Capítulo 17

1154 Palavras
Domenico Ricci O dia começou pesado, como sempre. Eu ainda sentia o peso da responsabilidade sobre os ombros, e o ar denso da manhã refletia a pressão constante que a vida de capo me impunha. Embora a Carbone tenha se consolidado ao longo dos anos, as dinâmicas externas mudavam, e com isso, nossas estratégias precisavam acompanhar. Eu sabia que não poderíamos ser pegos desprevenidos. Os tempos estavam ficando cada vez mais imprevisíveis. Naquela manhã, Luca e Ricardo chegaram ao meu escritório com mais um pacote de documentos e relatórios. O que estava acontecendo era algo que exigia minha atenção total. Eles estavam acompanhando os dados do tráfico humano que havíamos detectado, algo que ainda não sabia bem como lidar, mas que, com certeza, estava chamando a nossa atenção. — Domenico, aqui estão os últimos números — disse Ricardo, colocando uma pilha de papéis sobre a mesa. Ele estava visivelmente tenso; algo não estava certo. — Olhe esses voos. Há um aumento grande no número de viagens que chegam da América do Sul e da África, e todas essas pessoas estão entrando legalmente no país. Eu comecei a analisar as informações. Tudo parecia normal à primeira vista, mas, à medida que os números se acumulavam, algo começava a me incomodar. Não era só o número de voos que estava aumentando, mas o fato de que todos pareciam estar usando os mesmos cartões de crédito. Isso não fazia sentido. Normalmente, pessoas de diferentes partes do mundo usariam meios diversos para pagar suas viagens. Essa coincidência me fez pensar que havia algo mais por trás dessa história. — Mas esses voos são legais. As pessoas estão entrando legalmente — eu disse, ainda tentando fazer sentido de tudo aquilo. — Então, qual o problema? Ricardo hesitou, como se estivesse se preparando para dar uma resposta mais profunda. — O problema, Domenico, é que as passagens estão sendo compradas pelo mesmo cartão. Em uma grande quantidade. Isso não é coincidência. Alguém está financiando essas viagens, provavelmente para algum fim que não conhecemos. Eu assenti, observando os documentos com mais atenção. Havia algo de muito errado ali, algo que indicava que esse tipo de operação estava bem estruturado, com muitos envolvidos e, possivelmente, perigosos. — Quem fez o levantamento desses dados? — perguntei, minha mente começando a se organizar para o que viria a seguir. Ricardo trocou um olhar rápido com Luca, como se estivessem decidindo quem falaria. Finalmente, Luca falou, com uma voz mais calma, mas com a mesma urgência em seu tom. — A senhorita Donatella. Ela é quem tem rastreado tudo isso. Conseguiu acessar documentos e informações que nem imaginávamos que existissem. Donatella. Tinha que ser. Sempre com sua habilidade impressionante de encontrar o que ninguém mais poderia. Sabia que, se ela estava envolvida, isso significava que estávamos em algo muito maior. Ela tinha uma forma única de extrair informações, e nada passava despercebido por ela. Eu sentia que estávamos prestes a descobrir algo que poderia mudar tudo. — Vamos ver o que mais temos. — Eu disse, tentando me concentrar nas pilhas de papéis sobre a mesa. Ricardo começou a reorganizar os documentos e me entregou uma foto. Era uma imagem do desembarque de imigrantes no aeroporto de Turim, com alguns rostos assustados e confusos. Mais um indicativo de que essa operação estava sendo muito bem orquestrada. Não eram apenas imigrantes comuns. Eles estavam sendo movidos de um lugar para outro, sem um destino claro, e o fato de que estavam sendo monitorados por um pagamento centralizado me incomodava. — Essa foto foi tirada no último lote de imigrantes que chegaram, Domenico. São pessoas que parecem estar sendo transportadas sem uma razão lógica. E o tempo que passaram na Itália antes de serem enviados para outras cidades? Isso não faz sentido. Eu olhei fixamente para a foto. O medo nos olhos daqueles imigrantes era palpável, como se estivessem cientes de que algo muito mais grave estava acontecendo, mas sem saber o quê. Essa foto me dizia que estávamos lidando com algo muito mais sombrio do que apenas uma rede de imigração ilegal. — Temos que descobrir quem está por trás disso — falei, minha voz mais baixa, quase um sussurro. — Precisamos entender o que está acontecendo aqui, quem está financiando essas viagens e como estão manipulando essas pessoas. Luca e Ricardo se entreolharam e concordaram, antes de continuarem com o levantamento de informações. A sala estava silenciosa, com o som das folhas sendo viradas e as teclas de computador sendo pressionadas. Todos nós estávamos imersos nos detalhes, procurando por qualquer pista que nos desse um caminho a seguir. — Vamos analisar o histórico dos cartões de crédito usados. Se há uma pessoa ou uma empresa por trás disso, devemos encontrar algo — disse Ricardo, virando outra página. Eu fiquei em pé, olhando pela janela, tentando reunir meus pensamentos. Sabia que aquilo poderia ser o começo de algo muito grande. Não só envolvia tráfico humano, mas também uma rede muito bem estruturada, com grandes interesses. As implicações disso poderiam ser devastadoras, não só para nossa família, mas para o controle que tínhamos sobre a cidade. Precisávamos ser rápidos. — Temos que ir até o fim dessa história — falei, com firmeza. — Vamos descobrir quem são esses responsáveis e, se for necessário, nós vamos tomar as medidas certas. O ambiente estava carregado de tensão, e a sensação de que o tempo estava se esgotando se intensificava a cada minuto. Cada um de nós sabia que não poderíamos falhar. Nossa investigação estava prestes a desmascarar algo muito maior, e nós tínhamos que estar preparados para as consequências que viriam a seguir. Luca e Ricardo começaram a revisar mais documentos, e eu me concentrei na foto das pessoas que pareciam estar sendo movidas sem motivo. Meus olhos fixaram-se nos rostos daqueles imigrantes, que, apesar da legalidade da entrada, estavam sendo tratados como peças em um tabuleiro. O que mais me incomodava era a sensação de que essas vidas estavam sendo manipuladas, usadas por alguém que, assim como nós, sabia como jogar o jogo das sombras. O telefone tocou na minha mesa, interrompendo meus pensamentos. Era uma chamada de Donatella. Respirei fundo antes de atender. — Espero que tenha conseguido o suficiente, fratello — a voz dela estava calma, mas eu podia ouvir o toque de tensão em suas palavras. — Até demais, Dona, obrigado — respondi e pude ouvir uma risadinha do outro lado. — Está me devendo um almoço. — Ela disse, e eu ri. — Quando quiser, sorella. — Desliguei o telefone e olhei para os meus homens. A investigação estava tomando um rumo que ninguém poderia prever. Mas o que quer que fosse, eu sabia que tinha que agir rápido. A Carbone não era apenas sobre negócios, era sobre proteger nossa família. E, no momento, nossas vidas estavam prestes a se entrelaçar com algo muito mais perigoso do que qualquer um de nós poderia imaginar.
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