Capítulo 22

1432 Palavras
Era mais um daqueles dias exaustivos que pareciam nunca ter fim. A rotina de trabalho no restaurante de Venâncio já estava se tornando uma espécie de tortura silenciosa. Eu não podia negar que, depois da gorjeta generosa que recebi da família Ricci, as coisas ficaram um pouco mais fáceis. Venâncio, apesar de continuar ríspido e controlador, havia diminuído as humilhações que antes me afligiam. Pelo menos isso me dava um pouco de espaço para respirar. Durante aquele mês, o trabalho não era mais apenas cansativo, mas começou a ser uma constante batalha contra o desgaste físico e emocional. Todos os dias, eu estava lá, atendendo os clientes como sempre, fazendo o meu melhor para não pensar na vida que queria deixar para trás, nas escolhas que fiz ou nas humilhações constantes de Venâncio. Eu estava mais uma vez servindo uma mesa quando, no final do expediente, ouvi a voz áspera de Venâncio me chamar. O peso das palavras dele sempre me atingia como um soco no estômago. Eu sabia que quando ele falava meu nome naquele tom, não seria algo bom. — Iris! — Ele chamou de longe, e eu sabia que não poderia ignorar. Caminhei até ele, o estômago apertado de nervosismo. Ele estava parado em frente à porta de seu escritório, com o semblante fechado como sempre. Mas havia algo de diferente naquela noite. Ele parecia… menos furioso? Era uma sensação estranha, mas eu não podia confiar nisso. — Venha aqui. — Ele disse, fazendo um gesto para que eu me aproximasse. Eu me aproximei cautelosamente, tentando ler as intenções em seus olhos. Ele estava mais calmo do que o habitual, o que me deixou ainda mais desconfortável. Cruzou os braços e me estudou por alguns segundos antes de falar. — Eu não posso negar, Iris… você se superou. — Ele começou, e minha reação foi instantânea: uma mistura de incredulidade e alívio. — Os clientes têm elogiado você, e graças a isso, o restaurante está mais movimentado. Mas não se acostume, porque um erro seu e tudo vai por água abaixo. — Ele fez uma pausa, deixando que as palavras penetrassem profundamente. Eu sabia que ele estava me testando, mas havia algo de diferente na sua expressão. Talvez fosse a pequena admissão de que ele realmente estava me reconhecendo como parte da engrenagem. Ele pegou um envelope da mesa e o jogou em minha direção, fazendo com que caísse no chão perto dos meus pés. — Isso é o que você ganhou — disse ele secamente. — Não se engane, não é um prêmio. Apenas um salário. E você terá uma folga amanhã. Aproveite, porque não posso prometer mais que isso. Lembre-se do que te disse, um erro seu e você pagará caro por isso. Fiquei em silêncio, com os olhos fixos no envelope. Uma pontada de alívio surgiu ao ver o pagamento, algo que parecia distante até aquele momento. Ele se virou e começou a sair de perto, mas antes de ir, parou por um segundo e voltou a me encarar com um olhar mais ameaçador. — Ah, e não se esqueça, Iris… seus documentos estão comigo. Não é difícil sumir por aqui. — Ele disse, e sua voz soou como um lembrete frio e calculista. Ele então se afastou, saindo de seu escritório e me deixando sozinha. Minha mão estava trêmula enquanto eu pegava o envelope do chão, abrindo-o rapidamente. Quando vi o conteúdo, um alívio imediato me envolveu. Era o salário que ele havia mencionado, e junto com as gorjetas que eu havia recebido, eu conseguiria enviar uma quantia boa para minha família. Um peso enorme saiu do meu peito ao pensar que poderia ajudá-los de alguma forma. Com um suspiro, peguei minhas coisas, guardei o envelope na bolsa e comecei a caminhar para a quitinete. O peso da noite já estava me afetando, e eu sabia que não poderia mais adiar as coisas. Queria descansar, mas antes disso, precisava organizar as finanças. Eu sabia que essa era a única chance de começar a reverter um pouco a situação. Ao chegar em casa, tirei os sapatos cansados e fui direto para a pequena mesa que tinha ali, a única área que parecia oferecer alguma sensação de controle sobre o caos da minha vida. Juntei o dinheiro que havia recebido durante o mês e o separei em