Domenico Ricci
O relógio no painel do carro marcava 18h50 quando estacionei próximo à praça. O céu começava a se tingir de tons dourados e alaranjados, dando ao lugar um ar quase cinematográfico. Desliguei o motor e fiquei ali por um instante, respirando fundo.
Fazia anos que eu não me sentia tão ansioso por um encontro. Na verdade, não me lembrava da última vez que esperei alguém desse jeito, contando os minutos e sentindo o peito apertado em expectativa.
Iris.
Eu sabia que ela viria, mas parte de mim ainda esperava vê-la desistir no último momento, como se o peso do meu mundo pudesse assustá-la. Só que ela não parecia ser do tipo que recua por medo. E talvez isso fosse o que mais me atraía nela.
Deixei o carro e caminhei até a praça. Algumas pessoas passavam apressadas, outras apenas aproveitavam a brisa da noite que se instalava. Meus olhos percorreram o espaço até encontrá-la.
Iris caminhava na minha direção, e por um momento, tudo ao redor perdeu a importância.
O vestido florido que ela usava balançava suavemente com o vento, e seus cachos escuros moldavam o rosto de uma maneira que tornava impossível desviar o olhar. A luz dos postes refletia em seus olhos, acentuando aquele tom único entre o verde e o mel.
Eu sentia meu coração bater forte. Era raro alguém me afetar tanto.
Ela se aproximou, diminuindo os passos conforme a distância entre nós encurtava. Quando parou à minha frente, um pequeno sorriso hesitante surgiu em seus lábios.
— Oi — disse ela, a voz suave, mas carregada de uma timidez que me fez sorrir.
— Você está linda.
A forma como ela desviou o olhar e umedeceu os lábios me fez entender que talvez não estivesse acostumada a receber elogios. O pensamento me incomodou. Como alguém como ela podia não saber o impacto que tinha sobre o mundo ao seu redor?
— Obrigada — murmurou, os dedos brincando com a barra do vestido.
Ofereci meu braço, e após um breve momento de hesitação, ela aceitou. Sua mão descansou levemente sobre a minha, e senti o calor delicado de sua pele.
— Pensei em levar você a um restaurante típico daqui. Nada muito sofisticado, mas garanto que tem a melhor pizza da Itália.
Ela riu de leve.
— Isso parece perfeito.
Caminhamos pelas ruas de paralelepípedo, e o silêncio entre nós era confortável. Não demorou muito para chegarmos ao restaurante, um lugar tradicional com uma decoração rústica e um aroma irresistível de massa recém-assada.
Escolhi uma mesa perto da janela, e assim que nos sentamos, ela olhou ao redor com curiosidade.
— Eu gostei daqui — disse. — Parece cena de filme.
Sorri.
— Esse lugar é maravilhoso mesmo. — Ela balançou a cabeça, brincando com a borda do cardápio. — Me diz, como é viver na América Latina? — Iris riu.
— É bem quente, mas eu gostava — ela disse nostálgica — as pessoas são calorosas, receptivas e quase tudo vira festa.
Nossa conversa fluiu com facilidade. Falamos sobre comida, lugares que gostaríamos de conhecer e até sobre música. Eu queria saber tudo sobre Iris. E cada pedaço de sua história parecia mais fascinante que o anterior.
Quando a pizza chegou, observei a forma como seus olhos brilharam ao sentir o cheiro. Ela deu a primeira mordida e fechou os olhos por um segundo, apreciando o sabor.
— Dios mío… — murmurou. — Isso é incrível. — Ri baixinho.
— Eu disse que era a melhor.
— Você estava certo. — Ela respondeu suspirando em aprovação.
Continuamos comendo e conversando, e a cada minuto que passava, eu me sentia mais cativado por ela. Era como se o mundo ao redor tivesse desaparecido, deixando apenas nós dois ali.
Quando terminamos, paguei a conta antes que ela pudesse protestar, e voltamos para a praça. A noite estava mais fria agora, mas ainda sim agradável.
— O que achou do jantar? — perguntei enquanto caminhávamos lado a lado.
— Foi perfeito. Acho que nunca comi algo tão bom assim.
— Fico feliz que tenha gostado.
Chegamos até um banco e sentamos. O silêncio que se instalou entre nós dessa vez era diferente. Carregado de algo novo, algo que se intensificava a cada segundo.
Eu virei o rosto para ela e a encontrei me observando.
— O que foi? — perguntei, sorrindo de canto.
— Nada… — Ela desviou o olhar, mas um rubor subiu em suas bochechas.
Meu coração acelerou novamente.
— Posso te contar um segredo, Iris?
Ela assentiu, ainda sem me encarar.
— Acho que talvez eu tenha encontrado a luz que eu tanto procurava na escuridão.
Ela ergueu o olhar, surpresa, e por um momento, ficamos apenas nos encarando. Tudo o que queria era beijá-la, e agora!
Aproximamo-nos aos poucos, o espaço entre nós diminuindo quase imperceptivelmente. O perfume suave dela preenchia o ar, e quando nossos rostos estavam a meros centímetros de distância, vi sua respiração prender por um instante.
— Domenico… — murmurou.
— Me diga para parar, se quiser.
Ela não disse nada.
Então, fechei a distância entre nós.
O beijo começou hesitante, como se estivéssemos testando os limites um do outro. Mas, conforme nossos lábios se moldaram juntos, a hesitação deu lugar a algo mais intenso. Minhas mãos encontraram seu rosto, puxando-a para mais perto, e senti seus dedos apertarem levemente minha camisa.
Quando nos afastamos, ela abriu os olhos devagar, com um novo brilho neles.
— Isso foi… — Ela riu baixinho, balançando a cabeça.
— Foi incrível — completei. Ela mordeu o lábio, ainda sorrindo.
— Sim, foi.
Permanecemos ali, sentados lado a lado, sem pressa de ir embora. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que não havia lugar no mundo onde eu preferisse estar.