Domenico Ricci
Eu saí de casa e, como todos os dias, a rotina já não me surpreendia mais. Os mesmos caminhos, as mesmas decisões, a mesma carga de responsabilidade. A sede da Carbone era minha segunda casa, ou talvez fosse a única que restasse. O peso de ser o responsável era constante, sempre na minha mente, me lembrando do que representava, do que era necessário fazer para manter tudo em ordem.
Já havia se passado um mês desde que tivemos a confirmação do tráfico humano em Turim. Desde então, o trabalho tinha se intensificado. Todos estavam empenhados em reunir provas para acabar com isso de uma vez por todas, e eu não podia deixar de me envolver de forma pessoal. Mas, ao mesmo tempo, sentia que isso não me libertava de uma prisão própria. O peso do que estávamos fazendo me consumia aos poucos. A solidão tinha se tornado uma companhia conhecida, como uma sombra que me acompanhava onde quer que eu fosse.
Cheguei na sede, estacionei meu carro e, ao sair, um cheiro que não consegui ignorar atingiu meus sentidos. Café. Quente, forte e envolvente. Não era algo que eu normalmente procuraria, mas algo naquele aroma me fez mudar de direção. Caminhei até a cafeteria ao lado da sede, um lugar simples, mas aquele cheiro… Era diferente de tudo o que eu já havia sentido ali. Quando passei pela janela de vidro, algo me fez parar.
Havia uma mulher sentada, sozinha. Seus cabelos longos e cacheados caíam suavemente sobre os ombros. Estava tão absorta em um livro que não percebeu minha presença imediatamente. A visão dela me paralisou. Sua pele levemente bronzeada parecia brilhar à luz suave do lugar, seus lábios, discretos mas perfeitamente desenhados, e seus olhos… Seus olhos estavam totalmente imersos naquelas palavras. Eu a observei por mais tempo do que gostaria de admitir, deixando minha curiosidade se alimentar daquela imagem. Eu não sabia quem ela era, mas de alguma forma, ela capturava a minha atenção. Algo nela era diferente, algo que não sabia identificar.
Fiquei parado ali, observando, até que ela levantou os olhos e os encontrou com os meus. Um choque percorreu meu corpo. Aqueles olhos, um verde profundo e intenso, me encaravam com uma calmaria quase desconcertante. Por um momento, o mundo à minha volta desapareceu. Ela sustentou o olhar, sem desviar, por um tempo que me pareceu interminável, até que, lentamente, ela voltou a se concentrar no livro.
Não pude mais resistir. Entrei na cafeteria, tentando não parecer ansioso. Não sabia o que estava acontecendo comigo, mas algo me puxava para perto dela, como um ímã. Eu precisava saber quem era aquela mulher.
Caminhei até a mesa onde ela estava, parei ao lado e, com a voz mais baixa do que o normal, tentei chamar sua atenção.
— Com licença — falei, sentindo meu tom rouco, quase hesitante.
Ela levantou os olhos novamente, agora visivelmente confusa, talvez um pouco assustada. Não sabia se a minha presença era intimidadora ou se ela estava simplesmente surpresa com o fato de eu ter interrompido sua leitura. Mas ela me cumprimentou, e a suavidade de sua voz me fez relaxar um pouco.
— Olá — disse ela, os lábios curvados em um sorriso tímido, mas acolhedor.
— Posso me sentar aqui? — Minha voz estava mais firme agora, mas eu ainda não conseguia entender o que estava acontecendo dentro de mim.
Ela me olhou por um momento, ainda parecendo um pouco confusa, antes de acenar com a cabeça, concordando. A cadeira rangeu levemente quando eu me sentei, e, por um segundo, ambos ficamos em silêncio, como se o que acabara de acontecer fosse uma quebra na normalidade dos nossos dias. Mas eu não conseguia tirar os olhos dela, e ela parecia desconfortável, mas curiosa.
