Capítulo 21

1379 Palavras
Domenico Ricci Eu me preparei como sempre faço antes de sair de casa: uma camisa branca impecável, o blazer preto, o perfume escolhido com cuidado e o relógio de ouro no pulso. Sempre exato, sempre pontual. O olhar no espelho foi breve, apenas para ajustar a gravata, mas, de alguma forma, senti que algo no ar estava diferente hoje. Algo que não conseguia identificar, mas que me inquietava. Enquanto colocava meu relógio no pulso, o som do meu celular me tirou do transe. Peguei o aparelho em cima da cama e vi o nome de Luca na tela. Respirei fundo, sabia que quando ele ligava assim, não era para boas notícias. — Domenico, precisamos de você na sede, agora! — Luca disse do outro lado da linha, com a voz tensa. — Descobrimos algo. — Sobre o que se trata? — perguntei, tentando manter a calma, mas meu instinto já me dizia que não era bom. — Tráfico humano — respondeu, e a palavra caiu como um peso no meu peito. Desliguei a ligação sem falar mais nada, o som do clique ecoando em minha mente. Meu coração começou a bater mais rápido, e eu sabia que algo muito sombrio estava prestes a ser revelado. Não precisei de mais nada para saber que as coisas estavam prestes a sair do controle. Saí do apartamento, trancando a porta atrás de mim e descendo pelo elevador rapidamente. Não tinha tempo a perder. O carro estava estacionado na garagem, e entrei nele com a mente agitada, tentando juntar as peças. Tráfico humano. Eu sabia que uma hora teríamos uma resposta, mas algo dentro de mim torcia para que estivéssemos errados, ainda mais envolvendo pessoas que estavam tão próximas da minha vida. O que estava acontecendo? Quem estava por trás disso? Dirigi pelas ruas de Turim, o asfalto brilhando sob as luzes do dia. O som do motor era um eco distante da minha inquietação. Cada esquina que eu virava parecia me levar mais fundo no escuro, mas eu sabia que não podia parar. Cheguei à sede e fui direto para o meu escritório. Ricardo me aguardava, visivelmente tenso. Seu rosto estava mais pálido do que o normal, e seu olhar transmitia a seriedade do que eu estava prestes a descobrir. — Domenico, você precisa ver isso. — Ricardo entregou-me um envelope, e eu abri-o rapidamente, sem perder tempo. Dentro do envelope, estavam várias fotos. Cada uma delas mais perturbadora que a anterior. As imagens mostravam lugares imundos, como acomodações em estados precários. A sujeira nas paredes e o desespero nas expressões das pessoas que ocupavam aqueles lugares eram tão visíveis quanto a luz que iluminava a sala. Em uma das fotos, havia uma gaveta de ferro aberta, e dentro dela, uma pilha de documentos amontoados. Havia foto dos papéis da gaveta e pude ver que eram passaportes, certidões de nascimento, documentos de imigração, todos cuidadosamente organizados por nome. A maioria deles estava marcada com datas recentes. — O que é isso? — perguntei, sentindo um nó apertando meu estômago. Ricardo me olhou com uma expressão sombria, seu rosto pálido iluminado apenas pela luz da lâmpada de minha mesa. — Estamos falando de um esquema enorme, Domenico... muito maior do que imaginávamos. — Ele apontou para os papéis na minha frente. — Olha os contratos de trabalho. Horários extensos, salários baixíssimos, tudo assinado. Os nomes mais frequentes nos contratos são Venâncio Dominguez e Aleff Russel. E não para por aí… Meus olhos correram pelas fotos dos contratos, tentando absorver as informações o mais rápido possível. O nome de Venâncio Dominguez era uma constante. Aleff Russel também estava ali, de forma alarmante e repetida. Então, meus olhos caíram sobre uma série de faturas de cartões de crédito. Elas estavam em uma pilha separada, e, ao analisá-las mais de perto, percebi que as passagens para os imigrantes tinham sido compradas com esses cartões. O pânico começou a subir pela minha garganta, o sangue congelando nas minhas veias. — Isso é… — Eu quase não consegui completar a frase, mas minha mente já estava processando o que