Iris González
O dia da viagem finalmente chegou, e a ansiedade que sentia tomava conta de mim de forma crescente. Estava prestes a dar mais um grande passo, não apenas para mim, mas para todos nós. Domenico ao meu lado, com seu sorriso calmo, parecia tão tranquilo, como se tudo fosse apenas mais um dia normal. Eu sabia, porém, que ele também sentia a importância daquele momento. Nós estávamos prontos para seguir juntos, e isso me dava uma paz inexplicável.
As crianças estavam em êxtase. As risadas e conversas delas preenchiam o carro com uma energia vibrante. Leonor e Dolores falavam animadas sobre o que achavam do avião e sobre a viagem em si. Eu podia ver o brilho nos olhos delas, como se fosse algo mágico. Já meu pai, apesar de tentar disfarçar, não escondia a preocupação. Não era com a viagem em si, mas com tudo o que a mudança representava. Ele estava começando a ver o mundo de uma maneira diferente, mais independente, e aquilo o deixava, de alguma forma, apreensivo.
A medida que nos aproximávamos do aeroporto, o cheiro fresco do ar e a visão da pista de aterrissagem me faziam sentir um nó na garganta. O pensamento de ir para um novo lugar, de começar algo novo, com Domenico ao meu lado, me fazia experimentar uma mistura de emoção e insegurança. Mas o calor do toque dele, a maneira como ele me olhava, trazia-me tranquilidade.
Quando chegamos ao aeroporto, as crianças não conseguiam esconder a surpresa ao ver o jato. Eles olhavam para ele com os olhos arregalados, como se fosse algo saído de um filme. Juan e Manuel estavam mais contidos, mas não escondiam o fascínio, enquanto Leonor e Dolores não paravam de fazer perguntas.
— Olha, olha! — gritou Leonor, apontando para o jato. — É igual aqueles filmes de ação, né?
Domenico sorriu, abaixando-se um pouco para olhar diretamente para elas.
— Vai ser uma aventura, não é mesmo? — disse ele, com um tom sério, mas divertido. — Agora, preste atenção nas instruções de segurança, hein? Ninguém pode sair por aí aprontando.
Dolores e Leonor olharam para ele com atenção, e, de repente, o ambiente ficou silencioso. Até Juan e Manuel, que normalmente eram mais reservados, estavam completamente imersos naquele momento, vendo tudo com uma curiosidade inusitada. Eu sorria, vendo como Domenico tratava eles. Ele não era apenas o homem ao meu lado, mas alguém que se importava genuinamente com a felicidade deles, e isso me tocava profundamente. Ele falava com as crianças com paciência, respondendo a todas as perguntas com a calma que só ele sabia ter.
Dentro do avião, o cenário era deslumbrante. As poltronas luxuosas e o interior bem iluminado impressionaram todos. As crianças estavam animadas, explorando cada canto. Leonor já estava tentando mexer nos controles da poltrona, enquanto Dolores apenas observava tudo com uma expressão encantada.
Meu pai parecia um pouco desconfortável. Ele olhava para os lados, ainda tentando se acostumar com o luxo, com a ideia de estar voando tão alto. Ele sentou-se de forma tensa, segurando o banco da poltrona com firmeza, como se o fizesse para se manter ancorado à realidade. Ele não sabia o que esperar, e o nervosismo dele era palpável. Mas Domenico, como sempre, não perdeu a oportunidade de aliviar a tensão.
— Vai ficar tudo bem, não se preocupe — disse ele, com um sorriso brincalhão. — É muito seguro.
Meu pai lançou um olhar desconfiado para Domenico, mas, depois de um suspiro, riu baixinho, como se aquilo fosse uma tentativa de descontrair. Eu o observei, sabendo que ele ainda estava se acostumando com a ideia de estar partindo para um novo capítulo da vida. Mas, em meio à sua preocupação, havia também um orgulho silencioso. Ele ainda estava aprendendo a confiar, e isso era um passo importante.
— Você tem certeza é mesmo seguro? — meu pai perguntou, em tom baixo, sem olhar diretamente para Domenico.
— Claro, todas as manutenções estão em dia. — disse confiante. — Avião é o meio de transporte mais seguro do mundo.
Aquelas palavras fizeram meu coração bater mais forte. Eu sabia que ele não falava apenas por falar. Ele estava comprometido, não só com o que estávamos vivendo, mas com nossa vida juntos. E aquilo me fazia sentir uma paz imensa.
As crianças estavam agora atentas à comissária de bordo, que estava explicando as orientações de segurança. O piloto anunciou a decolagem, e, em seguida, o avião começou a acelerar pela pista, subindo ao céu. Eu observava tudo pela janela, sentindo uma mistura de emoções. A sensação de estar subindo para um novo mundo, ao lado de Domenico, me trazia uma paz que eu não imaginava encontrar.
Leonor e Dolores estavam encantadas com a vista, suas expressões de pura admiração me faziam sorrir. Elas não paravam de falar sobre as nuvens e as montanhas lá embaixo. Juan e Manuel estavam mais calados, mas, pelo jeito, também impressionados. O olhar de Juan estava fixo na janela, enquanto Manuel, sempre mais descontraído, mexia nas telas de entretenimento.
Meu pai, por outro lado, estava com as mãos firmemente segurando a poltrona, os olhos fechados. Ele parecia um pouco tenso, mas Domenico não perdeu a chance de brincar com ele.
— Vai ficar tudo bem — disse Domenico, rindo baixinho. — Estamos indo para a Itália, não para a lua.
Meu pai, por um momento, abriu os olhos e sorriu. Ele estava começando a se soltar, aos poucos. Eu sabia que, com o tempo, ele se acostumaria. Ele ia perceber que tudo aquilo era só o começo de uma nova etapa na nossa vida, uma etapa em que todos nós iríamos nos adaptar, mas que valeriam a pena.
Eu me encostei em Domenico, buscando aquele conforto que só ele sabia me dar. Ele me olhou com carinho, e logo me envolveu em seus braços. Seus dedos deslizaram suavemente pela minha pele, e eu me aconcheguei ainda mais contra ele. Sentir o calor do corpo dele, o som tranquilo do seu coração, me trouxe uma sensação de paz que eu não conseguia explicar. Ele estava ali, comigo, e isso era tudo o que eu precisava.
— Eu te amo, mia luce — ele sussurrou, e eu não resisti a sorrir. Era uma frase simples, mas carregada de um significado profundo.
Eu me aninhei ainda mais contra o peito dele, ouvindo as batidas do seu coração. Era uma melodia constante, um ritmo que me acalmava. E eu sabia que, naquele momento, tudo estava certo. Não importava o que o futuro nos reservava, porque estávamos juntos.
— Eu também te amo, querido — respondi, sussurrando de volta.
Domenico beijou minha testa com suavidade, e, por um momento, o mundo parecia ter parado. Eu não queria mais nada além de estar ali, naquele instante. E, ao olhar para as crianças, para meu pai que aos poucos relaxava, eu sabia que estávamos começando algo muito maior do que imaginávamos. Algo que estava apenas começando, mas que já se sentia como um sonho realizado.