Capítulo 30

1364 Palavras
Domenico Ricci Os dois últimos meses foram uma mistura de rotina e intensidade. A cada tarde, por volta das cinco, eu me encontrava andando pelas ruas do centro de Turim, com um desejo sutil, mas crescente, de esbarrar em Iris. Não era uma coincidência. Eu buscava esse encontro, esperava por ele. Todos os dias, ela saía do restaurante nesse horário, e eu estava lá, sem falhar. Porém, o fato de nos encontrarmos por acaso não passava de uma desculpa que eu usava para justificar minha presença constante. Na realidade, eu estava esperando por ela, buscando o momento certo. A primeira vez que a vi foi algo que eu não consegui apagar da minha mente. Ela tinha uma aura única, uma presença que me atraía de uma maneira estranha. O sorriso dela, os olhos brilhando com algo que eu não conseguia entender, e a maneira como ela se expressava me fazia querer conhecer mais sobre quem ela realmente era. Ela não era apenas uma jovem imigrante, ela tinha algo a mais. Algo que me puxava para perto. Nos primeiros encontros, as conversas eram curtas e superficiais. Ela me falava do seu trabalho no restaurante, de como se sentia responsável pela sua família, e, em cada palavra, eu via mais e mais da pessoa que Iris realmente era. Havia uma força silenciosa nela, algo que me intrigava e me fazia querer estar perto. Eu me vi, aos poucos, tomando coragem para vê-la mais frequentemente. E, sinceramente, era difícil desviar os olhos dela quando estava perto. Era como se, por um momento, o resto do mundo sumisse. Com o tempo, esses encontros se tornaram mais frequentes. Comecei a encontrá-la todos os dias depois do expediente, caminhando pelas ruas de Turim. Caminhávamos lado a lado, compartilhávamos pequenas histórias, conversas banais e, por vezes, até ficávamos em silêncio, apenas aproveitando a companhia um do outro. Às vezes, tomávamos um sorvete, outras vezes, sentávamos em algum banco de praça e ficávamos ali, apenas observando o movimento das pessoas. Era simples, mas estava se tornando algo que eu valorizava mais do que eu queria admitir. Eu estava me abrindo para ela, mais do que qualquer um poderia imaginar. E, sem que eu percebesse, estava gostando cada vez mais disso. Hoje não seria diferente. Eu estava novamente, com a cabeça cheia de pensamentos. O que ela estaria fazendo agora? Estava trabalhando até tarde, como sempre? Ou talvez estivesse pensando em alguma coisa importante? Eu não sabia, mas a cada passo, o desejo de vê-la se intensificava. Eu não podia mais esconder isso. Cheguei ao meu escritório e, como sempre, deixei o celular sobre a mesa. Mas, diferente de todos os outros dias, eu o peguei novamente. Hoje eu estava determinado. Olhei para o número de Iris salvo no meu telefone, a foto dela com aquele sorriso genuíno... Não pensei duas vezes. E, antes que a dúvida tomasse conta de mim, enviei uma mensagem para ela. “Oi, Iris. Que tal sairmos para jantar?” A ansiedade logo tomou conta de mim. Será que ela diria sim? Será que isso mudaria tudo entre nós? Eu não sabia, mas não podia voltar atrás. Quando estava quase me perdendo nos meus próprios pensamentos, a porta do escritório se abriu, e Ricardo entrou. Ele parecia impaciente, como sempre. — Domenico, os outros membros já estão na sala — disse, com sua voz grave e direta. Eu dei um aceno de cabeça, deixando o celular de lado. O julgamento de Venâncio e Aleff estava prestes a acontecer, e aquele era o momento em que decidiriam seus destinos. Havia muito em jogo, e eu não poderia errar. — Estou indo — respondi, levantando-me da cadeira e seguindo Ricardo até a sala de reuniões. Ao entrar na sala, todos os membros já estavam lá, sentados ao redor da mesa. O ambiente estava carregado de tensão, e todos sabiam do peso daquela reunião. Era o momento que selaria o destino de dois homens que, sem dúvida, haviam feito a escolha errada. Eu me sentei, olhei para cada um deles