Domenico Ricci
Eu não conseguia parar de pensar nela.
Iris. Cada detalhe de seu rosto, sua expressão de cansaço e o sorriso que parecia tão raro. Havia algo nela que me puxava, como um ímã. E agora, sabendo o que eu sabia, minha vontade de protegê-la era maior do que qualquer desejo pessoal. Mas como poderia me aproximar sem parecer... suspeito? Eu não podia simplesmente aparecer no restaurante onde ela trabalhava. Seria estranho, afinal, como eu contaria que pesquisei sua vida inteira? Eu precisava de um encontro "acidental", algo natural.
Enquanto tentava traçar um plano, o som do rádio no carro interrompeu meus pensamentos. Era Ricardo.
— Estamos prontos, chefe. A equipe já está em posição.
Minha mente voltou imediatamente ao presente. O plano de hoje era crucial.
Depois de semanas reunindo informações, armando armadilhas e infiltrando espiões, finalmente tínhamos o que precisávamos. Venâncio e Aleff, os vermes que haviam feito de Turim um ponto central para o tráfico humano, seriam derrubados hoje.
— Entendido — respondi, pegando minha arma e ajustando meu colete. — Estou de olho na saída do galpão. Movam-se quando eu der o sinal.
O galpão abandonado onde os dois operavam era discreto, mas nosso trabalho de investigação havia revelado toda a rede criminosa que se ramificava dali. Esperei pacientemente, observando a porta enferrujada enquanto minha equipe assumia suas posições ao redor do prédio.
A porta finalmente se abriu, e Venâncio e Aleff saíram, conversando como se nada os preocupasse.
— Agora — comandei pelo rádio.
Desci do carro com minha arma já apontada. Em questão de segundos, soldados da Carbone cercaram os dois.
O som do clique das armas sendo preparadas ecoou no ar.
— Mas o que está acontecendo aqui? — Venâncio perguntou, tentando soar confiante, mas eu pude ver a tensão em seu rosto.
— Silêncio. Entrem no galpão — ordenei, minha voz fria e calculada. Aleff moveu a mão para a cintura, claramente tentando pegar algo.
— Nem pense nisso. — Disse e, no mesmo momento, disparei um tiro no chão ao lado dele. O som fez os dois se sobressaltarem.
— Mãos onde eu possa ver. Agora. — Minha voz era firme, sem espaço para negociações.
Luca se aproximou rapidamente, algemando os dois antes que pudessem reagir. Guiei-os para dentro do galpão, meu olhar fixo em cada movimento deles. Eu não podia permitir erros.
— Amarre-os nas cadeiras — instruí Luca assim que entramos.
Venâncio e Aleff foram forçados a sentar, seus braços presos nas costas das cadeiras. Observei os dois em silêncio por alguns segundos, cruzando os braços. A raiva queimava dentro de mim, mas eu precisava me manter no controle.
— O que está acontecendo? — Aleff finalmente quebrou o silêncio, tentando parecer inocente. Eu ri. Uma risada seca e sarcástica.
— Vocês sabem muito bem o que está acontecendo.
Enquanto isso, Ricardo vasculhava o local, abrindo gavetas, armários e caixas. Não demorou para ele voltar com uma pilha de pastas organizadas meticulosamente. Cada pasta tinha nomes, datas, contratos falsos. Era tudo o que precisávamos.
— Parece que vocês têm uma bela coleção aqui. — Peguei uma das pastas e folheei as páginas.
— Podemos explicar! — Venâncio se apressou em dizer.
— Não preciso das suas explicações. — Minha voz era cortante. — Ninguém na minha cidade vai cometer uma atrocidade dessas e sair impune. — Aleff soltou uma risada nervosa.
— Sua cidade? Quem você pensa que é?
Levantei lentamente a manga da minha camisa, revelando o símbolo da Carbone tatuado no meu antebraço. Os dois congelaram. O pânico em seus olhos era inconfundível.
— Agora vocês sabem exatamente quem eu sou. — Me inclinei, encarando-os de perto. — E vocês acham que podem fazer isso bem debaixo do meu nariz?
Peguei outra pasta e comecei a folheá-la. Os documentos eram detalhados, listando as vítimas e os destinos que haviam sido planejados para elas. Meu sangue ferveu. Passei rapidamente pelas pastas até que um nome específico chamou minha atenção: Iris González.
A pasta dela estava ali, cheia de detalhes. Contratos, seu passaporte, visto, autorização de imigração… Tudo. Eu sabia que ela era uma vítima, mas ver isso confirmado me deixou devastado. Ela não era só mais um nome em uma lista. Ela era Iris.
Fechei a pasta com força, meu olhar voltando para os dois miseráveis.
— Quantas pessoas? — perguntei, minha voz baixa, mas cheia de ameaça. Eles permaneceram em silêncio.
— Quantas pessoas vocês submeteram a isso? — insisti, minha paciência desaparecendo.
Mais silêncio.
— Tudo bem. Se vocês querem fazer isso do jeito difícil, assim será.
Sinalizei para Ricardo, que começou a remover os documentos das pastas e fotografá-los. Precisávamos de cópias para garantir que nenhuma prova fosse perdida. Enquanto isso, Luca começou a vasculhar os dispositivos eletrônicos no galpão, procurando por mais evidências.
— Você realmente acha que pode acabar com isso? — Venâncio finalmente disse, tentando soar desafiador. Eu me aproximei dele, inclinando-me para que nossos rostos ficassem próximos.
— Não. Eu não acho. Eu vou. — Ele engoliu em seco, desviando o olhar.
Enquanto minha equipe continuava o trabalho, comecei a digitar uma mensagem para Iris. Não sabia se ela responderia, mas eu precisava saber como ela estava.
"Como foi seu dia?"
Suspirei, guardando o celular. Por ora, tudo estava sob controle aqui, mas eu sabia que isso era apenas o começo. Venâncio e Aleff pagariam por cada vida que destruíram. E não eram poucas.
Depois de algumas horas reunindo tudo o que precisávamos, sinalizei para Luca se aproximar.
— Leve-os. Vamos fazer com que respondam por isso.
Os dois foram arrastados para fora, suas expressões agora totalmente desprovidas de arrogância. Enquanto eu os observava serem levados, uma coisa ficou clara para mim: não importa o que fosse necessário, eu protegeria minha cidade e as pessoas nela. Especialmente a moça de olhos verdes e cabelos cacheados.