significava tudo aquilo. O que estava acontecendo. O que eles estavam fazendo com aquelas pessoas. Eu olhei para Ricardo, que parecia tão atordoado quanto eu. — Quantas pessoas estão passando por isso? — perguntei, a voz saindo mais rouca do que eu queria. Ricardo hesitou por um momento, antes de me dar a resposta que não queria ouvir. — Mais de duas mil, até agora. E sabemos que o número pode ser muito maior. Não conseguimos rastrear tudo ainda. A sensação de pavor e raiva começou a me invadir de uma forma que eu nunca havia experimentado antes. Eu tinha que fazer algo. E rápido. — Quero relatórios completos de tudo o que envolva Venâncio e Aleff. Cada detalhe, cada nome, cada movimento. Eles vão pagar por isso. — Eu falei com firmeza, mas minha mente estava a mil por hora. — Não podemos deixar isso continuar. Luca, que estava ao fundo, se aproximou. — Domenico, isso é só o que conseguimos até agora e em Turim, imagina no restante da Itália... — Ele alertou, a voz grave. Eu assenti, tentando processar a gravidade da situação. Tinha que ser rápido. Tinha que ser definitivo. Peguei meu celular e liguei para o meu pai. Não queria incomodá-lo, mas sabia que ele precisava estar ciente. O som da chamada parecia estar em câmera lenta até que meu pai atendeu. — Domenico, o que houve? — a voz dele era calma, mas eu sabia que ele sentia a tensão na minha. Eu respirei fundo, fechando os olhos por um segundo antes de falar. — Papà, encontramos algo. Algo muito sério. Tráfico humano. Mais de duas mil pessoas envolvidas, e dois nomes estão por trás disso: Venâncio Dominguez e Aleff Russel. A operação é grande, muito maior do que imaginávamos. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu podia ouvir a respiração do meu pai do outro lado da linha. — Isso é inaceitável, Domenico. — Ele disse, e eu senti a raiva e a determinação em sua voz. — Eles vão pagar. Se for necessário, faremos o que for preciso para acabar com isso. E com eles. Eu sabia que meu pai não ia hesitar em fazer o que fosse necessário. Era assim que a nossa família sempre agia. Mas agora, mais do que nunca, eu sentia a responsabilidade sobre meus ombros. Eu teria que lidar com isso, e rápido. Desliguei a chamada e, antes de fazer qualquer outra coisa, decidi ir até Damiano. Tinha que contar a ele. Não podia esconder isso. Ele precisava saber. Quando cheguei à casa dele, fui recebido por meu irmão, que estava segurando Nicolas nos braços. Ele sorriu ao me ver e, por um momento, todo o peso do que estava acontecendo pareceu ficar um pouco mais leve. Eu não consegui evitar brincar rapidamente com o meu sobrinho, rindo enquanto ele me estendia os braços. Mas logo a seriedade voltou, e Damiano me entregou o pequeno para que ele fosse com Serena. — Vamos para o escritório? — Damiano sugeriu, e seguimos para o local onde sempre discutíamos negócios. Sentei-me, e comecei a contar o que havia descoberto, de forma clara e direta. Damiano escutava atentamente, mas seu rosto foi ficando cada vez mais tenso conforme as palavras saíam da minha boca. Quando mencionei os nomes de Venâncio e Aleff, ele explodiu. — Maledetti! — Ele xingou, sua voz rasgando o silêncio do escritório. — Eu sabia! Sabia que essa merda estava acontecendo! Vou acabar com esses filhos da p**a com as minhas próprias mãos! Eu o olhei com calma, tentando acalmá-lo. — Damiano, por favor, se acalme. Eu vou cuidar de tudo. Ninguém vai sair impune. Ele me encarou com uma intensidade feroz, seus olhos ardendo de raiva. — Eu confio em você, Domenico. Mas vou querer saber de tudo. Cada atualização, cada passo. Eu vou estar em cima disso. Eu acenei, concordando com ele. Olhei pela janela do escritório de Damiano, vendo a cidade lá fora, ainda tranquila, como se nada de grave estivesse acontecendo. Mas eu sabia que, em breve, tudo mudaria. A cidade lá fora parecia tranquila, mas sob a superfície, uma tempestade se formava. E eu estava no olho do furacão.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR