Iris González
O sol brilhava forte naquela manhã de sábado, mas eu sentia uma estranha frieza no ar. Meu coração batia acelerado enquanto ajeitava as últimas coisas na pequena mala de viagem que levaria comigo. Era estranho pensar que tudo o que eu precisaria para começar uma nova vida cabia ali. As roupas simples, o pequeno terço da minha mãe e uma foto da família. Tudo tão pouco, mas ao mesmo tempo tão pesado.
Minha mãe estava na cozinha, preparando uma pequena bandeja com biscoitos e café. Meu pai já tinha colocado o carro para funcionar, enquanto meus irmãos ainda pareciam confusos com o que estava prestes a acontecer. Eu tentava agir normalmente, mas o nó no meu estômago denunciava o turbilhão de emoções que me consumia.
— Está pronta, mi hija? — minha mãe perguntou, sua voz carregada de uma calma que eu sabia ser falsa. Ela se esforçava para não chorar. Apenas assenti, engolindo o aperto na garganta.
No caminho para o aeroporto, o silêncio no carro era quase ensurdecedor. Meus irmãos sussurravam entre si do meu lado, mas eu não conseguia captar o que diziam. Meus olhos estavam fixos na janela, observando as ruas de Peralta que eu sempre conheci, talvez pela última vez em muito tempo. Cada curva, cada árvore, cada casa parecia guardar um pedaço da minha história, e eu me perguntava como seria deixar tudo isso para trás.
Ao chegarmos ao aeroporto de San Juan, senti um frio na barriga ainda maior. Nunca havia estado em um lugar tão grande e movimentado. As vozes ecoavam de todas as direções, malas sendo arrastadas, crianças chorando, avisos nos alto-falantes que pareciam em uma língua completamente diferente. Meus olhos vagaram pelo saguão até avistar Venâncio. Ele estava parado próximo a um balcão, acompanhado de um homem robusto, de cabelos escuros e aparência séria, e uma mulher alta, morena, com olhos gentis. Imaginei que eles seriam os outros dois que fariam parte dessa jornada.
— Então, estamos prontos? — Venâncio perguntou com seu habitual sorriso, que sempre me deixava desconfiada. Ele começou a explicar os detalhes da viagem. — Faremos uma escala em Madri antes de seguirmos para Turim. Será um processo simples, mas preciso que todos vocês respondam as perguntas da imigração exatamente como eu instruir. Apresentem as cartas convites e o contrato de trabalho. Eu já cuidei de todos os papéis para evitar problemas.
Concordei com a cabeça, enquanto meus pais se aproximavam para me acompanhar no check-in. O homem e a mulher pareciam igualmente apreensivos, mas confiantes em Venâncio. Eu, por outro lado, sentia que cada palavra dele era uma corda invisível me puxando para um destino que eu não conseguia prever.
Depois do check-in e com as malas despachadas, Venâncio nos deu alguns minutos para nos despedirmos de nossas famílias. Meu pai, sempre firme, colocou as mãos em meus ombros e me encarou com um olhar misto de orgulho e preocupação.
— Você é forte, Iris. Vai fazer tudo certo, e estaremos aqui esperando por você.
Minha mãe me abraçou tão forte que por um momento quase me faltou ar.
— Cuide-se, minha menina. Não se esqueça de nós. E reze todos os dias, por favor.
Leonor, com lágrimas nos olhos, segurou minha mão.
— Você vai voltar, não vai?
— Claro que vou — disse, tentando sorrir para ela. Mas, no fundo, eu não sabia se era verdade.
Dolores não disse nada. Apenas me abraçou em silêncio, e isso doeu mais do que qualquer palavra que ela pudesse ter dito.
Juan e Manuel também me abraçaram, mas o momento foi interrompido pelo aviso de que o embarque para o voo estava prestes a começar. Venâncio fez sinal para que nos aproximássemos do portão. Dei um último aceno para minha família antes de passar pelo controle de segurança e imigração. A imagem deles ficou gravada na minha mente enquanto seguia em direção ao desconhecido.
Depois de responder milhares de perguntas, entramos no avião. Sentei-me ao lado da mulher, que se apresentou como Carmen. O homem, cujo nome era Jorge, sentou-se algumas fileiras à frente, junto com Venâncio. Era minha primeira vez em um avião, e, quando ele decolou, senti o estômago revirar. Carmen percebeu minha expressão e riu.
— É sempre assim na primeira vez. Você se acostuma.
Tentei relaxar, mas a ansiedade tomou conta de mim. Carmen, no entanto, parecia tranquila e começou a me contar sobre a vida que esperava por nós na Itália.
— Ouvi dizer que o restaurante é bonito, e o trabalho não será tão pesado. Vai ser uma boa oportunidade. — Apenas sorri, sem saber como responder.
Meu coração ainda estava em Peralta, com minha família, e era difícil pensar em algo positivo. Antes que percebesse, o cansaço tomou conta de mim, e acabei adormecendo.
Depois de horas que mais pareceram minutos, fui acordada por Carmen, que me avisou que estávamos nos aproximando de Madri. Ao pousarmos, passamos por mais um processo de imigração, seguindo cuidadosamente as instruções de Venâncio. Foi complicado, mas conseguimos passar sem problemas. Enquanto esperávamos o próximo voo, aproveitei para observar o aeroporto. Era enorme, cheio de luzes e pessoas de todos os cantos do mundo. Pela primeira vez, percebi o quão pequena era minha realidade em comparação com o resto do mundo.
Depois de algumas horas, embarcamos para Turim. O segundo voo foi mais curto, durando pouco mais de duas horas, mas meu nervosismo só aumentava. Quando finalmente pousamos na Itália, meu coração parecia prestes a sair pela boca. Saímos do avião e fomos recebidos por um ar frio e úmido que parecia anunciar que minha vida estava prestes a mudar completamente.
Ao pisar fora do aeroporto, olhei ao redor e senti um aperto no peito. Tudo era novo, estranho, desconhecido. Não havia mais volta.