Domenico Ricci
O cheiro de ferro enferrujado misturado à umidade do porão atingiu minhas narinas assim que desci as escadas. Venâncio e Aleff estavam sentados contra a parede fria, os olhos carregados de cansaço e medo. Eles levantaram a cabeça ao ouvir meus passos. O ranger da porta atrás de mim ecoou no espaço claustrofóbico. Ricardo entrou logo depois, carregando uma pasta abarrotada de papéis.
Era o que eu precisava.
— Tudo pronto? — perguntei a ele, sem tirar os olhos de Venâncio e Aleff.
— Sim, estão aqui todos os documentos. Passaporte, identidade, visto… — Ricardo respondeu, entregando-me a pasta.
Abri e analisei rapidamente o conteúdo. As provas do esquema nojento que eles comandavam estavam ali, perfeitamente organizadas. Mas o que mais me interessava eram os nomes das vítimas. Cada papel representava alguém que tinha sofrido nas mãos desses dois.
— Vocês vão entregar esses documentos ainda hoje. — Minha voz saiu baixa, mas firme.
Venâncio, com aquele olhar de raposa velha, tentou abrir a boca para falar, mas eu o cortei antes que qualquer palavra saísse.
— Nem tente questionar. — Inclinei-me ligeiramente para frente. — Esse não é o momento para discutir as minhas ordens.
Aleff desviou o olhar, mas Venâncio, ainda assim, não parecia completamente submisso. Ele apertou os lábios, tentando conter o que provavelmente seria mais uma tentativa patética de justificar o injustificável.
— Ricardo, chame os homens. Vamos tirá-los daqui e seguir com as entregas.
Ricardo fez um sinal, e dois soldados entraram no porão, destrancando a corrente que prendia a cela enferrujada. Venâncio deu um passo à frente, mas hesitou ao ver que os soldados mantinham as armas próximas o suficiente para acabar com qualquer ideia de resistência.
— E antes que vocês pensem em qualquer gracinha… — comecei, caminhando até ficar cara a cara com eles. — Tenho snipers posicionados em pontos estratégicos por toda a cidade. Uma tentativa de fuga, um movimento errado, e vocês não vão viver para lamentar.
Venâncio finalmente ficou em silêncio, engolindo em seco.
Saímos do porão, e o grupo seguiu até os carros estacionados do lado de fora. Eu observei de longe enquanto Ricardo dava as últimas instruções para os soldados. Eles estavam prontos para começar as entregas nos locais onde essas pessoas estavam sendo exploradas.
Entrei no meu carro e liguei o motor, pronto para acompanhá-los. Queria observar o início da operação. Ricardo lideraria essa parte, mas eu precisava estar por perto, mesmo que à distância. Acompanhei os veículos até o primeiro destino, um armazém antigo nos arredores da cidade.
De dentro do carro, vi Ricardo descer, acompanhado de Venâncio e Aleff, cada um carregando um monte de papéis. Eles se dirigiram ao responsável pelo local, que parecia visivelmente nervoso ao vê-los. Observei enquanto os documentos eram entregues e os novos termos de trabalho eram explicados.
— Estamos indo bem, Domenico. — murmurei para mim mesmo.
O processo se repetiu por vários outros estabelecimentos. Eu permaneci no carro, observando de longe enquanto os homens lidavam com a entrega de documentos e instruções. Foi só quando chegamos ao último lugar da lista que meu coração começou a bater um pouco mais rápido.
O restaurante.
Fiquei no carro por um tempo, observando o movimento do lado de fora. Não era apenas a ideia de finalmente acabar com aquele ciclo de exploração que mexia comigo. Era a possibilidade de vê-la mais uma vez.
Ricardo e os outros saíram do restaurante depois de alguns minutos, e Venâncio e Aleff foram levados de volta ao carro. Ricardo caminhou até mim e fez um breve relatório da operação.
— E agora? — ele perguntou.
— Mantenha os dois no porão até que o julgamento seja concluído. — respondi, seco.
Ricardo acenou com a cabeça e voltou para o carro, conduzindo os prisioneiros de volta à sede. Eu deveria ter ido com eles, mas algo me prendeu ali.
Fiquei encostado no carro, meus olhos fixos na porta do restaurante enquanto a movimentação do lugar começava a diminuir.
Uma hora depois, a porta finalmente se abriu.
Minha respiração ficou mais lenta e eu pude ver os cabelos cacheados que reconheceria em qualquer lugar. Ela estava saindo, carregando uma mochila nas costas.
Ajeitei-me, saindo do carro e caminhando devagar pela calçada. Fingindo estar distraído, passei por algumas vitrines, observando meu reflexo nelas enquanto Iris se aproximava.
Ela sorriu ao acenar para alguém dentro do restaurante e, logo depois, me viu. A confusão em seu rosto foi evidente por um momento, mas logo ela sorriu, tímida.
— Domenico? — chamou, a voz baixa e curiosa.
Virei-me lentamente, fingindo surpresa.
— Iris. Não esperava te encontrar aqui.
— Eu também não. — Ela sorriu suavemente. — O que você está fazendo por aqui?
— Apenas caminhando. — Respondi com um sorriso casual. — E você?
— Estou saindo do trabalho. Trabalho ali, no restaurante. — Ela apontou para trás.
— Mesmo? — Finji surpresa. — Que coincidência.
O sorriso dela se alargou, mas logo desviou o olhar, mexendo na alça da mochila. Algo nela era tão… genuíno.
— Na verdade, eu já sei meu próximo dia de folga. — Ela comentou, hesitante. — Se você ainda quiser, podemos fazer algo.
Aquilo pegou-me de surpresa. Ela estava me convidando para vê-la novamente.
— Eu adoraria. — Respondi, sentindo meu peito aquecer. — m*l posso esperar.
Ela riu, um som leve e reconfortante.
— Bom, eu preciso ir. Meu ônibus logo passa.
— Claro. Não quero te atrasar. — Ela começou a se afastar, mas antes de ir, virou-se uma última vez.
— Foi bom te ver, Domenico.
— Também foi bom te ver, Iris.
Observei enquanto ela desaparecia pela rua, meu coração batendo rápido como se eu tivesse corrido uma maratona. Encostei-me no carro novamente, um sorriso involuntário surgindo no meu rosto.
— O que está acontecendo comigo? — murmurei para o silêncio.
Fechei os olhos por um momento, tentando acalmar meus pensamentos. Mas a verdade era que, pela primeira vez em muito tempo, minha vida parecia menos pesada. E tudo isso por causa dela.