Capítulo 25

1362 Palavras
Domenico Ricci Eu fiquei ali, parado, segurando aquele guardanapo branco entre os dedos, os números de Iris escritos de forma tão simples, quase inocente, mas, para mim, carregando uma tensão que eu não conseguia entender. A sua presença na cafeteria, a maneira como ela se afastou sem olhar para trás, tudo isso mexia comigo. Não era como se eu estivesse acostumado a me deixar afetar por uma mulher, mas, por alguma razão, Iris estava mexendo com algo profundo dentro de mim. Uma atendente apareceu ao meu lado, perguntando se eu queria mais café. Eu não consegui nem lembrar se estava tomando alguma coisa. O que eu queria, na verdade, era algo muito mais difícil de se encontrar: respostas. Respostas sobre Iris, respostas sobre o que estava acontecendo comigo. — Não, obrigado — eu disse, já me levantando da cadeira com um movimento brusco. O café parecia irrelevante, até o cheiro me parecia distante. Com o guardanapo ainda na mão, comecei a caminhar em direção à porta da cafeteria, tentando organizar meus pensamentos. Meu primeiro impulso foi buscar mais informações sobre ela, mas sabia que não poderia fazer isso sozinho. E havia apenas uma pessoa em quem eu confiava para esse tipo de serviço. Peguei meu celular e discquei o número de Donatella, já esperando que ela atendesse com sua irritação característica. O telefone tocou algumas vezes antes de ela finalmente atender, com a voz impaciente. — Domenico, o que você quer? — disse ela, claramente sem paciência. — Eu preciso de um favor, Donatella. Algo urgente. — Eu estava quase correndo em direção ao carro, meu pensamento totalmente fixado em Iris. — Onde você está? — No escritório da Mira. — Ela respondeu sem entusiasmo, provavelmente verificando alguma coisa no computador. — O que você quer? — Preciso que você procure informações sobre uma pessoa. — Minha voz estava mais firme agora, a adrenalina começando a tomar conta de mim. — Vou chegar aí em minutos. Desliguei sem esperar a resposta. Meu coração batia mais rápido agora. Eu estava a caminho, e logo teria todas as respostas sobre aquela mulher. Ela estava em algum lugar ali, e eu precisava entender tudo sobre ela. Dirigi até o escritório de Donatella, o motor rugindo, o trânsito na cidade quase parecendo um obstáculo insignificante. Eu não via a hora de chegar lá e descobrir o que mais eu poderia saber sobre Iris. Assim que entrei no prédio e subi até o escritório de Donatella, bati na porta com força, sem me preocupar com formalidades. Ela abriu a porta com uma expressão de poucos amigos. — Espero que seja algo relevante — Ela parecia estar com a cara fechada, talvez irritada por eu ter interrompido seu trabalho. Eu entrei, observando rapidamente a decoração do escritório. Possuía uma música ambiente tocando no fundo e o local estava bem iluminado. — Senta aí, você vai me dizer o que quer, ou eu vou precisar adivinhar? — Donatella disse, se acomodando na cadeira e me olhando com um olhar fulminante. Eu me aproximei dela, ainda segurando o guardanapo. Ela levantou uma sobrancelha e parecia intrigada, mas logo tomou o comando da situação. — Qual o nome da pessoa? — ela perguntou enquanto ligava o computador e olhava para mim, esperando a resposta. — Iris González. — Eu disse o nome com firmeza, sem hesitar. — Eu sei que você pode encontrar algo com isso. Donatella olhou para mim por um momento, como se estivesse avaliando minha seriedade. Ela sabia que eu não faria isso sem um motivo, mas o que eu estava dizendo era tão vago, tão imprevisível, que ela parecia meio cética. — Só isso? — Ela perguntou, claramente desdenhando da falta de informações. — Você não tem mais nada sobre ela? Eu olhei para o guardanapo novamente, meu dedo correndo sobre os números. — Tem o número de telefone. — Eu entreguei o pedaço de papel para ela, que fez uma careta. — Você realmente espera que eu encontre algo com isso? — Ela bufou, mas não perdeu tempo e começou a digitar no computador. O