Iris González
O caminho de volta para a quitinete nunca pareceu tão longo. Cada passo ecoava no silêncio da rua, mas minha mente estava longe dali. Não conseguia parar de pensar no que havia acabado de acontecer. Um estranho chamado Domenico aparecera de repente, me observando, conversando comigo, e me fazendo perguntas que ninguém fazia desde que cheguei à Itália.
Eu deveria estar desconfiada. Era o que qualquer pessoa sensata faria, não? Mas, por alguma razão, não consegui sentir medo ou desconforto. Havia algo na maneira como ele falou comigo que parecia… diferente. Respeitoso, talvez. Até interessado, o que era ainda mais confuso.
Enquanto caminhava, o rosto dele continuava surgindo na minha mente. Ele era… bonito. Não, bonito era pouco. Domenico era o tipo de homem que você esperava ver em revistas ou em um filme. Ele tinha aquela beleza clássica europeia: pele clara, olhos verdes que pareciam te atravessar e cabelos pretos tão bem alinhados que pareciam ter sido arrumados por um estilista. Até suas roupas eram impecáveis, como se ele fosse de um mundo completamente diferente do meu.
E então, a pergunta que mais me atormentava surgiu: o que um homem assim poderia querer comigo?
Olhei para meu reflexo em uma vitrine enquanto passava. Meus cabelos cacheados estavam presos de forma simples, minha roupa ainda carregava o cheiro do restaurante, e meu rosto mostrava o cansaço acumulado de semanas de trabalho duro. Não fazia sentido. Ele era elegante, refinado, e eu… bem, eu era apenas Iris González, uma mulher da República Dominicana tentando sobreviver em um lugar que parecia feito para me engolir viva.
Sacudi a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Talvez ele tivesse apenas sido educado, ou talvez estivesse entediado. Era melhor não criar ilusões.
De repente, lembrei da mensagem de Dolores. Ela havia perguntado quando eu voltaria. Senti o peito apertar de saudades dela e de toda a minha família. Minha irmã era como uma parte de mim que eu tinha deixado para trás, e, às vezes, me sentia incompleta sem ela.
Cheguei à porta da quitinete e suspirei. Coloquei a bolsa sobre a mesa e tentei abrir a janela para deixar o ar entrar. Como sempre, a madeira velha resistiu, mas com algum esforço consegui empurrá-la. O ar fresco entrou, embora não fizesse nada para aliviar o peso no meu peito.
Sentei na cama e encarei o celular por um tempo. Uma parte de mim hesitava em ligar para minha família. Eu sabia que ouvir a voz deles me faria sentir ainda mais saudades. Mas, ao mesmo tempo, precisava disso. Precisava me sentir conectada a eles, nem que fosse por alguns minutos.
Respirei fundo e disquei o número de casa. m*l completei o primeiro toque e a voz da minha mãe surgiu do outro lado da linha.
— Iris! Ay, mi hija! Como estás?
Sorri, embora ela não pudesse ver. Fechei os olhos, tentando me agarrar àquele momento de conforto.
— Estou bem, mamá — menti, sabendo que qualquer verdade sobre como eu realmente estava só a preocuparia mais.
— Está comendo direito? Está descansando? — Ela parecia genuinamente preocupada.
— Estou, mamá. O trabalho é tranquilo, e estou comendo bem. Não se preocupe.
Era tão difícil mentir. Minha mãe não fazia ideia de como era o meu dia a dia, de como eu m*l tinha tempo para respirar entre uma tarefa e outra no restaurante. E eu preferia que ela nunca soubesse.
— Gracias a Dios! — ela exclamou.
— Eu já fiz o depósito do dinheiro, mamá. Confere sua conta amanhã.
— Ay, Dios te bendiga, hija. Não sei o que faríamos sem você. — Essas palavras foram como um soco no estômago. Minha garganta apertou, mas me forcei a engolir o choro.
— Estou fazendo o que posso, mamá.
— Eu sei, e você está fazendo muito mais do que devia. Estamos todos tão orgulhosos de você, Iris.
Suspirei e mudei de assunto rapidamente, perguntando onde estavam Dolores e os outros. Ouvi minha mãe rir antes de responder.
— Seu pai levou todos à cachoeira hoje. Sabe como Dolores e Leonor adoram aquele lugar.
Fechei os olhos, imaginando a cena. Minha irmã mais nova correndo pela água, rindo como sempre fazia. Era uma lembrança que aquecia meu coração, mas também o partia, porque eu não estava lá.
— Manda um beijo meu para eles — pedi, tentando manter a voz firme. — Vou desligar agora, mamá. Preciso ir ao mercado.
— Está bem, filha. Cuide-se, tá?
— Sempre, mamá. Te amo.
— Também te amo, mi hija.
Desliguei a ligação, mas assim que coloquei o celular ao meu lado, as lágrimas começaram a cair. Não consegui mais segurá-las. A saudade era esmagadora, e a sensação de estar tão longe da minha família era como uma dor constante que nunca desaparecia completamente.
Chorei até os soluços diminuírem. Então, respirei fundo e limpei o rosto com as mãos. Não podia me dar ao luxo de me deixar levar pela tristeza. Precisava ser forte, por eles e por mim.
Levantei-me, pegando as chaves, a carteira e o celular. Decidi ir ao mercado comprar algo para comer. Mesmo que meu apetite estivesse quase inexistente, sabia que precisava me manter alimentada.
Foi quando o celular vibrou na minha mão.
Uma mensagem.
Olhei para a tela e vi que era de um número desconhecido. Abri a mensagem e li.
“Iris, aqui é o Domenico. Espero que você esteja bem.”
Meu coração deu um salto. O que ele queria? Por que estava me mandando uma mensagem?
Encarei a tela por alguns segundos, sem saber como responder. Parte de mim queria ignorar, fingir que nada havia acontecido. Mas outra parte, a mesma que havia se sentido intrigada por ele, queria entender.
Acabei decidindo que não era o momento. Coloquei o celular no bolso e saí da quitinete, sentindo o ar frio da noite tocar meu rosto.
As ruas estavam escuras e vazias, e o som dos meus passos ecoava no silêncio. Enquanto caminhava, não conseguia deixar de me perguntar: Quando minha vida vai parar de dar tantas voltas?