Iris González
A claridade do sol filtrava-se suavemente pelo quarto de hotel, trazendo consigo o calor acolhedor da manhã. Mas o que realmente me mantinha aquecida não era a luz do dia e sim o corpo firme e quente de Domenico, que me envolvia com um braço forte.
Eu podia sentir sua respiração calma contra minha pele, seu peito subindo e descendo de maneira ritmada. Seu perfume amadeirado misturado com um toque leve da brisa que entrava com o vento.
Virei-me levemente para encará-lo, apreciando a serenidade em seu rosto. Seu semblante, geralmente carregado de intensidade e controle, agora parecia relaxado. Passei a ponta dos dedos suavemente pelo contorno de sua mandíbula, sentindo a textura leve da barba que começava a crescer. Domenico se remexeu, seu braço ao redor da minha cintura se apertando, como se mesmo dormindo ele quisesse me manter perto. Seu nariz roçou contra meu pescoço, e ele suspirou antes de abrir os olhos preguiçosamente.
— Buongiorno, mia vita… — sua voz saiu rouca, carregada de sono. Sorri.
— Bom dia, amor. — Ele se espreguiçou ligeiramente, trazendo-me ainda mais para perto, até que nossos rostos ficassem a poucos centímetros de distância.
— Você ficou me observando dormir? — perguntou, o canto dos lábios se curvando em um sorriso presunçoso.
— Talvez… — Revirei os olhos, rindo.
Ele deslizou os dedos pela minha cintura, seu toque quente despertando arrepios pelo meu corpo.
— E o que viu? — Perguntou. Mordi o lábio, deslizando meus dedos por seu peito.
— Vi o homem que amo e que admiro. — Sussurrei.
Domenico me encarou por um momento, e então sorriu daquele jeito único que fazia meu coração acelerar.
— Eu moveria o mundo por você, Iris. — Suspirei, fechando os olhos por um instante, apenas absorvendo aquele momento.
Depois de muitas carícias, levantamos e descemos para tomar café no hotel. Domenico, como sempre, montou um prato absurdamente grande.
— Meu Deus, Dom! Isso é um café da manhã ou um banquete? — brinquei, pegando um pedaço de pão. Ele riu.
— Preciso de energia. Hoje vai ser um dia longo. — deu de ombros. E era verdade.
Assim que terminamos, seguimos para a casa da minha família. Quando chegamos, encontramos Juan e Manuel jogando bola na rua, descalços como sempre. Minhas irmãs estavam no sofá brincando e meus pais na cozinha. Minha mãe veio nos receber na porta, seu rosto iluminado por um sorriso.
— Dormiram bem? — perguntou, lançando um olhar afetuoso para nós dois. Domenico sorriu.
— Muito bem. E a senhora? — Falou e ela suspirou, emocionada.
— Meu coração está em paz, sabendo que minha filha está perto. — Domenico sorriu ainda mais olhando para ela.
Meu pai surgiu logo depois, analisando Domenico com um olhar avaliador antes de estender a mão. Domenico apertou com firmeza, mantendo o respeito que sabia ser importante naquele momento.
— Está pronto para aprender um pouco sobre nossa cultura? — meu pai perguntou, um brilho travesso nos olhos. Domenico arqueou uma sobrancelha, intrigado.
— Sempre. — Falou confiante. Meu pai pegou uma garrafa e me entregou. O cheiro forte preencheu o ar antes mesmo de eu abrir a tampa.
— Mamajuana — anunciei, segurando o riso ao ver a expressão de Domenico.
— Parece perigoso. — Disse observando. Meu pai serviu um pouco no copo e estendeu para ele.
— Prove, italiano. — Domenico olhou desconfiado para o copo, depois para mim.
— Isso é seguro? — perguntou pegando o copo.
— Completamente — respondi, segurando o riso.
Ele deu um gole hesitante. E então… tossiu forte, os olhos arregalando-se. Meu pai não conseguiu segurar o riso.
— Cazzo! Isso queima! — esfregou o pescoço. Meu pai bateu no ombro dele, divertido.
— Bem-vindo à República Dominicana — Domenico respirou fundo, piscando algumas vezes antes de encarar o copo como se fosse um inimigo mortal.
