Capítulo 18

1120 Palavras
Iris González A batida na porta foi forte, como um soco. O som me fez acordar abruptamente, e, por um momento, fiquei sem saber onde estava. O quarto ainda estava imerso em uma penumbra preguiçosa, a luz do dia m*l conseguindo atravessar a cortina suja. Mas a batida foi insistente, e logo ouvi a voz de Venâncio, cortante como uma lâmina: — Acorda, i****a. Levanta! — Ele não estava pedindo, estava ordenando. Abri os olhos, os músculos pesados, e antes que pudesse me recompor, ele entrou sem nem ao menos esperar que eu respondesse. Com um movimento brusco, ele jogou um pacote em minha direção. — Quinze minutos. E prende esse cabelo, tá? Não quero ninguém assustado com esse monte de fios soltos. — Ele riu, mas não havia humor nenhum naquele som. Só desdém. Fiquei parada, sem saber o que fazer. Ele estava ali, olhando-me como se eu fosse uma das coisas que ele controlava. Meu corpo ainda estava pesado pela falta de sono, e a ideia de ter que me arrumar rapidamente parecia quase impossível. Mas não havia escolha. Peguei o pacote, fui até o banheiro e joguei água no rosto. O frio cortou minha pele, mas não fez nada para espantar a sensação de estar presa em algo do qual eu não sabia como sair. O uniforme, que estava cuidadosamente embrulhado, me fez parar por um instante. O tecido era bom, a qualidade era inegável. Mas o que isso importava? Estava tudo errado. O uniforme, mesmo bem feito, me fazia sentir ainda mais uma estranha naquele lugar. Um lugar que eu não imaginava ser assim. Vesti a roupa rapidamente, sem nem prestar atenção se estava tudo certo. O cabelo, que ele tanto havia mencionado, não parecia melhorar de jeito nenhum, não importa o quanto eu tentasse. Mas o que eu podia fazer? Só seguir em frente. Não podia mais desperdiçar tempo. Quando saí da quitinete, vi Carmem e Jorge, ambos com o semblante cansado, nervoso. Eles estavam tão perdidos quanto eu. Mas Venâncio não os poupou nem um segundo. Ele apareceu do nada, chamando-nos como se fôssemos cachorros. — Vai logo, imprestáveis. — Ele gritou. — Se atrasarem, vão ver só. — E jogou um pão para cada um de nós, como se estivéssemos no campo, em algum lugar esquecido do mundo. Não teve mais palavras. Ele só nos apressou. Comi o pão em silêncio, sem ânimo. O gosto estava seco, sem sal. Nada parecia ter sabor ali. O caminho até o restaurante foi rápido, uma viagem de pesadelo. Ele nos levou por ruas apertadas até o centro de Turim, onde as praças e os prédios imponentes me faziam sentir cada vez mais pequena. O restaurante era impressionante, mas aquilo só me fez sentir mais deslocada. Era um lugar de luxo, e eu, ali, não passava de uma peça descartável no jogo de alguém. Quando entramos, o ar estava denso com o cheiro de comida cara, mas nada disso me importava. Eu não queria estar ali. Eu só queria voltar para casa. Venâncio se adiantou, abriu a porta e entrou como se fosse o dono do mundo. E, de certa forma, ele achava que era. Ele nos olhou como se fôssemos os piores empregados possíveis, e começou a falar, sem sequer pedir nossa opinião. — Jorge, vai pra cozinha. Vai ser seu lugar de i****a. Carmem, você fica comigo, como minha sombra. E você, Iris, fica no salão. Vai limpar, vai servir, vai fazer o que for. E, se tiverem sorte, vão ganhar almoço. Mas não se acostumem, não. — Ele fez uma pausa e olhou para mim com um sorriso torto. — Eu estou de olho em vocês. Eu não pude responder. A palavra que estava na minha garganta — por quê? — não saiu. Não podia. Ele já havia me calado com a brutalidade das suas ordens. A sensação de impotência era esmagadora, mas eu não tinha escolha. Tentei dar um passo para o salão, sem sequer olhar para os outros. O trabalho começou e, com ele, a sensação de ser incapaz de parar o que estava acontecendo. Eu fui de mesa em mesa, limpando, arrumando, tentando fazer o que ele mandava, mas a cada passo, a cada novo erro, ele estava ali, vigiando, pronto para me humilhar mais uma vez. — E aí, Iris, vai ser assim o tempo todo? — Ele gritou, fazendo todos olharem para mim. — Você é uma i****a mesmo, hein? Cada bronca, cada olhar de desprezo parecia dilacerar algo dentro de mim. Era um esforço sem fim, e o peso da culpa não parava de me sufocar. A cada erro que cometia, parecia que ele tinha prazer em me rebaixar ainda mais. Quando uma funcionária mais experiente se aproximou para me orientar, eu quase não acreditei. Alguém, finalmente, tentava me ajudar. Ela me explicou o básico, como atender os clientes, como sorrir sem perder a compostura. Mas, mesmo assim, não conseguia me sentir em paz. Eu estava ali, mas apenas de corpo. O lugar não era meu. Eu era apenas uma peça na engrenagem de um jogo sujo. O restaurante lotou. Clientes entraram e saíram como se não houvesse um ser humano por trás da cortina do serviço. Eu tentava me manter atenta, servindo da melhor forma que podia, mas sempre que ele passava, as palavras cortantes vinham com força. — Você é a pior funcionária que eu já vi! Você não aprendeu nada, não? Eu queria gritar, queria mandar ele calar a boca. Mas as palavras ficaram presas, engolidas pela humilhação constante. Eu só queria fugir, mas não podia. Ele estava ali, controlando tudo. O dia foi passando, e a exaustão era um peso insuportável. Quando o último cliente finalmente saiu, um alívio momentâneo me invadiu. Mas não durou. Meu corpo estava dolorido, minhas mãos tremiam, meus pés já não sentiam mais o chão. Eu m*l conseguia me mover. A dor, o cansaço, a humilhação… tudo isso se misturava, criando uma bola de angústia no meu peito. Caminhei até o vestiário, com os pés arrastando no chão. Entrei e, com um suspiro, me deixei cair sobre um banco. A sensação de fraqueza era total. Tirei o avental sujo, e foi como se um peso tivesse saído de mim. Mas a dor ainda estava lá. Eu estava vazia, exausta, perdida. Foi quando a voz dele cortou o silêncio mais uma vez. — Tire essa cara de derrota, Iris. — Ele disse, com aquele tom desdenhoso. — Amanhã tem mais. E, se eu fosse você, começava a trabalhar direito, senão você vai ver o que é bom. Ele se foi, e eu fiquei ali, sozinha, tentando processar o que estava acontecendo comigo. Onde estava com a cabeça quando aceitei isso?
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