Capítulo 26

980 Palavras
Iris González “Oi Domenico. Estou bem e você?” Enviei a mensagem e fiquei olhando para a tela do celular por alguns segundos, sentindo aquele friozinho no estômago. Domenico era educado, charmoso, e parecia genuinamente interessado em mim, mas eu não sabia ao certo como me sentir com aquilo. Não vim para a Itália para conhecer alguém, e as circunstâncias da minha vida agora eram tudo, menos simples. Suspirei, guardei o celular na mochila e peguei meu avental no pequeno armário do vestiário. O restaurante já estava em seu ritmo frenético quando entrei no salão. As vozes dos clientes misturavam-se com o som dos pratos e talheres, criando aquele barulho constante que parecia nunca cessar. Peguei meu bloco de notas e comecei a circular pelas mesas, anotando pedidos e mantendo o sorriso educado que fazia parte do trabalho. Uma coisa, no entanto, era diferente naquele dia: Venâncio não estava lá. Sua ausência era quase palpável, como se o ar tivesse ficado menos pesado. Não era apenas a minha impressão; os outros funcionários também pareciam um pouco mais relaxados, como se um peso tivesse sido tirado de nossos ombros. Depois de anotar os pedidos de uma mesa de três clientes, fui até a cozinha para entregá-los ao cozinheiro. Carmem estava lá, organizando pratos recém-lavados, e me lançou um olhar curioso. — Você viu o Venâncio hoje? — perguntou ela, franzindo o cenho. — Não — respondi, colocando os papéis no balcão. — Nem sinal dele. — É estranho, não acha? — Ela cruzou os braços, claramente desconfiada. — Ele nunca sai daqui. — Também achei — concordei, dando de ombros. — Mas, pra ser sincera, prefiro assim. Ela sorriu de lado. — Verdade. É até um alívio. No exato momento em que ela terminou de falar, ouvimos o sino da porta de entrada tocar. O som fez meu coração apertar; um reflexo automático, como se esperasse que Venâncio entrasse a qualquer momento. Respirei fundo. — Melhor eu voltar — disse, dando um meio sorriso antes de sair da cozinha. O salão estava cheio, e continuei no ritmo acelerado de sempre, entregando pratos, limpando mesas e respondendo educadamente às solicitações dos clientes. Alguns eram mais gentis, deixando pequenas gorjetas, enquanto outros pareciam se esquecer de que eu era uma pessoa, não apenas parte do cenário do restaurante. Quando o turno finalmente acabou, senti como se tivesse corrido uma maratona. No vestiário, tirei o avental e peguei meu celular da mochila. Para minha surpresa, havia outra mensagem de Domenico. “Como está sendo o seu dia?” Fiquei olhando para a tela, sem saber o que responder. Por mais que ele parecesse sincero, eu não estava acostumada com esse tipo de atenção. Não sabia como lidar com alguém mostrando interesse em mim de forma tão… gentil. Coloquei o celular no bolso e saí. O caminho para casa era sempre igual: ruas estreitas e pouco iluminadas, o som distante da cidade e o vento gelado que parecia atravessar meu casaco. Quando cheguei à quitinete, senti um pequeno alívio por estar em um lugar conhecido, mesmo que simples. Tomei um banho quente, deixando a água escorrer pelos cabelos e tentando relaxar os músculos tensos. Vesti um pijama confortável e fui para a cozinha preparar algo para comer. Era uma refeição simples, mas suficiente para matar a fome. Enquanto comia, o celular vibrou novamente. Peguei o aparelho e vi que era uma ligação de Rosália. — Amiga! — disse ela, com sua energia habitual. — Como estão as coisas aí? Sorri, sentindo-me um pouco mais próxima de casa só de ouvir sua voz. — Estou bem, Ros. Trabalhando muito, mas bem. — E como é a Itália? Conta tudo! Já conheceu algum italiano bonito? Ri da curiosidade dela, mas sua pergunta me fez lembrar imediatamente de Domenico. — Conheci alguém — admiti, hesitante. — Ay Dios mío! Quem? Como ele é? — Não é nada disso. Ele só… apareceu, conversou comigo e pediu meu número. — E você deu? — Dei. — Rosália soltou um gritinho de animação. — Ele mandou mensagem? — Sim. — Disse baixo, com medo de admitir. — E você respondeu? — Hesitei antes de responder. — Mais ou menos. Não sei o que dizer. — Iris, por Dios! — exclamou ela. — Você foi para a Itália para trabalhar, eu sei, mas isso não significa que precisa se fechar para o mundo. Conhecer alguém não é um crime. Suspirei, sabendo que ela tinha razão. — Talvez você esteja certa. — Não é talvez. Eu estou certa! Você precisa aproveitar um pouco também. — Tá bom, tá bom. Vou responder. — Isso! — disse ela, animada. — Agora me promete que vai me contar tudo depois. — Prometo. — E não se esquece: aproveita, tá? — Vou tentar. Depois que ela desligou, fiquei olhando para o prato vazio à minha frente, refletindo sobre o que ela havia dito. Rosália sempre conseguia me fazer pensar além do que eu estava acostumada. Peguei o celular e digitei uma resposta para Domenico. “Foi normal, só trabalho. E o seu?” Ele respondeu quase que imediatamente. “Também apenas trabalhei. Mas queria te ver novamente.” Fiquei encarando a mensagem, sentindo meu coração acelerar um pouco. Ele era direto, algo que eu não esperava. Respirei fundo antes de responder. “Não tenho folga por agora, mas podemos combinar algo.” Enviei a mensagem e me deitei na cama, sentindo o peso do dia começar a se dissipar. O teto velho da quitinete parecia mais interessante do que nunca enquanto minhas ideias viajavam. Será que Rosália estava certa? Será que eu poderia me permitir conhecer alguém, mesmo com tudo que estava acontecendo? Fechei os olhos, tentando deixar os pensamentos de lado. Amanhã seria outro dia, e eu precisaria de toda a energia possível.
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