e comecei a falar: — Hoje, vamos decidir o que fazer com Venâncio e Aleff. Não podemos ignorar o que fizeram. Eles não apenas prejudicaram inúmeras vidas, mas se tornaram algo que não podemos deixar prosperar. Eles escolheram esse caminho por pura ganância. Não foi uma necessidade, foi uma escolha — falei com firmeza, olhando para os documentos sobre a mesa. Ricardo, como sempre, foi o primeiro a tomar a palavra. Ele colocou sobre a mesa uma série de fotos, imagens que mostravam o sofrimento das vítimas. As pessoas que foram enganadas, forçadas a trabalhar em condições desumanas, sem qualquer perspectiva de um futuro melhor. Aquelas fotos falavam por si mesmas. O medo, a dor e a incerteza eram visíveis em cada rosto. — Essas imagens não são apenas fotos, são vidas. São vidas que foram arrancadas e destruídas por duas pessoas que não tinham nenhuma justificativa para o que fizeram. Eles não tinham nada a ganhar, mas escolheram destruir. Agora, devemos decidir como fazer justiça — disse Ricardo, com um olhar sério. Eu assenti, deixando as imagens falarem por mim. Não havia mais palavras a serem ditas. Era hora de decidir. — Quero ouvir a opinião de cada um de vocês — disse, olhando para os membros ao redor da mesa. Paolo foi o primeiro a falar. Ele não tinha paciência para rodeios. — Eu acho que a única opção é a execução. Eles merecem isso. Não podemos permitir que pessoas assim continuem a viver, a espalhar o m*l que fizeram. Eles precisam pagar com a vida — disse, com uma expressão dura no rosto. Enrico, sempre mais cauteloso, olhou para ele antes de responder. — A execução é uma opção, mas precisamos considerar o impacto disso. O sofrimento que causaram não pode ser apagado com uma morte rápida. Acho que deveríamos pensar em uma prisão que os fizesse viver com as consequências do que fizeram. Que os fizessem sentir a dor daquilo que causaram, mas de uma forma que dure — falou, com uma voz que transmitia firmeza, mas também ponderação. Salvatore, por sua vez, seguiu a mesma linha de Paulo. — Eles não merecem nada além da morte. Não há redenção para pessoas como essas. A execução é a única forma de mostrar que não toleramos esse tipo de comportamento. Eles sabiam o que estavam fazendo, e por isso precisam pagar — disse, com a mesma intensidade de sempre. Marco, que raramente se manifestava, olhou para os outros antes de falar, mas suas palavras foram fortes. — Eu acredito que, mais do que a morte, a tortura é o que eles merecem. Eles devem viver o suficiente para entender o que fizeram. Eles precisam sentir a dor, o medo, antes de morrer. Uma morte rápida não é o suficiente — disse, com um olhar calculista. Eu respirei fundo. A decisão não era fácil, mas eu sabia o que precisava ser feito. O destino deles estava selado, e a escolha seria clara. — Está decidido. A execução será o destino deles, mas antes, receberão um lembrete do porque disso tudo. Não há mais espaço para misericórdia — falei, com um tom firme. Era a escolha certa. Todos concordaram, e a reunião seguiu seu curso. Cada m****o deu sua opinião, mas no final, a votação estava feita. A decisão foi tomada e não havia mais o que discutir. — Todos de acordo? — perguntei, olhando para os presentes. Eles assentiram, um por um. — A reunião está encerrada. — Disse suspirando. Enquanto os outros membros começavam a sair da sala, fiquei ali, sozinho. Olhei pela janela, para a cidade abaixo, e o peso da decisão caiu sobre mim. Eu sabia que havia feito o certo, mas o peso daquilo me consumia. A vida de Venâncio e Aleff estava selada, mas o que seria da minha vida? O que seria de mim, de Iris, de tudo que ainda estava por vir? Eu não tinha as respostas, mas sabia que, de alguma forma, eu estava mais perto delas. O fim daquela reunião não significava o fim dos meus dilemas, mas apenas mais um passo no caminho. A vida seguia, e eu também.
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