Capítulo 13

764 Palavras
Iris González Era domingo, e o cheiro de café fresco preenchia nossa pequena casa enquanto todos estavam reunidos na mesa. Os pratos simples, mas preparados com carinho, pareciam uma rotina acolhedora que eu sabia que iria deixar para trás. A xícara de café estava quente nas minhas mãos, mas o frio na barriga era mais intenso. Eu sabia que aquele momento seria difícil, mas precisava falar. Limpei a garganta, chamando atenção de todos. — Mamá, papá, hermanos… Preciso falar algo importante. Todos me olharam, curiosos. Meus irmãos, Dolores e Leonor, pararam de brigar por um pedaço de bolo, e meu pai repousou a xícara na mesa, levantando as sobrancelhas. — O que foi, hija? — perguntou minha mãe com a voz suave. Respirei fundo. — Eu decidi aceitar a proposta de Venâncio. Vou para a Itália trabalhar. O silêncio tomou conta da mesa, e por alguns segundos eu pude ouvir apenas o som do vento lá fora. Dolores foi a primeira a reagir, com os olhos arregalados. — Você vai embora? Vai nos deixar? Leonor, mais sensível, deixou o garfo cair no prato. — Vai abandonar a gente, Iris? Meu coração apertou. Como explicar algo tão complicado para duas crianças? A verdade era que eu não sabia como reagir à dor nos olhos delas. — Não é isso, Leonor. Eu nunca abandonaria vocês. — Minha voz falhou, e eu apertei as mãos no colo. — Estou fazendo isso por todos nós. Por você, por Dolores, Manuel, Juan, mamá e papá. Quero buscar uma vida melhor. Quero que vocês tenham uma oportunidade que eu não tive. — Mas você vai voltar? — perguntou Dolores, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Engoli em seco, tentando esconder minha própria vontade de chorar. — Vou. Prometo que sempre vou voltar para ver vocês. Estou fazendo isso pela nossa família, por cada um de vocês. Minhas palavras pareciam sinceras, mas o peso delas era imenso. Meus irmãos assentiram, ainda relutantes. A tarde passou devagar, e ao final do dia, quando eles já estavam dormindo, meus pais me chamaram para conversar na cozinha. Eles estavam sentados, lado a lado, com expressões sérias. — Filha, sabemos que essa decisão não foi fácil para você — começou meu pai, com a voz grave, mas cheia de ternura. — Só queremos que você saiba que estamos orgulhosos da sua coragem. Minha mãe assentiu, segurando minha mão. — Mas você precisa tomar muito cuidado, hija. Não confie em qualquer pessoa, e nos avise todos os dias como está. Se precisar de ajuda, ligue. Sempre estaremos aqui para você. As lágrimas que eu segurava durante todo o dia finalmente desceram. — Eu estou fazendo isso por vocês. Quero que nossa vida seja diferente, quero que eles tenham um futuro melhor. Os dois me abraçaram, e naquele momento eu percebi o quanto o amor deles me fortalecia, mesmo diante do desconhecido. A semana foi passando, e eu me joguei na tarefa de preparar minhas coisas. Com minhas poucas roupas e objetos pessoais, comecei a organizar uma mala pequena. Não era difícil perceber o quanto eu tinha pouco, mas era difícil saber o que levar. Enquanto separava algumas peças de roupa no quarto, ouvi o telefone tocar. Minha mãe atendeu e logo me chamou. — Iris, é Venâncio. — Corri para atender, nervosa. — Alô? — Iris, está tudo pronto. Seu passaporte, o visto e a passagem estão certos. — A voz de Venâncio era direta, quase fria, mas trazia um certo alívio. — Partiremos no sábado bem cedo. Eu vou te acompanhar junto com mais dois trabalhadores escolhidos. Suspirei, sentindo um alívio tímido. Saber que não iria completamente sozinha ajudava a diminuir o nó na garganta. — Tudo bem. Obrigada por me avisar. — Certifique-se de estar pronta. Nos vemos no sábado de manhã. — Ele desligou, e eu fiquei parada, segurando o telefone contra o peito. Era isso. A decisão havia sido tomada, e agora não tinha mais como voltar atrás. Na sexta-feira à noite, enquanto dobrava as últimas roupas e fechava a mala, olhei ao redor do pequeno quarto que dividi com meus irmãos por toda a vida. Cada detalhe parecia guardar uma memória preciosa. As camas alinhadas, o armário pequeno, o cheiro familiar. Tudo aquilo fazia parte de quem eu era, e deixá-lo para trás parecia assustador. Mas ao mesmo tempo, uma faísca de esperança começava a brilhar. Talvez, só talvez, essa fosse a oportunidade de mudar nossas vidas para melhor. Respirei fundo, tentando ser otimista. Afinal, o futuro ainda estava por ser escrito, e eu estava disposta a enfrentar o que fosse preciso.
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