Iris González
Era mais um daqueles dias, que se arrastam como uma névoa pesada. Uma semana havia se passado desde que essa tortura começou. O restaurante, o calor das panelas, o ruído constante de pratos e talheres, as ordens de Venâncio que nunca cessavam. Nada parecia mudar, e o cansaço tomava conta de mim a cada novo turno. Eu estava começando a me acostumar, mas isso não significava que fosse fácil.
Eu estava no fim do expediente, exausta, quando Venâncio nos chamou para uma reunião. Ele se posicionou na frente de todos, com aquele olhar impessoal, como se estivesse medindo cada um de nós.
— Amanhã, vamos receber alguns membros da família Ricci. — Venâncio disse, sua voz cortando o silêncio pesado do lugar. — Não sei ainda qual deles, mas o nome da reserva é Ricci. Quero que todos deem o melhor atendimento possível. Eles são grandes empresários aqui em Turim e têm grande importância na cidade. Nada de erros. — Ele fez uma pausa dramática, seu olhar passando por todos nós. — Eu não tolerarei nada errado, entenderam?
Eu só pude pensar que aquelas pessoas deveriam ser realmente muito importantes. A família Ricci. Todo mundo parecia saber quem eles eram, ou melhor, sabiam o poder que tinham. Eu sentia o peso do nome, o peso da responsabilidade de estar atendendo a essas pessoas. Aquelas palavras de Venâncio se gravaram na minha mente, mas eu também sabia que não podia pensar demais. Ele sempre estava por ali, pronto para punir qualquer deslize.
— Escutem bem. — Ele foi ríspido, e todos nós prestamos atenção, ainda aguardando ordens. — Quero um serviço impecável. E se alguém errar, vou fazer questão de lembrar. — Ele repetiu, como sempre fazia, com sua grosseria habitual.
Nos liberando, Venâncio voltou ao seu posto, mas a tensão no ar era palpável. As palavras dele ainda ecoavam em minha cabeça enquanto eu caminhava de volta para a quitinete, exausta. Tudo o que eu queria era me jogar na cama e deixar o mundo lá fora. E foi exatamente isso o que fiz. Tomando um banho rápido, vesti qualquer coisa e me joguei naquela cama velha, sem forças para comer. Meu corpo estava pesado demais para mais alguma coisa.
O dia seguinte chegou rápido demais. Acordei apressada, com o som do despertador me arrancando do torpor da noite. Era como se eu m*l tivesse fechado os olhos. Carmem e Jorge seguiram o caminho comigo, parecendo tão cansados quanto eu. O café da manhã foi rapidamente esquecido, pois o trabalho logo exigiu de nós.
O movimento estava intenso, e o tempo parecia passar em câmera lenta. Eu me arrastava de um lado para o outro, com os pés doloridos e a mente vagando. O relógio marcava quase meio-dia quando fui chamada para atender uma mesa. Quando cheguei ao salão, vi um casal com um carrinho de bebê. Eles pareciam tranquilos, sorrindo enquanto se acomodavam.
— Mesa para dois? — Perguntei, já com a caneta em mãos, tentando manter minha postura profissional.
O homem confirmou, e foi aí que ele mencionou a reserva. O nome que fez meu corpo inteiro gelar: Ricci.
Ricci.
O coração bateu mais forte no peito. Era como se o ar tivesse fugido dos meus pulmões. A família Ricci. Não consegui disfarçar a reação, mas fui o mais calma possível, tentando não demonstrar o turbilhão que acontecia dentro de mim.
— Claro. — Fui respondendo com a voz mais tranquila que consegui. — Por aqui, por favor.
Conduzi o casal até a mesa, entreguei os cardápios e me afastei rapidamente. Mas, ao me afastar, a voz de Venâncio cortou o silêncio.
— Um erro e você vai pagar caro. — Ele sussurrou ao meu lado, com aquele tom ameaçador. E se afastou rapidamente, me deixando tensa e ainda mais nervosa.
Respirei fundo e tentei não pensar em nada além do trabalho. Era o que eu tinha que fazer, e eu tinha que me concentrar. Voltei para anotar os pedidos, e percebi que todos estavam sendo educados comigo. O homem, que estava com o bebê, olhava para mim com uma expressão amigável. A moça então, nem se fala. As palavras deles eram gentis, e isso me fez relaxar um pouco. Não estava tão difícil assim, afinal. Eles eram pessoas educadas, e o atendimento parecia ir bem.
Voltei para a cozinha com os pedidos, tentando afastar a tensão. Suspirei e segui com as coisas, entregando os pratos e me afastando logo em seguida. O casal estava conversando animadamente, enquanto o homem segurava o bebê com tanto carinho, como se fosse feito de porcelana. A cena me fez pensar que, por mais que o ambiente fosse estranho e carregado de tensão, aquelas pessoas eram como qualquer outro cliente.
Depois de algum tempo, Venâncio me chamou de uma forma que soou estranha, quase cordial. Não estava acostumada a ser chamada dessa maneira por ele, então fui até ele, curiosa e apreensiva ao mesmo tempo. Quando cheguei perto, notei que o homem da reserva estava ao lado de Venâncio.
— O senhor Ricci gostaria de agradecer pelo excelente atendimento. — Venâncio disse, com um sorriso que parecia ser uma tentativa de educação. — Ele gostaria de lhe oferecer uma gorjeta.
Eu fiquei surpresa. Não sabia o que dizer.
— Eu estava apenas fazendo meu trabalho, senhor. — Tentei explicar, sem saber ao certo o que estava acontecendo.
Mas o homem interrompeu, com um sorriso sincero.
— Eu sei reconhecer um bom atendimento. — Ele disse. — E isso é algo raro. — Ele me entregou um envelope com um gesto tranquilo e educado. — Espero que isso seja o suficiente.
Eu não consegui entender bem o que estava acontecendo. O que eu deveria fazer com aquilo? Mas, antes que eu pudesse processar, eles se retiraram, e eu fiquei parada, sem saber como reagir.
Fui até a cozinha, ainda sem acreditar no que acontecera. Olhei para o envelope, com as mãos trêmulas. Uma parte de mim hesitava, não sabia se aquilo era realmente real. Mas, ao abrir, minhas mãos começaram a suar. Dentro do envelope, estavam mil e quinhentos euros.
Eu não consegui respirar por um momento.
Mil e quinhentos euros.
O que eu poderia fazer com isso? Eu não conseguia pensar em mais nada, além do que aquele dinheiro significava. Como ele poderia ajudar minha família! Como tudo poderia mudar para nós, se eu conseguisse mandar um pouco mais para casa! O peso das notas em minhas mãos era como um presságio.
Eu fiquei ali, paralisada, pensando em tudo o que poderia fazer, mas também ciente de que poderia ser passageiro. Mas a verdade era que a necessidade era maior e, por um momento, me senti aliviada pela escolha que fiz.