— Sou Domenico — disse, tentando soar casual, mas sabia que minha voz traía meu desconcerto. — E você?
Ela hesitou por um momento, talvez sem saber se poderia confiar em um desconhecido, mas logo se apresentou.
— Iris. Iris González — disse ela, com uma leveza na fala que me deixou ainda mais intrigado.
González… O sobrenome não me era familiar. Era estranho, como uma peça fora de lugar, mas ainda assim eu não consegui evitar a curiosidade.
— Você é italiana? — perguntei, embora soubesse que a resposta provavelmente seria não. Algo no olhar dela me dizia que ela não pertencia a esse lugar.
Ela negou com a cabeça, e eu fiquei mais intrigado ainda.
— Não. Sou da República Dominicana — respondeu, com uma sinceridade que eu pude perceber de imediato.
República Dominicana. Eu não esperava isso. Nunca tinha conhecido ninguém de lá, mas havia algo nela que me fazia querer saber mais. Eu a observava enquanto ela falava, tentando encontrar algo nos seus gestos, nas suas palavras, que me explicasse a sensação estranha que estava começando a crescer dentro de mim.
— O que te trouxe até aqui? — perguntei, mais pela curiosidade do que por qualquer outra coisa.
Ela me olhou com um leve sorriso nos lábios.
— A vida. — A resposta foi vaga, mas eu percebi que ela não queria falar muito sobre isso. Não insisti.
— E você? — ela perguntou, como se também quisesse entender um pouco mais sobre mim. — Você é daqui?
— Sim — respondi, de forma simples. — Nasci e cresci em Turim.
O silêncio caiu entre nós por um momento. Não era desconfortável, mas era o tipo de silêncio que convidava à reflexão. Eu não sabia bem por que, mas estar ali, conversando com ela, fazia com que eu me sentisse diferente de tudo o que eu tinha vivido nos últimos anos. Como se, de alguma forma, eu estivesse desconectado de algo e, agora, voltando a me conectar com o que eu tinha perdido.
O som do celular de Iris cortou o momento, e eu percebi que seus olhos, antes tão vibrantes, agora pareciam um pouco mais sombrios. Ela olhou rapidamente para a tela do celular, e eu pude ver uma leve mudança em sua expressão. Não sabia o que estava acontecendo, mas algo na energia dela mudou. Um tipo de tristeza, talvez, ou algo que a incomodava.
— Está tudo bem? — perguntei, sem pensar, o impulso de me preocupar com ela vindo de algum lugar dentro de mim que eu não queria entender.
Ela olhou para mim, dando um sorriso forçado, e assentiu com a cabeça.
— Sim, só… preciso ir — disse, levantando-se da cadeira com um movimento rápido, quase automático. — Foi bom conversar com você, Domenico.
Eu me senti um pouco vazio com a decisão dela de partir. Não queria que ela fosse embora. Algo me dizia que aquela conversa, aquele momento, não deveria terminar tão rápido.
Antes que ela pudesse dar um passo para sair, eu a chamei.
— Espera — falei, sem pensar muito. — Você… poderia me dar seu número de telefone?
Ela olhou para mim, surpresa. Por um momento, parecia que ela não sabia como reagir, mas, depois de uma pausa, ela pegou um guardanapo de papel que estava sobre a mesa e anotou seu número rapidamente, antes de me entregar.
— Aqui — disse ela, o sorriso nos lábios, mas um pouco hesitante. — Até mais, Domenico.
Eu peguei o guardanapo, mas, antes que eu pudesse responder, ela já estava se afastando. Eu fiquei ali, sozinho, sentindo um peso estranho sobre os ombros. Algo tinha mudado em mim. Algo que eu não estava preparado para entender ainda.
Ela havia me intrigado de uma maneira que eu nunca havia experimentado antes. E eu não sabia se isso era bom ou r**m, mas uma coisa era certa: Iris González não sairia da minha mente tão cedo.