Domenico Ricci
O dia na sede da máfia seguia seu curso habitual. Relatórios, contratos, fornecedores, chamadas intermináveis de negócios e, claro, as inúmeras ligações. Eu estava profundamente imerso na papelada quando meu celular vibrou. Ao olhar, vi que era uma mensagem de Donatella: “Estou pronta. Não quero atrasos, Domenico.”
Levantei-me imediatamente da cadeira, surpreso por me perder no tempo. Eu havia prometido a ela que almoçaríamos juntos. Donatella não era do tipo que aceitava atrasos, especialmente quando eu já havia me comprometido.
Com pressa, peguei meu blazer e saí rapidamente pelos corredores da sede. Passei por Luca, que conversava com um dos soldados. Ele me olhou e logo perguntou se havia algo diferente.
— Está tudo bem, Domenico?
Eu não podia me dar ao luxo de perder mais tempo.
— Sim, sim, tudo certo. — Respondi apressado, sem parar. — Eu já vou.
Eu sabia que, se eu demorasse mais de um segundo, Donatella começaria a me cobrar. Não queria enfrentar a irritação dela mais uma vez.
Entrei no carro e comecei a dirigir até o escritório da Mira. Quando cheguei, vi minha irmã já me esperando na entrada, com seu visual impecável e sua postura de quem tinha o mundo aos seus pés. Ela estava radiante, como sempre, com um vestido caro o suficiente para comprar um bom carro.
Saí do carro e a cumprimentei com um beijo na testa, abrindo a porta para ela. Donatella me olhou com um sorriso e então se acomodou no banco do passageiro enquanto eu retornava para o lado do motorista.
— Então, o que você tem de novo? — Perguntei, tentando puxar uma conversa leve.
Ela logo começou a falar animadamente sobre a Mira. A empolgação dela era evidente, como sempre. Donatella não conhecia limites quando se tratava de seus negócios.
— A Mira está indo muito bem, Domenico. Estamos fechando contratos maiores, e a marca está sendo reconhecida por celebridades agora. Se continuar assim, em breve vamos expandir para fora da Itália. Eu sinto que estamos prestes a conquistar o mundo.
Eu a escutava, mas ao mesmo tempo me perdia nos meus pensamentos. Donatella era extremamente capaz, e sua visão de negócios era quase imbatível. Mas sabia que, para ela, o sucesso da Mira não se limitava apenas ao lado profissional. Ela queria mais. Junto com minha cunhada, elas queriam ser mulheres poderosas, admiradas, temidas. E para isso, estavam dispostas a fazer o que fosse necessário.
Quando chegamos ao restaurante, Donatella se ajeitou no banco, se certificando de que estava impecável, como sempre. Eu abri a porta para ela e a guiei até a entrada do local, onde fomos recebidos por um garçom que nos conduziu até uma mesa mais reservada. Como sempre, puxei a cadeira para ela se sentar e então tomei meu lugar à sua frente. Eu sabia que isso era importante para ela, que me preocupasse com cada detalhe.
Donatella olhou ao redor, examinando o ambiente com atenção, como se já estivesse se preparando para avaliar cada movimento. Eu a observava enquanto fazia o mesmo. O restaurante era sofisticado, mas havia algo estranho no ar. Alguns funcionários pareciam visivelmente nervosos, com rostos tensos e apressados. Tentei não demonstrar minha inquietação, mas minha mente já estava em alerta.
Fazendo um esforço para me concentrar na conversa com minha irmã, fizemos nossos pedidos, e Donatella me perguntou sobre a investigação do possível tráfico humano que estávamos acompanhando. Eu sabia que ela estava muito envolvida nisso também, e minha preocupação com a situação era compartilhada por ela.
— Então, o que descobrimos até agora? — Perguntou Donatella, olhando para mim com uma expressão séria.
Eu a observei por um momento, tentando encontrar as palavras certas. Sabia que ela queria mais detalhes, que ela queria entender onde estávamos e o que havia de real naquela investigação. Era estranho, mas eu não conseguia tirar a sensação de que algo estava errado aqui, na nossa cidade e nesse restaurante.
— Ainda estamos no começo. Mas tudo aponta para algo grande. E algo não bate, Donatella. Eu… eu não consigo confiar nesse lugar. — Respondi, baixando a voz. — Estou começando a achar que esse pode estar envolvido nisso.
Donatella me olhou fixamente. Ela sabia que eu nunca falava assim à toa. Quando os detalhes começavam a fazer sentido para mim, eu tinha uma intuição quase inabalável. E minha intuição estava me dizendo que aquele lugar não era o que parecia ser.
Foi quando o garçom chegou com o vinho e nos serviu. Durante o serviço, eu não consegui desviar o olhar de uma das garçonetes que saía da cozinha. Ela era baixa, com cabelos cacheados que estavam presos de forma desleixada, mas o que realmente me chamou a atenção foi a expressão dela. Ela parecia tão nervosa, quase amedrontada. A postura dela era estranha, e, quando ela passou a mão pelo rosto, percebi que ela estava tentando se recompor, como se estivesse tentando esconder algo. Seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse chorado.
Donatella me seguiu com o olhar até a garçonete e perguntou:
— O que você está olhando? Tem algo errado?
Eu franzi a testa, ainda observando a mulher.
— Aquela garçonete… algo não está certo. Ela parece… nervosa demais. — Eu murmurei. — Você viu os olhos dela? Estavam vermelhos, como se estivesse chorando.
Donatella olhou mais atentamente, agora com a mesma expressão de preocupação que eu sentia. Ela parecia ter percebido a tensão no ar, algo que antes talvez tivesse passado despercebido. Ela olhou para a garçonete mais uma vez, e seus olhos se fixaram nela por alguns segundos.
— Hm… você tem razão. — Donatella disse, agora com a voz mais grave. — Algo está errado aqui.
Eu continuei observando, tentando entender o que estava acontecendo, mas então algo mais chamou a minha atenção. Pela janela da cozinha, vi um homem gritando com outro garçom. A expressão de raiva dele era explícita, e ele parecia dar ordens de forma agressiva. Fiquei tenso, sentindo que tudo aquilo estava se conectando com o que estávamos investigando.
Donatella também percebeu o que estava acontecendo.
— Realmente está estranho. Eu não tinha reparado nisso antes, mas agora… — Ela fez uma pausa, olhando mais atentamente. — Parece que você tem razão.
Eu estava decidido a descobrir o que estava acontecendo ali.
— Eu vou investigar isso. Não posso deixar passar. — Falei, com firmeza, tomando minha decisão.
Donatella me olhou, agora mais séria. Ela entendeu a gravidade do que eu estava dizendo e fez uma pergunta com cuidado.
— Você desconfia de algo mais, Domenico? — Ela perguntou, com a preocupação estampada no rosto.
Eu a encarei, sentindo que a situação estava prestes a tomar um rumo inesperado.
— Não sei ainda, mas… este restaurante é suspeito. Eu não gosto do que vejo aqui. — Respondi com determinação.
Donatella não disse mais nada, mas eu sabia que ela compartilhava da minha inquietação. E, naquele momento, ela estava tão disposta quanto eu a seguir essa investigação até o fim.