Capítulo 16

847 Palavras
Iris González A porta do aeroporto se abriu, e o vento frio que me recebeu foi uma surpresa. Não estava acostumada com aquele tipo de clima. Apertei meu casaco contra o corpo enquanto seguia Venâncio, que caminhava apressado na frente, acenando para um táxi estacionado próximo. — Aqui, rápido! — ele chamou, enquanto nós apanhávamos as malas. O motorista desceu para nos ajudar a colocar tudo no porta-malas. Venâncio ditou o endereço, e o carro deu partida. Eu me acomodei no banco, com Carmen ao meu lado. Jorge sentou-se na frente, ao lado do motorista, que falava algo em italiano com Venâncio. Não entendia nada, mas o tom parecia casual, quase amistoso. Observei tudo ao redor. Era impossível não ficar impressionada. As ruas de Turim eram amplas, cheias de prédios com arquitetura que parecia saída de um livro. As fachadas elegantes, as lojas iluminadas, as pessoas bem vestidas andando com pressa. Era diferente de tudo o que eu conhecia. — Lindo, né? — Carmen sussurrou, me arrancando dos pensamentos. — Muito — respondi, com um sorriso tímido. Conforme avançávamos, a paisagem mudou. As ruas largas deram lugar a vielas estreitas, os prédios antes majestosos agora pareciam mais velhos, com fachadas descascadas. O movimento de pessoas também diminuiu, e uma sensação estranha começou a crescer no meu peito. — É aqui — disse Venâncio, quando o táxi parou em frente a uma rua quase deserta. Pegamos nossas malas e seguimos Venâncio. Ele nos guiou até uma viela ainda mais estreita e escura. As lâmpadas dos postes piscavam, como se estivessem prestes a se apagar. Venâncio parou em frente a um prédio pequeno, com paredes descascadas e janelas de vidro empoeiradas. — Este será o lar de vocês — anunciou, sem emoção alguma. Olhei para Carmen, e ela me devolveu um olhar inquieto. Jorge soltou um suspiro pesado, mas ninguém disse nada. Venâncio entregou uma chave para cada um, e subimos por uma escada estreita que rangia sob nossos pés. O ar ali dentro era abafado, com cheiro de mofo e algo metálico que não consegui identificar. No segundo andar, o corredor m*l iluminado tinha várias portas. Venâncio parou em frente à primeira e entregou a chave para Carmen. — Vocês duas aguardem aqui. — ele disse — Já irei voltar. Jorge e Venâncio entraram por uma porta, e eu os observei até o momento em que a porta se fechou. Fiquei no corredor junto com Carmen, com a minha mala ao lado. Aproveitei para tirar o celular do bolso e enviar uma mensagem rápida para minha família: “Cheguei bem. Está tudo certo. Não se preocupem.” Não sabia quando teria tempo de responder, mas precisava que eles soubessem que eu estava bem. Quando Venâncio voltou, fez o mesmo processo com Carmen. Até que ele saiu e me levou até a última porta no final do corredor. — Este é o seu. Abra. Com as mãos trêmulas, girei a chave e entrei. O cheiro de mofo era ainda mais forte ali dentro. A quitinete era minúscula, com paredes descascadas e um colchão jogado no canto, coberto por um lençol manchado. Havia uma mesa pequena e duas cadeiras de madeira, ambas com partes quebradas. No fundo, uma pia e um fogão enferrujado formavam o que deveria ser a cozinha. Antes que eu pudesse explorar mais, Venâncio entrou, trancando a porta atrás de si. Ele cruzou os braços, encostado na parede. Seu semblante amigável havia desaparecido. — Escuta bem, menina — começou, com uma voz fria. — Agora que estão aqui, as coisas vão funcionar do meu jeito. Senti um frio percorrer minha espinha. — Você trabalhará de segunda a domingo, das 07h às 23h. E nem pense em reclamar. — Mas isso não foi o que… — Cala a boca! — ele gritou, me interrompendo. Recuei instintivamente. — Você veio para cá por escolha própria. Não tem volta. Seus documentos estão comigo. Sem eles, você não é ninguém neste país. Minhas pernas ficaram bambas. Ele estava falando sério, e cada palavra soava como uma sentença. — Não sou tão c***l, então vou te conceder um salário. Dois mil e duzentos euros — continuou ele, com um sorriso sarcástico. — Não é muito, mas melhor do que ganhava naquele buraco onde morava, não é? O valor que ele mencionou era pequeno, mas ainda era mais do que eu ganhava na lavoura. Respirei fundo, tentando me agarrar àquilo como um consolo. Pelo menos minha família teria algo para se sustentar. — Amanhã cedo, você começa. Esteja pronta às sete. Não quero atrasos — ele disse, destrancando a porta. Antes de sair, virou-se uma última vez. — E nem pense em abrir a boca para alguém. Você sabe o que acontece com quem tenta ser esperto. Fiz que sim com a cabeça, sem conseguir responder. Ele saiu, fechando a porta com força. Fiquei parada, observando a quitinete. Sentei no colchão, abraçando meus joelhos. As lágrimas começaram a escorrer antes que eu pudesse impedi-las. — É por eles… — sussurrei para mim mesma. Era a única coisa que me fazia seguir em frente.
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