três partes. A primeira e maior parte seria enviada para minha família. Eles precisavam muito mais que eu. A segunda parte seria o suficiente para me manter um pouco mais confortável em Turim, comprar comida e talvez alguma roupa. A terceira parte, a menor, eu guardaria, para quem sabe algum dia poder sair daquela situação. Eu não sabia quando, mas sentia que, se as coisas continuassem assim, essa talvez fosse a única solução. Fechei os olhos por um momento, tentando processar o que acabara de fazer, e logo fui vencida pelo cansaço. Antes que eu percebesse, adormeci na cadeira, com o dinheiro ao meu lado, os olhos fechados e a mente cheia de dúvidas sobre o que o futuro me reservava. No dia seguinte, acordei cedo, o sol já começando a iluminar a cidade lá fora. Levantei-me rapidamente, sabendo que o dia seria curto. Eu precisava aproveitar minha folga e fazer o depósito para minha família antes de mais nada. Troquei de roupa, colocando um casaco fino para tentar suportar o frio que começava a se instaurar na cidade. Eu saí da quitinete e segui em direção ao centro de Turim. O vento gelado cortava minha pele, mas eu estava determinada a seguir em frente. A primeira parada foi o banco. Ao chegar lá, o processo foi rápido. Eu entreguei o dinheiro que tinha separado e recebi o comprovante de depósito nas mãos. Era um pequeno alívio, um gesto simples, mas que me fez sentir um pouco mais tranquila. A sensação de saber que minha família receberia aquele dinheiro em breve era reconfortante. Depois de sair do banco, resolvi caminhar um pouco pela cidade. A sensação de estar livre, mesmo que por um dia, me deu um novo fôlego. Olhei para as vitrines das lojas, para as pessoas que passavam apressadas, e tentei absorver a cidade de maneira diferente. Foi então que algo chamou minha atenção: uma livraria. A vitrine exibia vários livros que pareciam me chamar, e eu sabia que jamais teria dinheiro suficiente para comprar um desses livros. Mas naquele momento, a ideia de me permitir esse pequeno luxo parecia a única coisa que poderia me proporcionar algum alívio na minha vida solitária. Entrei na livraria e comecei a olhar as prateleiras. Toquei nas lombadas dos livros com os dedos, sentindo o papel e a capa dura. Escolhi um livro que me parecia interessante, algo para me distrair, para fugir por um momento da realidade que estava vivendo. Eu não me importava muito com o preço; era só uma pequena indulgência, uma forma de me lembrar de que ainda havia algo de bom em mim, apesar de tudo o que eu estava passando. Saí da livraria com o livro nas mãos e um pequeno sorriso nos lábios. Mas a felicidade foi breve. Meu estômago roncou, e a fome se fez presente. Não tinha muito dinheiro sobrando, mas o cheiro do café fresco e do bolo recém-assado que vinha de uma cafeteria charmosa me fez mudar de ideia. Eu sabia que era uma escolha impulsiva, mas naquele momento, decidi que merecia um momento de prazer. Entrei na cafeteria e pedi um café. O aroma quente preencheu meus sentidos, e me senti um pouco mais humana ali, cercada pela tranquilidade do ambiente. Sentei-me em uma mesa, abri o livro e comecei a folhear as páginas. Era um alívio ter algo para fazer, algo para pensar que não fosse sobre o trabalho ou sobre a humilhação constante de minha vida. Foi então que comecei a sentir uma sensação estranha. Algo me dizia que estava sendo observada. Eu olhei para os lados discretamente, mas não vi nada de incomum. No entanto, a sensação não passava. Olhei novamente para a frente, e então percebi: um homem estava me observando fixamente. Ele não desviava o olhar, e eu não sabia o que fazer. Meu estômago se apertou. Tentei me concentrar no livro, mas a sensação de ser observada era insuportável. Meu coração acelerou, e as palavras do texto começaram a se embaralhar diante dos meus olhos. O café, que antes parecia um pequeno refúgio, agora me sufocava. A sensação de ser observada não passava, e eu sabia que algo estava errado. Quem era aquele homem? E por que ele não parava de me encarar?
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