Domenico Ricci
O silêncio na sala era quase opressor. Eu podia sentir o peso das últimas decisões ainda em meus ombros, cada escolha reverberando em minha mente.
Passei as mãos pelo rosto, tentando aliviar a tensão acumulada. A reunião havia terminado, mas a responsabilidade que vinha com ela continuava ali, grudada em mim como uma segunda pele.
Eu precisava sair.
Levantei-me, peguei as chaves e saí do prédio. Dirigi de forma automática até meu apartamento, onde troquei o terno por roupas mais leves. A academia do centro de treinamento da máfia era o único lugar onde eu poderia descarregar tudo o que estava sentindo.
Quando cheguei, alguns soldados estavam saindo do treino. Cumprimentei-os com um aceno e fui direto para a esteira. Comecei uma corrida leve, tentando esvaziar minha mente.
Eu apenas precisava correr, respirar e esquecer.
Mas não era o suficiente.
Fui para os pesos, aumentando a carga a cada série, forçando meu corpo ao limite. A dor muscular era um lembrete físico da minha resistência. Mas ainda não bastava.
Então, fui para a sala de luta onde o treinador de boxe estava organizando o espaço.
— Precisa de algo, Domenico? — ele perguntou.
— Preciso de uma luta.
Ele sorriu.
— Imaginei que iria dizer isso.
Ele colocou as luvas, e eu fiz o mesmo. Assim que entramos no tatame, os golpes começaram. Nenhum de nós aliviava. Cada soco, cada esquiva, cada impacto no meu corpo era uma forma de me lembrar de que eu estava ali, presente, e não preso às preocupações.
Foi quando a porta se abriu.
— Eu sabia que te encontraria aqui. — Escutei uma voz. Virei-me, ainda ofegante. Damiano estava na entrada de braços cruzados e expressão indecifrável.
— O que está fazendo aqui? — Ele deu um sorriso de canto, aquele que sempre me dizia que ele sabia mais do que estava dizendo.
— Não é difícil rastrear você, Domenico.
O treinador, percebendo que a luta havia acabado, tirou as luvas e se despediu rapidamente. Assim que ficamos a sós, Damiano andou lentamente pelo lugar, observando ao redor.
— Você está se matando no treino de novo — comentou, cruzando os braços.
— E você voltou a me seguir? — retruquei, arqueando uma sobrancelha.
Ele riu.
— Não, só levei Serena no shopping com Nicolas e resolvi passar aqui. Faz tempo que não venho.
— E resolveu aparecer justo agora?
Ele me olhou por um momento e, sem dizer nada, entrou no tatame, sentando-se no chão.
— Senta aí — disse, batendo a mão na lona.
Olhei para ele desconfiado, mas me sentei ao seu lado.
— O que foi? — Ele ficou um tempo em silêncio antes de responder.
— Só queria ver como você está. — Fiquei surpreso com aquilo. Fazia tempo que não conversávamos assim.
— Estou bem — respondi. — Só cansado. A máfia exige muito.
— Eu sei — ele disse, soltando um suspiro. — É exatamente sobre isso que eu queria falar com você.
— Sobre a máfia? — Ele assentiu, olhando para o nada por um instante antes de virar-se para mim.
— Você não precisa mais carregar tudo isso sozinho, Domenico. Eu estou de volta. — Fiquei em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquelas palavras.
— Você tem certeza? — Damiano passou a mão pelo rosto antes de responder.
— Nicolas já está com quase seis meses, e Serena e eu estamos nos adaptamos bem. Eu posso voltar ao comando.
— Achei que você quisesse ficar mais tempo fora — comentei. Ele riu baixinho, balançando a cabeça.
— Eu até gostaria... Mas a verdade é que a máfia faz parte de mim.
Assenti, entendendo perfeitamente.
— Você sabe que eu não vou sumir, né? Eu ainda faço parte disso.
— Eu sei. Mas você não precisa ser o líder e carregar tudo sozinho. Eu já estou acostumado com todo o peso e responsabilidade que isso traz. Eu sei o quanto a liderança pode afundar alguém, Domenico. — Ele me olhou nos olhos e continuou. — Eu não quero que você siga pelo mesmo caminho que eu segui. Quero que você tenha a chance de ser mais leve.
Aquilo me pegou de surpresa. Eu nunca tinha pensado nisso. Nunca me vi como alguém que poderia ter uma vida menos intensa.
— Damiano…
— Não precisa me agradecer — ele me interrompeu. — Só aceita.
Ficamos em silêncio por um momento, apenas absorvendo aquilo. Então, decidi quebrar o clima pesado.
— E como está sendo a vida de pai?
— Você não tem ideia do cansaço. — Damiano riu, passando a mão pelo cabelo. — Agora ele só quer dormir no colo e na última consulta ele estava com quase 7kg. Minha coluna parece que vai partir no meio.
— Imagino. — Respondi rindo.
— Mas quando eu olho para Nicolas… cara, vale a pena. Cada noite m*l dormida, cada fralda trocada… Tudo vale a pena quando vejo aquele sorriso banguela.
Sorri, observando meu irmão falar sobre o filho, mas fomos interrompidos com seu celular tocando. Ele olhou a tela e suspirou.
— Preciso buscar Serena.
Ele se levantou e estendeu a mão para mim.
— Relaxa um pouco, Domenico. Agora é comigo. — Apertei sua mão e assenti.
— Nos falamos depois.
Ele saiu da sala, me deixando sozinho. Eu finalmente podia respirar tranquilo.
Comecei a me preparar para ir embora até que meu celular vibrou no banco ao lado, interrompendo meus pensamentos. Peguei-o e desbloqueei a tela. Era Iris.
"Eu aceito o jantar."
Minha respiração ficou presa por um segundo.
Uma segunda mensagem chegou logo em seguida.
"Sexta-feira à noite, se estiver livre."
Sem pensar, digitei rapidamente uma resposta.
"Sexta-feira é perfeito. Estou ansioso para te ver."
Ela respondeu com um emoji tímido, e eu senti um sorriso involuntário se formar nos meus lábios.
Me encostei na parede, pensando em como seria aquele encontro.
Iris era perfeita e estar com ela estava se tornando quase uma necessidade.
Eu queria cada vez mais.