Capítulo 31

1074 Palavras
Iris González Olhei pela pequena janela da quitinete e respirei fundo. A rua estreita abaixo parecia tão tranquila quanto minha sexta-feira de folga. Ultimamente, as sextas tinham sido dias de silêncio e calmaria, um momento raro para mim, mas bem-vindo. Depois de tantos meses de correria, humilhação e dúvida, a vida na Itália começava a ter um ritmo menos c***l. Desde as mudanças no restaurante, eu podia finalmente respirar. Não era uma vida de luxo, mas ao menos eu sabia que minha família teria mais conforto. Isso, no fim, era o que importava. Deixei o olhar se perder nos telhados e nas roupas penduradas nos varais das janelas vizinhas. Minhas mãos se apertavam no parapeito enquanto pensamentos antigos insistiam em retornar. Será que escolhi o caminho certo? Será que deveria estar aqui? Um suspiro escapou antes que eu pudesse respondê-los. Sempre o mesmo ciclo. O som do celular vibrou na mesa central, me trazendo de volta à realidade. Caminhei até ele, com o coração inexplicavelmente acelerado, e o peguei para conferir a notificação. Uma mensagem. Domenico. Meu sorriso foi imediato, automático, quase bobo. Desde que ele começou a conversar comigo com mais frequência, sempre senti um misto de curiosidade e ansiedade ao ver seu nome na tela. Quando abri a mensagem, no entanto, a surpresa foi maior do que qualquer outra coisa. “Oi, Iris. Que tal sairmos para jantar?” Um convite direto, claro e, ao mesmo tempo, intimidador. Li e reli as palavras algumas vezes, tentando encontrar uma segunda intenção, algo que me fizesse entender por que ele queria sair comigo. Ele, um homem tão elegante, aparentemente bem de vida e cheio de segurança. E eu? Uma imigrante simples, garçonete em um restaurante onde, meses atrás, eu m*l conseguia manter minha dignidade. Sentei-me na cadeira, segurando o celular como se fosse um artefato precioso, enquanto meu cérebro girava em círculos. Era um encontro? Um jantar casual? Por que ele me escolheria para isso? A resposta parecia tão distante quanto a minha própria autoconfiança. Eu precisava de ajuda. E só havia uma pessoa que poderia me aconselhar naquele momento. Disquei o número de Rosália. Ela atendeu no primeiro toque, como sempre. — Ai, amiga! Que saudade de ouvir tua voz! — ela disse, calorosa e animada. Era incrível como Rosália sempre parecia trazer vida a qualquer conversa. — Rosália, preciso da sua ajuda. A risada dela parou imediatamente. — ¿Qué pasó? Tudo bem? — Estou bem, sim. Não aconteceu nada… quer dizer, mais ou menos. — Mordi o lábio, tentando formular a frase. — Domenico me convidou para jantar. Houve um silêncio do outro lado da linha que durou um segundo, talvez dois, antes que Rosália soltasse um grito tão alto que precisei afastar o celular do ouvido. Mesmo assim, o som parecia ecoar pela quitinete. — ¡AY, DIOS MÍO! Amiga! É sério isso? Domenico? Aquele Domenico? — Sim, ele mesmo. — A resposta saiu quase como um sussurro, mas eu sabia que ela tinha ouvido. — Você já sabe o que vai vestir? E o cabelo? Ai, você precisa estar maravilhosa! — A animação dela era tão contagiante que por um momento esqueci o nervosismo. — Rosália, calma! Eu nem sei se vou aceitar. — COMO ASSIM VOCÊ NÃO SABE? Não existe a opção de não aceitar, Iris! Que Como você vai recusar um convite desse? — Ela parecia quase ofendida. Suspirei, esfregando a testa com a mão livre. — Eu só… não entendo o que ele vê em mim. Ele é tão… — Pausei, procurando as palavras. — Ele é bem-sucedido, confiante, bonito… E eu sou só… eu. — Iris González, você precisa parar de falar assim de si mesma. — suspirei — É sério, se eu fosse lésbica, eu te pegava sem pensar duas vezes e eu nem estou dizendo por ser uma amiga. — Rosália soltou uma gargalhada enquanto eu ria, balançando a cabeça. — Não é só isso, Ros. Não é só beleza. Ele é um homem elegante, e eu sou uma imigrante que ganha a vida como garçonete. Como isso faz sentido? Ela suspirou do outro lado. O tom dela mudou, ficando mais sério. — Faz sentido porque você é incrível. Porque você é gentil, forte, inteligente. Você precisa começar a enxergar o que eu vejo, o que ele provavelmente também vê. Domenico está interessado em você, Iris, não no que você tem ou deixa de ter. Fiquei em silêncio, processando o que ela dizia. Minhas mãos tremiam levemente, mas não sabia se era pelo nervosismo ou pela verdade nas palavras dela. — Você tem razão. — É claro que tenho! Agora, promete que vai aceitar esse convite? — Ela parecia exigente, mas ao mesmo tempo reconfortante. — Tudo bem, eu vou responder. — Sorri, sentindo uma pontada de coragem surgir dentro de mim. — E quero foto da roupa e do cabelo, hein? Nada de ir sem estar perfeita! — O tom dela voltou a ser animado. Ri novamente e me despedi, agradecendo pela conversa. Quando a ligação terminou, fiquei olhando para a mensagem de Domenico mais uma vez. Minhas mãos hesitavam em digitar uma resposta, mas as palavras de Rosália ecoavam na minha mente. Ela estava certa. Eu precisava parar de me colocar para baixo. Levantei-me e fui até o pequeno espelho no banheiro. Olhei meu reflexo por longos segundos. Meu cabelo cacheado estava preso em um coque improvisado, algumas mechas já começando a se soltar. Minha pele mostrava sinais de cansaço, mas também de força. Inspirei fundo e sorri para mim mesma. — Eres hermosa, interesante y suficiente, Iris. — Sussurrei como se estivesse fazendo uma oração. — Eres latina. Eres maravillosa. Então, para de besteira. Meu sorriso ficou mais forte e voltei para o celular. “Aceito o convite. Me diga o dia e o horário que nos encontraremos.” O polegar hesitou por um segundo antes de pressionar “Enviar”. Quando a mensagem foi enviada, senti o peso da dúvida ser substituído por uma excitação estranha, uma mistura de medo e expectativa. Caminhei até o pequeno armário onde guardava minhas roupas, tentando imaginar algo que pudesse ser elegante e confortável. Enquanto observava minhas próprias roupas, meus pensamentos retornavam ao convite. O que ele esperava desse jantar? E o que eu esperava? Sorri para mim mesma ao perceber que, pela primeira vez em muito tempo, estava ansiosa por algo bom. Algo que não envolvia apenas sobreviver, mas, talvez, viver.
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