Capítulo 15

1344 Palavras
Domenico Ricci A manhã começava quente, o calor de julho intensificado pela movimentação no campo de treinamento. Os soldados estavam alinhados, suor escorrendo por suas testas enquanto executavam as ordens com precisão. A areia do campo levantava uma nuvem fina a cada passo, como se o próprio terreno fosse um reflexo da disciplina imposta por nossa família. A Carbone não admitia falhas. E eu, como capo, tinha que garantir que eles não as cometessem. Caminhei pela lateral do campo, observando cada movimento com olhos críticos. O treinamento estava no ápice: os soldados faziam exercícios de resistência, simulação de combate e reação a ataques surpresa. Alguns estavam visivelmente cansados, mas nenhum se atrevia a interromper o ritmo. A visão deles, embora exausta, me trazia uma sensação de segurança. Eles estavam prontos para qualquer coisa, e eu precisava ter certeza disso. A passos firmes, me aproximei de um dos grupos. Os homens estavam alinhados em fileiras, respirando pesadamente, mas sem perder a postura. Fiquei em silêncio por alguns segundos, apenas os observando, até que alguém percebeu minha presença. — Tudo bem, pessoal? — perguntei, minha voz firme, mas controlada. — Estão se saindo bem, mas lembrem-se: o treinamento nunca acaba. Cada erro, cada fraqueza, pode custar caro. E se algum de vocês achar que o cansaço é mais forte que sua lealdade à família, a porta está sempre aberta. Um silêncio se instalou rapidamente. Ninguém ousou responder. Era assim que deveria ser. Eu tinha o respeito deles, mas, mais do que isso, eles sabiam que a Carbone não tolerava falhas. A máfia precisa estar sempre em movimento, sempre forte. — Não se esqueçam do que está em jogo. A segurança da família, o poder da nossa organização. Continuem! — concluí, dando as costas e seguindo para o próximo grupo. Olhei novamente para todos, cada um suando, mas nenhum fraquejando. O campo de treinamento sempre foi um lugar onde se faziam mais do que apenas treinos físicos. Era um lugar de formação, onde cada movimento, cada comando, era uma lição de sobrevivência. E eu sabia que, em algum momento, todos ali precisariam colocar essas lições à prova. Terminei a inspeção, sentindo-me satisfeito com o que vi. Podia não ser perfeito, mas era o suficiente para garantir que estivessem prontos para qualquer imprevisto. O que precisávamos era manter o controle, não apenas dos nossos negócios, mas também da nossa força de combate. Decidi que era hora de um descanso. Não que o trabalho estivesse terminado, longe disso, mas, como sempre, era preciso balancear. E, para mim, nada melhor do que passar algum tempo com a minha mamma. As coisas na máfia podem ser complicadas, implacáveis, mas minha mãe sempre foi um refúgio de tranquilidade. Ela me ensinou o valor da família, algo que não se pode perder, mesmo em um mundo como o nosso. Já no estacionamento, dentro do meu carro, respirei fundo antes de ligar o motor. Não era o tipo de relaxamento que alguém esperaria de um capo, mas a rotina me consumia tanto que momentos como esse eram um sopro de vida. Quando o carro parou na frente da casa dos meus pais, o cheiro de comida invadiu meu nariz imediatamente. Minha mamma sempre teve o dom de fazer a casa parecer acolhedora, mesmo com tudo o que acontecia lá fora. — Domenico! Il mio ragazzo! — Ela apareceu à porta, com um sorriso carinhoso no rosto. Sempre que eu chegava, ela parecia feliz demais, como se nada mais importasse. Isso me fazia sentir uma paz que não tinha em nenhum outro lugar. Entrei e fui diretamente até ela, abraçando-a com força, sentindo o calor de sua presença. Ela me olhou com os olhos brilhando, um olhar de orgulho e preocupação ao mesmo tempo. — Mamma, quanto tempo! — falei, a voz suave, mais relaxada do que estava acostumado. — O que temos para o almoço? — Ah, querido, você sabe que nunca é demais quando se trata de comida. Sente-se, sente-se. Eu preparei o que