ambiente ficou silencioso, exceto pelo som das teclas sendo pressionadas. Eu me sentia inquieto, andando de um lado para o outro, tocando em tecidos, observando os desenhos de roupas espalhados pela sala. Não fazia ideia de como Donatella e Serena conseguiam trabalhar nesse ambiente, mas ela parecia totalmente concentrada. — Que tipo de roupa é essa? — perguntei, olhando para o esboço de uma blusa que estava sobre a mesa. Donatella não desviou o olhar da tela do computador. — Isso é moda, Domenico. Você não entenderia. — Ela falou sem muita paciência. Eu ri, ciente de que ela estava certa. Não tinha tempo para discutir sobre moda. O que eu queria, e o que precisava, era encontrar respostas. De repente, Donatella parou. Ela se inclinou para frente, seus olhos fixos na tela do computador. — Acho que encontrei algo. — Ela disse, a voz mais séria agora. Corri até ela, me aproximando para ver o que ela tinha descoberto. Ela virou a tela do computador, mostrando uma foto de uma mulher. Eu a olhei com atenção. Era Iris. O mesmo cabelo cacheado e os olhos intensos. — É ela. — Eu disse, com um sorriso que não podia esconder. — Iris González, 24 anos, nascida e criada em Peralta, República Dominicana. Tem quatro irmãos, sendo a mais velha de todos, e morava com eles e os pais. — Donatella disse enquanto passava as fotos para o lado. Tinha inúmeras fotos de Iris, algumas com a família, outras sozinha. Mas todas igualmente bonitas. — Ela trabalha em um restaurante comandado por Venâncio Dominguez. — Disse sem perceber o peso de suas palavras. Naquele momento, o ar parecia ter sido arrancado de meus pulmões. Eu fiquei paralisado, o impacto da informação atingindo-me como uma onda. — O quê? — Eu perguntei, tentando entender se Donatella estava brincando. — Você está falando sério? Ela me olhou com uma expressão confusa e, para minha surpresa, mostrou a tela do computador novamente. Era um contrato de trabalho, e o nome de Iris estava claramente visível. Foi aí que me lembrei da garçonete que vi chorando no dia em que fui almoçar com Donatella no restaurante. Aqueles olhos verdes, tão expressivos, como se pedissem socorro. Eu quase podia sentir o medo que ela estava tentando esconder. Donatella percebeu a mudança de expressão no meu rosto e perguntou, desconfiada: — O que foi? Por que você está tão surpreso? Eu respirei fundo, tentando manter a calma, mas as peças começaram a se encaixar. — Iris pode ser uma das vítimas do tráfico humano. — Minha voz estava mais grave, e o peso das palavras me atingiu com força. Donatella arregalou os olhos, visivelmente chocada, mas imediatamente se concentrou no computador, começando a procurar mais informações. Enquanto ela fazia isso, eu decidi fazer algo que tentasse aliviar um pouco mais a pressão. Peguei meu celular e, com os dedos tremendo, digitei uma mensagem para Iris. Iris, aqui é o Domenico. Espero que você esteja bem. Era simples, mas agora, mais do que nunca, eu precisava saber mais sobre ela. Precisava protegê-la. Donatella continuou sua pesquisa, e eu percebi que ela encontrou mais informações. Ela me olhou por cima dos óculos e suspirou. — Ela chegou a Turim há pouco mais de um mês e não há registros de compras em cartões de crédito. Também encontrei um depósito em nome dela, feito esta manhã, para uma conta na República Dominicana. Eu passei a mão pelo rosto, sentindo o peso da situação. As peças se encaixavam, e eu tinha quase certeza de que Iris era uma vítima. Ela veio para a Itália com a intenção de ajudar a sua família, e agora estava no centro de algo muito maior do que ela imaginava. Olhei mais uma vez para uma foto que ela estava com sua família. Estava explícito que viviam de forma simples. Eu precisava ajudar. A única coisa que não sabia era como eu poderia ajudá-la sem prejudicar sua vida mais ainda. Mas, o mais importante, era que eu estava disposto a fazer o que for preciso para protegê-la.
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