— Eu não estava preparado para isso… — Resmungou. Eu ria, assim como meus irmãos.
Manuel, sempre com suas perguntas diretas, olhou para Domenico com um olhar curioso.
— Você é forte. Já bateu em alguém? — Ele perguntou, sem rodeios.
Domenico pareceu surpreso com a pergunta, mas logo deu uma risadinha, como se fosse uma pergunta que ele esperava, de certa forma.
— Já sim. — Ele respondeu, sem hesitação.
Manuel, claro, não perdeu tempo em seguir com outra pergunta.
— E por quê? — Ele perguntou, tentando entender o que se passava na cabeça de Domenico.
Domenico olhou para ele com um olhar tranquilo, o tipo de olhar que transmitia que ele estava tentando encontrar as palavras certas.
— Porque algumas pessoas fazem m*l a outras. Eu… não gosto de ver isso acontecendo. Quando preciso, protejo aqueles que não conseguem se proteger. — Domenico falou, com uma seriedade que fez Manuel pensar por um momento.
Juan, sempre mais cauteloso, então se aproximou, mas antes de conseguir fazer uma pergunta, Dolores, que sempre estava atenta a tudo, puxou a conversa para outro caminho.
— Mas o que você faz então, Domenico? — Ela perguntou, com os olhos grandes de curiosidade.
Domenico suspirou, como se tivesse se preparado para essa pergunta. Ele olhou para mim brevemente, como se estivesse pedindo permissão para falar, e então virou-se para todos.
— Eu sou da máfia. — Disse ele, com uma leveza na voz, mas sem esconder a gravidade do que aquilo significava.
Nesse momento, todos se calaram por um segundo, e então todos falaram ao mesmo tempo.
— Máfia?
Domenico, com um sorriso divertido, fez um gesto afirmativo com a cabeça.
— Sim, máfia. — Ele confirmou, com uma calma impressionante.
— Uau! — Manuel e Juan, com os olhos arregalados, exclamaram ao mesmo tempo.
Os dois se entreolharam, claramente impressionados, antes de começarem a bombardear Domenico com perguntas.
— Então você é tipo um chefão? — Perguntou Manuel, com uma expressão de admiração.
Domenico riu e balançou a cabeça.
— Não, não sou o chefão. O chefão é o meu irmão. Eu cuido mais dos negócios, da parte que ninguém vê. — Ele explicou, com uma leveza na voz que ajudou a aliviar a tensão no ar.
Juan pareceu surpreso com a resposta, mas logo se sentou ao lado de Manuel, ansioso por mais detalhes.
— E o que mais você faz, Domenico? — Ele perguntou, inclinando-se para ouvir mais. Domenico olhou para ele, com um sorriso de canto de boca.
— Eu faço o que for necessário para manter a ordem. Às vezes, isso significa fazer coisas que as pessoas não entenderiam. Mas sempre, sempre, faço por uma boa razão.
Enquanto isso, eu observava tudo, meus olhos se suavizando ao ver a maneira como Domenico respondia, com tanta sinceridade e paciência. Ele estava conquistando minha família, e eu sentia uma imensa gratidão por isso.
Meu pai, que havia ficado em silêncio até então, olhou para Domenico com uma expressão de entendimento.
— Já entendi o porquê você não aguentou a mamajuana… — Meu pai comentou, com um sorriso malicioso.
Domenico soltou uma gargalhada baixa, e eu não pude deixar de rir também, vendo o quanto ele estava se soltando.
— Nunca tomei algo tão forte como isso. — Domenico respondeu, rindo, e meu pai balançou a cabeça, claramente sem acreditar.
E enquanto todos continuavam conversando, as risadas e perguntas de meus irmãos ecoavam pela casa, eu não pude deixar de pensar no quanto eu estava feliz de ter Domenico ao meu lado. Ele estava se misturando à minha vida, à minha família, e tudo parecia cada vez mais perfeito. Ele tinha me dado uma nova perspectiva sobre o futuro, e eu sabia que não importava o que acontecesse, juntos, seríamos imbatíveis.
Eu só queria ver aquele sorriso em seu rosto para sempre.