Domenico Ricci
Eu estava ali, perto do restaurante onde Iris trabalhava, esperando como fazia todos os dias nos últimos meses. A imagem de seu sorriso, de como ela me olhou, como seus olhos brilharam quando nos despedimos na praça ainda estava fresca em minha mente. O beijo que trocamos me fez perceber que algo dentro de mim havia mudado para sempre. Não era só o desejo, não era só a atração. Era algo maior, algo que eu não sabia como explicar, mas que fazia meu peito se apertar toda vez que pensava nela.
E agora, enquanto esperava ela sair do restaurante, algo em mim me dizia que não dava mais para esconder a verdade. O que eu mais temia, o que eu sempre tentei evitar, estava se tornando inevitável: eu precisava contar a Iris quem eu realmente era. A vida que eu levava, o que eu fazia e de onde eu vinha.
Quando finalmente vi Iris sair do restaurante, ela estava sorrindo, parecendo tão inocente e radiante. Eu a vi se aproximando, as bochechas coradas, e meu coração não conseguiu evitar. Ela tinha esse efeito sobre mim.
Me aproximei, e sem pensar, deixei um beijo suave na testa dela. Ela sorriu tímida, o que só fez meu coração bater mais rápido.
— Como foi o trabalho hoje? — perguntei, tentando parecer casual, mas sabendo que nada seria casual naquela conversa.
— Tranquilo, na maior parte do tempo. — Ela deu de ombros, mas seus olhos estavam atentos a mim, como se soubesse que havia algo mais.
Eu respirei fundo, sem saber exatamente como começar. Mas sabia que não podia adiar mais. O peso do segredo sobre minha alma estava me sufocando. Eu não podia mais ser esse homem de mistérios, esse homem escondendo quem realmente era de Iris.
— Iris, eu preciso te contar uma coisa — comecei, sentindo minha voz falhar. Ela parou, me encarando com uma expressão confusa.
— O que aconteceu? — Ela perguntou, a preocupação tomando conta de seu tom de voz. Eu a vi tentar analisar o que estava acontecendo, e isso só fez meu estômago revirar.
Olhei para ela, tentando encontrar a coragem necessária para dizer o que estava prestes a dizer. Eu sabia que ia mudar tudo entre nós. Mas não havia mais volta.
— Eu… — Eu respirei fundo mais uma vez, tentando ganhar forças. — Eu não sou quem você pensa que sou, Iris.
Ela franziu a testa, parecendo confusa.
— O que quer dizer com isso? — ela perguntou, com um toque de incerteza na voz.
Eu me sentei em um banco perto, e ela se sentou ao meu lado, ainda me olhando como se tentasse entender o que estava acontecendo. Eu olhei para as ruas, as pessoas caminhando apressadas e o sol já se pondo no horizonte. Era um momento tão banal, tão normal, mas para nós, naquele instante, era como se tudo ao nosso redor tivesse parado.
— Meu nome é Domenico Ricci. Eu sou… — Eu pausei, tentando encontrar as palavras certas. Mas eu não tinha escolha. — Minha família é dona de uma das maiores máfias da Itália. A Carbone. Eu faço parte disso, Iris, não diretamente porque é meu irmão quem cuida de tudo. — suspirei — Mas eu sei que isso provavelmente vai mudar tudo, mas a verdade precisa ser dita.
Eu observei os olhos de Iris se arregalarem, o choque tomando conta de seu rosto. Ela não sabia o que dizer, e aquilo me partiu. Eu sabia o que ela estava pensando. Ela provavelmente achava que eu tinha mentido o tempo todo, que tudo o que eu construíra ao seu redor era uma fachada. Eu sabia que ela estava assustada.
— Você… você está me dizendo… — Ela engoliu em seco, e eu senti a tensão no ar aumentar.
— Sim — respondi, de forma firme. — Eu faço parte disso, Iris. Eu não sou apenas Domenico, o homem que você conheceu. Eu sou um Ricci, um dos filhos dessa família. E isso significa que eu estou envolvido em coisas que você nunca imaginou.
Havia uma pausa. Ela não falava. Apenas me encarava, com os olhos marejados. Eu sabia que ela estava processando tudo, tentando entender o que estava acontecendo. Eu queria fazer tudo ficar mais claro, mais simples, mas eu não podia. A verdade era c***l.
— Você… você está envolvido com a máfia? — Ela perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. Ela parecia temer a resposta, mas também não conseguia se afastar de mim. O que ela queria saber? O que ela precisava ouvir de mim?
Eu respirei fundo, me inclinando para frente.
— Eu estou. Eu sempre estive, Iris. Mas eu preciso que você acredite em mim quando eu digo que jamais faria m*l a você. Eu jamais, nunca, faria nada que pudesse te machucar. Eu… — Eu passei as mãos nos cabelos, um pouco frustrado, tentando encontrar palavras que transmitissem o que eu realmente sentia. — A minha vida… é complicada. A máfia, as responsabilidades, tudo isso é complicado. Mas eu não sou uma ameaça para você. Eu juro.
Ela não falou nada, mas podia ver o conflito em seus olhos. Eu queria que ela me entendesse, que ela visse o que eu estava tentando dizer.
— A máfia não é só uma história de violência, Iris. A minha vida nunca foi simples, mas eu sempre lutei para manter o controle. Não quero que você se assuste. Eu estou fazendo isso porque você merece saber a verdade. Porque… porque eu não posso mais esconder quem eu sou de você.
Eu a vi abrir a boca para falar, mas hesitou. Ela olhou para mim, e eu sabia que o que eu estava dizendo não estava sendo fácil para ela, mas também sentia que, no fundo, ela estava tentando entender.
— Foi você quem sumiu com Venâncio, não foi? Ele apareceu um dia entregando nossos documentos dizendo que era ordem das autoridades — Ela perguntou, quase como se não conseguisse acreditar nas próprias palavras.
Eu dei um passo à frente, me aproximando dela, com os olhos fixos nos dela. Eu podia sentir a dor, a angústia dela, e tudo o que eu queria era tirá-la daquela situação. Mas não havia mais como escapar.
— Sim. Eu e a Carbone tomamos essas providências. O que aconteceu com você, o que aconteceu com todos os outros funcionários, nada disso é permitido entre nós. O que Venâncio e Aleff fizeram com todos é algo que vai contra nossas leis e princípios. Eu te protegi, Iris. E eu faria qualquer coisa para garantir que você estivesse segura.
Ela se afastou um pouco, o olhar fixo em mim, como se estivesse tentando entender tudo o que eu estava dizendo. Eu vi lágrimas se acumulando em seus olhos, e aquilo me destruiu por dentro. Eu não queria vê-la chorar.
— Por favor, não chore… — Eu disse, quase desesperado. — Eu só quero que você saiba a verdade. Eu não quero que você me olhe com medo. Não faça isso. Eu não sou o que você está pensando.
Ela ficou em silêncio, sem me olhar. Ela virou as costas lentamente, e o peso daquilo tudo me atingiu com força. Eu sabia que ela precisava de tempo. Eu sabia que ela estava tentando encontrar uma maneira de processar tudo aquilo.
— Iris, por favor… — Eu a chamei, mas ela não olhou para trás. Ela começou a caminhar, se afastando de mim a cada passo. E eu fiquei ali, parado, sem saber o que fazer. Eu a havia perdido? Já era tarde demais para ela entender que eu não queria que nada disso interferisse no que a gente tinha?
E com isso, o silêncio se instalou entre nós. E eu fiquei sozinho, mais uma vez.