Capítulo 66

819 Palavras
Domenico Ricci O contraste entre a vida que sempre conheci e o mundo de Iris nunca foi tão evidente quanto agora. Cresci cercado por luxo, riquezas e excessos. Minha realidade sempre foi marcada por carros caros, casas imponentes e negócios que envolviam mais poder do que qualquer um poderia imaginar. Mas aqui, em Peralta, tudo era diferente. As ruas simples, as casas pequenas, a vida sem pressa. O cheiro do café forte misturado ao calor do dia fazia parte da essência daquele lugar. Eu observava Iris interagir com a família e via nela uma felicidade genuína, algo que dinheiro algum poderia comprar. O sorriso dela iluminava cada canto daquela casa, e eu sabia que faria qualquer coisa para manter aquele brilho em seus olhos. Esse choque de realidades, em vez de me afastar, apenas fortalecia minha certeza de que pertencia a ela. Pouco importava onde estivéssemos, desde que fosse ao lado dela. Olhei para meu celular e na hora lembrei-me de que precisava resolver os detalhes da viagem do dia seguinte. Disquei o número e liguei para o piloto do jato. — Está tudo pronto Carlos? — perguntei direto ao ponto. — Sim, senhor Ricci. O avião estará abastecido e pronto para partir pela manhã, conforme solicitado. — Respondeu direto. — Ótimo. Nos encontramos no horário combinado. — Encerrei a chamada. Assim que desliguei, senti o cheiro forte de café e levantei o olhar para ver Dona Mercedes se aproximando com uma xícara. — Aqui, filho. Um café para você — ela disse, me entregando com um sorriso gentil. — Grazie — agradeci, aceitando a xícara. O calor da bebida contrastava com o leve frescor que começava a surgir no final da tarde. Ela se sentou ao meu lado, observando a movimentação da casa. Por um instante, ficamos em silêncio, até que sua voz suave cortou o ar. — Sabe, Domenico, ver Iris feliz assim significa muito para mim. Ela sempre foi uma menina forte, guerreira… Desde pequena mostrou que tinha uma alma corajosa. — Falou e eu sorri, imaginando a pequena Iris correndo por aquelas ruas, cheia de vida e energia. — Eu sei. Ela me impressiona todos os dias. Nunca conheci alguém como ela — confessei, tomando um gole do café. Dona Mercedes me observou por um momento antes de continuar. — Quando a vi saindo daquele carro ontem, quase não acreditei. Foram meses sem saber se minha menina estava bem, sem notícias… Mas ao olhar para ela, vi que estava segura. Vi que você cuida dela, e eu só posso agradecer por isso. — A sinceridade em sua voz me tocou de um jeito inesperado. Coloquei a xícara sobre a mesa e olhei para ela. — Eu faria qualquer coisa por Iris, Dona Mercedes. Ela é minha vida. — Admiti. A mulher sorriu, os olhos brilhando com emoção. — Isso é tudo o que uma mãe pode desejar para uma filha. Que ela seja amada da forma que merece. Antes que eu pudesse responder, ouvi passos leves e, em segundos, Iris apareceu na cozinha. Ela olhou para nós com uma expressão desconfiada e caminhou até mim, abraçando meu braço. — O que está acontecendo aqui? — perguntou, me lançando um olhar curioso. — Estávamos falando de você, mia vita. — Eu ri, passando a mão pelo seu rosto. Iris arregalou os olhos e olhou para a mãe, que segurava um sorriso divertido. — Mamá… O que você contou? — ela perguntou, desconfiada. Dona Mercedes soltou uma risada baixa. — Só estava contando para Domenico como você era arteira quando pequena. — Mãe! — Iris exclamou, corando levemente. — Por exemplo — ela continuou, ignorando a reação da filha — Você estava com vontade de comer manga e decidiu escalar um pé enorme para pegá-la. Quando chegou lá em cima, a manga caiu e você também. E o pior: você riu como se nada tivesse acontecido. — Você caiu de uma árvore e riu? — Eu perguntei e olhei para Iris, surpreso. Ela escondeu o rosto no meu ombro, murmurando um “não acredito que ela contou isso”. Eu ri, abraçando-a de lado e beijando sua testa. — Isso só confirma o que eu já sabia — sussurrei. — Você sempre foi incrível. Dona Mercedes sorriu e se levantou. — Vou deixar vocês a sós. Ainda tenho algumas coisas para organizar. Ela nos deixou ali, Iris ainda meio emburrada e eu me divertindo com a história. Ela ergueu o rosto para mim, os olhos brilhando. — Você realmente não se importa com a diferença entre nossos mundos? — sua voz saiu baixa, carregada de sentimento. Passei os dedos por seu rosto, acariciando-a com delicadeza. — Iris, meu mundo é onde você estiver. Nada mais importa. — Respondi e deixei um beijo na ponta do seu nariz. Ela sorriu, e naquele momento, tive certeza absoluta: eu passaria o resto da minha vida provando isso para ela.
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