Capítulo 29

904 Palavras
Iris González A semana tinha começado de forma confusa, para não dizer estranha. Primeiro, o desaparecimento de Venâncio. Um dia ele estava lá, distribuindo ordens e humilhações como de costume, e no outro, havia sumido sem deixar rastros. Quando finalmente apareceu, foi como se uma nova pessoa tivesse assumido o seu lugar. Ele entregou os documentos de todos, anunciou mudanças na carga horária e até aumentou os salários. Era surreal. E, como se isso não bastasse, ele desapareceu novamente. Outra coisa que estava fora do comum era Domenico. Antes, eu nunca sequer tinha cruzado com ele. Agora, parecia impossível não encontrá-lo. Era como se ele tivesse se tornado uma constante no meu caminho. Hoje era o segundo dia do meu novo horário, onde cobriria apenas café da manhã e almoço. Suspirei enquanto batia o ponto no final do turno. Apesar de tudo, não podia negar que as coisas pareciam estar entrando nos trilhos. Com os novos horários, eu finalmente podia descansar ao chegar na quitinete. E, ter energia suficiente para o dia seguinte era algo que eu nem lembrava como era, mas estava começando a reaprender. No vestiário, tirei o avental, guardei no armário e soltei o cabelo preso, sentindo o alívio de deixá-lo respirar após um dia tão cheio. Peguei minha mochila e saí do restaurante com o calor do fim de tarde me envolvendo de forma confortável. Claro, não era o calor de Peralta, mas havia algo agradável naquela luz alaranjada que tingia o céu. Com o clima tão gostoso, decidi caminhar até a quitinete. O centro estava movimentado, mas de uma forma que me dava uma sensação de normalidade. As pessoas riam, conversavam, algumas apressadas enquanto outras aproveitavam a calma do fim do expediente. Passei mais uma vez em frente à livraria. Meus olhos caíram sobre os livros na vitrine, e não consegui evitar o suspiro. Um deles, talvez, eu pudesse me dar o luxo de comprar. Dois? Isso já era pedir demais. Todo dinheiro que eu pudesse economizar era bem-vindo. — Parece que você realmente gosta de livros. A voz inesperada ao meu lado fez meu coração disparar. Dei um pulo, me virando rapidamente. Era Domenico. — Dios mio, que susto! — coloquei a mão no peito, tentando me recompor. — Desculpe, não foi minha intenção assustá-la — ele disse, com um sorriso de canto, parecendo genuinamente arrependido. — Tudo bem, eu estava distraída. — Respirei fundo, ainda tentando acalmar os batimentos. — Algum em mente? — ele perguntou, apontando para a vitrine. — Todos eles — respondi, com um leve sorriso. — Mas… é um luxo que eu não posso me permitir agora. Domenico ficou em silêncio por um instante, como se ponderasse algo. — Como você está? — Disse, desviando o olhar para a rua. — Bem. Só voltando para casa depois do trabalho. E você? — respondi, ajeitando minha mochila nas costas. — O mesmo. Mas… essa tarde está tão agradável que seria um desperdício ir direto para casa, não acha? — Ele olhou ao redor e, então, voltou os olhos para mim. — O que acha de dar uma volta? Pisquei, surpresa com o convite. — Eu? Não quero atrapalhar… E, bem, nem estou vestida para isso. — Domenico franziu o cenho como se o que eu tinha dito fosse um absurdo. — Você está ótima. É só uma volta pela praça, nada formal. Hesitei, sentindo uma mistura de nervosismo e curiosidade. Quando ele fez um leve biquinho, como se estivesse implorando, não consegui segurar o riso. — Tudo bem. Só uma volta — concordei, ainda relutante. Ele sorriu satisfeito e, para minha surpresa, estendeu o braço. Fiquei parada por um momento, sem saber como reagir, mas acabei aceitando, entrelaçando meu braço ao dele. — E então, o que está achando da Itália? — Quebrou o silêncio. Suspirei, pensando na resposta. — É difícil ficar longe de casa. Sinto falta da minha família, dos meus irmãos… Mas estou me acostumando. — Ele assentiu, parecendo realmente compreender. — Imagino que não seja fácil. Mas, sinceramente, acho que você é muito corajosa por ter tomado essa decisão. Não sei se eu conseguiria. — Obrigada. — Sorri, meio sem jeito. Não estava acostumada com elogios. — E como era sua vida em casa? — ele perguntou, com um tom genuinamente interessado. — Era cheia — respondi, rindo. — Sou a mais velha de cinco irmãos. Então, você pode imaginar… — Domenico arregalou os olhos, surpreso. — Cinco? Deve ter sido uma casa bem movimentada. — Sim — confirmei, rindo. — E você? Tem irmãos? — Tenho dois. Um irmão mais velho e uma irmã mais nova — ele respondeu, com um sorriso de canto. — E como foi crescer com eles? — Domenico riu, balançando a cabeça. — Intenso. Mas, agora que cada um seguiu seu caminho, percebo o quanto aprendi com eles. Sorri da forma descontraída com que ele falava sobre a família. A conversa fluía de um jeito natural, como se nos conhecêssemos há mais tempo. Enquanto continuávamos andando, percebi como Domenico parecia realmente interessado em mim. Ele fazia perguntas, ouvia com atenção e parecia gostar das respostas. Eu não sabia o porquê disso. Não via nada em mim que pudesse ser tão interessante assim. Mas… era difícil ignorar como sua companhia era agradável. O sorriso fácil dele, a maneira como olhava para mim… Eu não queria admitir, mas estava começando a gostar disso. Talvez até demais.
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