você mais gosta: risoto de funghi e frango assado. Eu me sentei à mesa, relaxando enquanto ela colocava os pratos. Mesmo com toda a pressão do meu trabalho, mesmo sabendo que o império da máfia exigia muito de mim, aquelas pequenas interações com minha família eram mais valiosas do que qualquer acordo fechado ou operação bem-sucedida. Isso me fazia sentir humano, me fazia lembrar quem eu realmente era. Quando a comida foi servida, ela começou a falar sobre as novidades da casa, os parentes distantes, os vizinhos. Às vezes, quando ela começava a falar, eu a deixava ir, ouvindo as histórias dela com atenção. Essas histórias eram sempre simples, mas para ela, eram o centro de seu mundo. — Você precisa parar de trabalhar tanto, Domenico — disse ela com um sorriso preocupado. — Não podemos viver só de trabalho, querido. Você já pensou em dar um tempo? Ficar um pouco mais em casa, descansar um pouco? Eu ri baixinho, mas não consegui esconder o cansaço que sentia. Ela sempre tentava afastar eu e Damiano dos negócios, mas eu sabia que essa era uma luta perdida. O que fazíamos era para protegê-la, para proteger todos. Mesmo que ela não entendesse completamente, ela sabia o suficiente. — Mamma, eu sei que você se preocupa. Mas você sabe que o que fazemos não é apenas pelo trabalho, é para nossa família. Estamos seguros por causa disso. Eu estou fazendo o meu papel. — Tentei tranquilizá-la, mas sabia que ela ainda ficava angustiada com a vida que levávamos. Ela apenas suspirou, mas não disse mais nada. Quando minha mamma se preocupava, era difícil mudar sua mente. Ao menos, naquele momento, a comida e a companhia nos davam um intervalo dessa realidade c***l que envolvia nossa família. Enquanto comíamos, uma das funcionárias entrou na sala, carregando uma bandeja de sobremesa. Ela era uma mulher animada, sempre disposta a trazer leveza aos meus dias. Quando ela entrou, minha mamma a recebeu com um sorriso. — Ah, Carla, você viu quem apareceu? — disse minha mamma, ajudando a colocar a sobremesa na mesa. Eu a observei enquanto ela se aproximava, oferecendo uma taça de sobremesa para mim. Carla praticamente me viu crescer, e seu bom humor sempre me tirava um sorriso. — Olha se não é nosso menino — Carla disse, com aquele sorriso travesso. — Vamos, coma. Tem sobremesa e uma boa conversa aqui! Eu ri, sem poder evitar. Ela sabia como me fazer relaxar. Minha mãe e Carla viviam juntas; elas eram quase como o coração da casa. — Estava com saudades, Carla — respondi, tentando amolecer o coração dela e fazê-las rir. O clima na mesa era descontraído. Carla continuava com suas piadas, minha mamma dava risadas, e, por alguns momentos, eu me senti verdadeiramente em casa. O peso da máfia, dos negócios, da responsabilidade, parecia um pouco mais distante. O almoço passou rápido. Entre uma conversa e outra, o tempo foi se escoando, e a sensação de tranquilidade foi ficando mais forte. Eu sabia que não podia ficar ali para sempre, mas precisava desse tipo de momento. Desse tipo de calma que só minha mãe e os poucos momentos de normalidade conseguiam proporcionar. — Está na hora de eu ir, mamma — falei, com um tom mais sério agora, já sabendo que o trabalho me chamava de novo. — Mas prometo que volto logo e trago boas notícias. Ela me abraçou apertado, beijando minha testa. Era uma despedida breve, mas cheia de significado. — Eu te amo, mio figlio. Cuide-se e lembre-se de que sempre estarei esperando por você aqui. — Eu sei, mamma. Eu te amo também. — Respondi, sentindo o peso da despedida. Mesmo sendo breve, era sempre difícil sair daquele ambiente. Dei um último olhar para a casa que me viu crescer, antes de seguir para o próximo desafio. No fundo, sabia que o equilíbrio entre o trabalho e a família era sempre difícil de manter, mas, pelo menos ali, ao lado de minha mamma e das pessoas que me amavam, eu conseguia encontrar um pouco de paz.
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