sorri para ela, sentindo uma conexão ainda maior. Ela era quase a personificação do amor maternal, e era bom ver isso tão de perto.
Antes que pudéssemos conversar mais, Damiano apareceu com algumas cervejas nas mãos. Ele cumprimentou Domenico com um grande sorriso e um aperto de mão firme.
— Ciao, fratello — ele disse, passando a cerveja para Domenico, e me olhou com uma expressão mais suave. — E você, Iris, como está?
— Tudo bem, Damiano — respondi, pegando a cerveja que ele entregou e me acomodei no sofá com Serena.
Damiano, sempre tão animado, sentou-se ao lado de Domenico e logo a conversa se espalhou pela sala. Havia petiscos espalhados pela mesa de centro, e o ambiente estava descontraído, como uma típica noite entre amigos. A tensão do meu dia havia se dissipado completamente.
— Então, Serena, conseguiu tirar as manchas do vestido? Minha mãe sempre usava essa receita — Perguntei, rindo, sabendo que o culpado era Damiano.
Ela olhou para Damiano com os olhos estreitos, e ele fez uma cara de cachorrinho arrependido, o que me fez rir ainda mais.
— Por sorte de algumas pessoas, sim, as manchas saíram. — Serena respondeu, com um sorriso de lado. — Mas, da próxima vez, acho que seria bom separar as roupas coloridas das brancas.
Damiano, com uma expressão doce, respondeu com a voz mais melosa possível.
— Claro, tesoro, eu vou lembrar, juro.
Domenico, que não estava conseguindo conter a risada, provocou Damiano.
— Olha, parece até um cachorrinho adestrado — disse ele, rindo.
— Olha quem fala — Damiano respondeu.
Logo os dois começaram a se provocar, com almofadas voando por toda a sala. Era como se estivessem na infância de novo, brigando por algo tão simples, mas tão genuíno. Eu olhava aquilo com uma mistura de riso e carinho, maravilhada por ver o quanto eles ainda se divertiam juntos.
— Eles são sempre assim? — Perguntei a Serena, observando com atenção a interação entre os dois irmãos.
Ela sorriu, assentindo, e parecia já estar acostumada com aquilo.
— Sempre. São dois garotinhos, não importa o tempo que passe. Eles continuam se provocando como se tivessem 10 anos — ela disse, com uma expressão divertida.
Eu sorri, e meu coração se aquecia ao ver a maneira como os dois interagiam. Não era só diversão, era amor, carinho e respeito, em cada palavra, em cada gesto.
A noite continuou com risadas, provocações e conversas leves. A presença de Domenico ao meu lado, a familiaridade de Serena e Damiano, e a sensação de pertencimento eram tudo o que eu precisava para sentir que minha vida, finalmente, estava no lugar que eu sempre sonhei.
Era uma noite comum, mas, ao mesmo tempo, a mais especial possível. Eu estava vivendo um conto real, e não trocaria nada por isso