Capítulo 35

997 Palavras
Iris González O dia parecia não ter fim. As horas se arrastavam, os minutos pareciam se esticar, e eu não conseguia me concentrar em absolutamente nada. Na verdade, isso já vinha acontecendo desde a noite anterior. Depois de me despedir de Domenico e voltar para casa, fiquei deitada na cama por um longo tempo, encarando o teto e revivendo cada detalhe daquele encontro. O jantar, as conversas, os sorrisos… e, principalmente, o beijo. O beijo. Meu coração ainda disparava só de pensar nisso. Passei a noite rolando na cama, tentando afastar a lembrança da sensação dos lábios dele nos meus, mas foi impossível. Cada vez que eu fechava os olhos, a imagem de Domenico voltava à minha mente com uma força avassaladora, me fazendo desejar voltar no tempo e viver tudo de novo. Resultado: hoje eu estava completamente exausta. No restaurante, minha produtividade estava um caos. Perdi a conta de quantas vezes tive que refazer um pedido, limpar uma mesa duas vezes sem perceber ou pedir a um dos garçons que repetisse o que os clientes haviam solicitado. Minha mente simplesmente não estava presente. — Iris, você está bem? — ouvi a voz de Jorge, me tirando do meu devaneio. Pisquei algumas vezes e percebi que estava parada em frente à cozinha há tempo demais, segurando uma bandeja vazia. — O quê? Ah, sim. Só… estou com sono — murmurei, tentando parecer normal. Ele riu, divertido. — Sei. Com essa cara aí? Você não está com sono. Está apaixonada. Meu rosto ficou em chamas na hora. — O quê? Não! Claro que não! Ele apenas sorriu, como se soubesse de algo que eu não sabia, e saiu andando, me deixando ainda mais nervosa. Suspirei profundamente e voltei ao trabalho, mas nada mudou. As horas pareciam congeladas, e a única coisa que realmente ocupava minha mente era a lembrança de Domenico e do jeito como ele me olhava. A maneira como ele me fazia sentir. Mas, junto com isso, vinha a culpa. Eu não vim para a Itália para me apaixonar. Vim para garantir um futuro melhor para minha família. Esse sempre foi o plano. Então, por que, agora, tudo parecia tão fora do meu controle? Assim que meu turno terminou, voltei para casa, tomei um banho rápido e me joguei na cama, pegando o celular. Eu precisava desabafar com alguém. Minhas mãos hesitaram por um momento antes de tocar no nome de Rosália na tela. Ela atendeu no segundo toque. — ¡Mujer! Até que enfim! — A voz animada dela fez um pequeno sorriso surgir em meus lábios. — Você sumiu, o que aconteceu? Respirei fundo. — Eu saí com Domenico ontem à noite. O silêncio do outro lado durou apenas um segundo antes de Rosália soltar um grito tão alto que quase derrubei o celular. — ¡Dios mío! Me conta tudo! — Dei uma risada nervosa, virando de lado na cama. — A gente jantou, conversamos e… — Hesitei. — E…? — Ela praticamente implorou. — E a gente se beijou. Mais um grito. — ¡Sabía! Eu sabia que isso ia acontecer! Agora me conta, como foi? Você gostou? Ele beija bem? Fiquei em silêncio por um momento, sentindo meu coração acelerar só de lembrar. — Foi… foi maravilhoso, Ros — confessei, a voz saindo mais baixa. — Eu nunca me senti assim antes. Ele me olha de um jeito… um jeito que eu nem sabia que alguém podia me olhar. Ela suspirou sonhadoramente. — Ai, amiga, que lindo! Eu tô quase chorando aqui! Fechei os olhos e suspirei. — Mas esse é o problema, Rosália. — O quê? O beijo foi r**m? — Não! — apressei-me a corrigir. — É que… eu não vim para a Itália para isso. Eu vim para trabalhar, juntar dinheiro e ajudar minha família. Eu não posso me dar ao luxo de me distrair com… — Amor? — Ela completou. Mordi o lábio com força. — Eu não sei se é amor, mas… está começando a parecer algo muito forte. Rosália ficou quieta por um momento antes de falar novamente, sua voz mais suave. — Corazón… você passou a vida inteira cuidando de todo mundo. Sempre colocando sua família em primeiro lugar. Mas e você? — Eu engoli em seco. — Você não merece ser feliz também? A pergunta me atingiu como um soco no peito. Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou em minhas mãos. Olhei para a tela e senti meu coração pular. Era uma mensagem de Domenico. "Como você está?" Simples, mas suficiente para aquecer meu peito de um jeito que eu não esperava. Eu mordi o lábio, tentando conter um sorriso. "Estou bem. E você?" A resposta veio rápido. "Agora melhor." Meu rosto pegou fogo na hora. Rosália, que percebeu meu silêncio, resmungou do outro lado da linha. — Ai, não me diga que ele acabou de mandar mensagem! — Mandou — admiti, baixinho e ela riu. — E você tá sorrindo, né? Eu sei que tá. Bufei, mas não neguei. "Trabalhando o dia todo?" "Sim, mas confesso que minha mente estava um pouco longe hoje." Meu coração deu um salto. "Longe?" "Sim. Em você." Pressionei a tela contra o peito e respirei fundo. Dios mío, me ajuda. Rosália riu ao fundo. — Iris, pelo amor de Deus, só assume logo que está apaixonada. — Eu… — Suspirei, voltando a encarar a tela do celular. — Eu não sei o que fazer, Rosália. — Não precisa decidir nada agora, amiga. Só… não feche os olhos para algo bonito por medo de sair do caminho que planejou. Às vezes, a vida nos leva para direções inesperadas. E talvez essa seja a direção certa para você. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, e eu sorri. — Obrigada, Ros. — Sempre, hermosa. Agora, me promete que vai aproveitar isso? Respirei fundo, olhando novamente para a mensagem de Domenico. — Vou tentar. E pela primeira vez naquele dia, senti que talvez… talvez eu pudesse permitir isso.
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