Iris González
O dia parecia não ter fim.
As horas se arrastavam, os minutos pareciam se esticar, e eu não conseguia me concentrar em absolutamente nada.
Na verdade, isso já vinha acontecendo desde a noite anterior.
Depois de me despedir de Domenico e voltar para casa, fiquei deitada na cama por um longo tempo, encarando o teto e revivendo cada detalhe daquele encontro. O jantar, as conversas, os sorrisos… e, principalmente, o beijo.
O beijo.
Meu coração ainda disparava só de pensar nisso.
Passei a noite rolando na cama, tentando afastar a lembrança da sensação dos lábios dele nos meus, mas foi impossível. Cada vez que eu fechava os olhos, a imagem de Domenico voltava à minha mente com uma força avassaladora, me fazendo desejar voltar no tempo e viver tudo de novo.
Resultado: hoje eu estava completamente exausta.
No restaurante, minha produtividade estava um caos. Perdi a conta de quantas vezes tive que refazer um pedido, limpar uma mesa duas vezes sem perceber ou pedir a um dos garçons que repetisse o que os clientes haviam solicitado. Minha mente simplesmente não estava presente.
— Iris, você está bem? — ouvi a voz de Jorge, me tirando do meu devaneio.
Pisquei algumas vezes e percebi que estava parada em frente à cozinha há tempo demais, segurando uma bandeja vazia.
— O quê? Ah, sim. Só… estou com sono — murmurei, tentando parecer normal. Ele riu, divertido.
— Sei. Com essa cara aí? Você não está com sono. Está apaixonada.
Meu rosto ficou em chamas na hora.
— O quê? Não! Claro que não!
Ele apenas sorriu, como se soubesse de algo que eu não sabia, e saiu andando, me deixando ainda mais nervosa.
Suspirei profundamente e voltei ao trabalho, mas nada mudou. As horas pareciam congeladas, e a única coisa que realmente ocupava minha mente era a lembrança de Domenico e do jeito como ele me olhava.
A maneira como ele me fazia sentir.
Mas, junto com isso, vinha a culpa.
Eu não vim para a Itália para me apaixonar. Vim para garantir um futuro melhor para minha família. Esse sempre foi o plano. Então, por que, agora, tudo parecia tão fora do meu controle?
Assim que meu turno terminou, voltei para casa, tomei um banho rápido e me joguei na cama, pegando o celular.
Eu precisava desabafar com alguém.
Minhas mãos hesitaram por um momento antes de tocar no nome de Rosália na tela.
Ela atendeu no segundo toque.
— ¡Mujer! Até que enfim! — A voz animada dela fez um pequeno sorriso surgir em meus lábios. — Você sumiu, o que aconteceu?
Respirei fundo.
— Eu saí com Domenico ontem à noite.
O silêncio do outro lado durou apenas um segundo antes de Rosália soltar um grito tão alto que quase derrubei o celular.
— ¡Dios mío! Me conta tudo! — Dei uma risada nervosa, virando de lado na cama.
— A gente jantou, conversamos e… — Hesitei.
— E…? — Ela praticamente implorou.
— E a gente se beijou.
Mais um grito.
— ¡Sabía! Eu sabia que isso ia acontecer! Agora me conta, como foi? Você gostou? Ele beija bem?
Fiquei em silêncio por um momento, sentindo meu coração acelerar só de lembrar.
— Foi… foi maravilhoso, Ros — confessei, a voz saindo mais baixa. — Eu nunca me senti assim antes. Ele me olha de um jeito… um jeito que eu nem sabia que alguém podia me olhar.
Ela suspirou sonhadoramente.
— Ai, amiga, que lindo! Eu tô quase chorando aqui!
Fechei os olhos e suspirei.
— Mas esse é o problema, Rosália.
— O quê? O beijo foi r**m?
— Não! — apressei-me a corrigir. — É que… eu não vim para a Itália para isso. Eu vim para trabalhar, juntar dinheiro e ajudar minha família. Eu não posso me dar ao luxo de me distrair com…
— Amor? — Ela completou.
Mordi o lábio com força.
— Eu não sei se é amor, mas… está começando a parecer algo muito forte.
Rosália ficou quieta por um momento antes de falar novamente, sua voz mais suave.
— Corazón… você passou a vida inteira cuidando de todo mundo. Sempre colocando sua família em primeiro lugar. Mas e você? — Eu engoli em seco. — Você não merece ser feliz também?
A pergunta me atingiu como um soco no peito.
Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou em minhas mãos. Olhei para a tela e senti meu coração pular.
Era uma mensagem de Domenico.
"Como você está?"
Simples, mas suficiente para aquecer meu peito de um jeito que eu não esperava.
Eu mordi o lábio, tentando conter um sorriso.
"Estou bem. E você?"
A resposta veio rápido.
"Agora melhor."
Meu rosto pegou fogo na hora.
Rosália, que percebeu meu silêncio, resmungou do outro lado da linha.
— Ai, não me diga que ele acabou de mandar mensagem!
— Mandou — admiti, baixinho e ela riu.
— E você tá sorrindo, né? Eu sei que tá.
Bufei, mas não neguei.
"Trabalhando o dia todo?"
"Sim, mas confesso que minha mente estava um pouco longe hoje."
Meu coração deu um salto.
"Longe?"
"Sim. Em você."
Pressionei a tela contra o peito e respirei fundo. Dios mío, me ajuda.
Rosália riu ao fundo.
— Iris, pelo amor de Deus, só assume logo que está apaixonada.
— Eu… — Suspirei, voltando a encarar a tela do celular. — Eu não sei o que fazer, Rosália.
— Não precisa decidir nada agora, amiga. Só… não feche os olhos para algo bonito por medo de sair do caminho que planejou. Às vezes, a vida nos leva para direções inesperadas. E talvez essa seja a direção certa para você.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, e eu sorri.
— Obrigada, Ros.
— Sempre, hermosa. Agora, me promete que vai aproveitar isso?
Respirei fundo, olhando novamente para a mensagem de Domenico.
— Vou tentar.
E pela primeira vez naquele dia, senti que talvez… talvez eu pudesse permitir isso.