Iris González
O avião tocou suavemente a pista de pouso em Peralta, e um arrepio percorreu minha espinha. Meu coração acelerou no peito enquanto eu olhava pela pequena janela. Eu estava de volta.
Depois de dezessete horas de viagem e uma noite inteira sem dormir, o cansaço deveria me dominar, mas era a ansiedade que fervilhava em meu sangue. Minhas mãos estavam frias, minha respiração mais curta. Eu não sabia o que esperar. Eu não sabia como seria pisar novamente na terra que sempre chamei de lar depois de tantos meses longe.
Domenico desceu primeiro, sempre à frente, sempre me guiando. Ele estendeu a mão para mim sem hesitação, seus olhos escuros e firmes me buscando. Não importava quantas vezes ele fizesse isso, meu coração sempre reagia da mesma maneira.
Eu entrelacei nossos dedos e desci com ele, sentindo o calor úmido do ar envolver minha pele. A brisa trazia o cheiro da terra, de comida sendo preparada em algum lugar próximo, e o som distante de vozes conversando, rindo, vivendo.
Meus pés tocaram o chão, e um nó se formou na minha garganta.
Eu realmente estava de volta.
Respirei fundo, tentando me acalmar, e só então notei o carro preto parado próximo à pista. Um homem esperava ao lado, de pé, e quando olhei para Domenico, vi o brilho divertido em seus olhos.
— Como você conseguiu esse carro? — perguntei, estreitando os olhos para ele.
Ele ergueu uma sobrancelha, aquele sorriso carregado de mistério brincando em seus lábios.
— Eu tenho meus meios, tesoro.
Minha boca se abriu em incredulidade, mas eu apenas revirei os olhos, rindo baixinho. Eu deveria saber. Domenico sempre tinha um jeito de conseguir o que queria.
Ele abriu a porta para mim e esperou que eu entrasse antes de cumprimentar o motorista e dar a volta no carro. Assim que ele se acomodou ao meu lado, virou-se para mim e segurou minha mão, seus dedos traçando um caminho lento e reconfortante sobre minha pele.
— Como você está se sentindo? — perguntou baixo.
Engoli em seco. Eu queria dizer que estava bem, que estava feliz, mas a verdade era outra.
— Nervosa. — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, quase um sussurro.
Domenico apenas assentiu, como se já soubesse. Ele não disse nada, apenas apertou minha mão em resposta, sua presença tão sólida e reconfortante quanto sempre.
O motorista seguiu pelas ruas em direção ao hotel onde ficaríamos por algumas horas. Domenico insistira que descansássemos antes de irmos para a casa da minha família. Ou que pelo menos tomássemos um banho.
Quando chegamos ao hotel, caminhamos até o quarto e colocamos nossas malas no canto. Eu tirei os tênis quase automaticamente, suspirando ao sentir o chão frio sob meus pés. Domenico puxou a blusa de moletom pela cabeça e murmurou algo sobre o calor.
— Eu acabei de chegar mas já estou derretendo. — falou se abanando.
— Você se acostuma. — falei e ele riu se sentando na cama.
Peguei uma muda de roupa e, quando olhei para ele, Domenico me encarava com um sorriso torto, os braços cruzados sobre o peito.
— O que foi? — perguntei, arqueando a sobrancelha.
Ele não respondeu. Apenas me olhou daquele jeito intenso, como se estivesse esperando que eu entendesse algo que ele não precisava dizer em voz alta.
Eu ri, balançando a cabeça.
— Você quer tomar banho comigo, não é? — perguntei colocando a mão na cintura.
O sorriso dele se alargou.
— Eu estava esperando o convite, amor. — disse cínico.
Rolei os olhos, mas antes que eu pudesse dizer algo, ele já estava pegando uma roupa e vindo atrás de mim.
O banho foi um alívio para o cansaço da viagem, mas, mais do que isso, foi um momento só nosso. Entre carinhos e toques suaves, entre risadas abafadas e beijos demorados, Domenico me fez esquecer, por alguns instantes, toda a ansiedade.
Quando terminamos, nos vestimos e nos preparamos para sair. Domenico se aproximou e segurou meu rosto entre as mãos.
— Pronta? — perguntou.
Meu coração deu um salto.
— Sim. — responde respirando fundo.
Assim que entramos no carro, passei o endereço ao motorista e me recostei no assento, observando as ruas através da janela. A cidade passava por mim como um borrão de memórias. Cada esquina, cada loja, cada pedacinho daquele lugar era uma parte de mim.
Quando passamos pela minha antiga escola, um sorriso involuntário surgiu em meu rosto.
— Eu estudei ali. — Disse. Domenico seguiu meu olhar e, sem dizer nada, apertou minha mão com mais força sorrindo.
Então, minha rua apareceu diante de mim.
Minhas mãos começaram a tremer e, então, eu os vi.
Juan e Manuel estavam jogando bola na calçada, exatamente como faziam quando eu morava ali. Eles estavam diferentes, mais altos talvez, mas eram os mesmos garotos que eu amava com todo meu coração.
Um soluço escapou da minha garganta antes que eu pudesse segurá-lo.
Domenico deslizou a mão da minha para minha perna, apertando-a levemente, como se me ancorasse àquele momento.
Assim que o carro parou, Domenico saiu primeiro, contornando o veículo e abrindo a porta para mim. E foi nesse instante que meus irmãos me viram. Eles pararam no mesmo segundo, como se o tempo tivesse congelado.
— MAMÁ! PAPÁ! — O grito ecoou pela rua, e eu não consegui me mover. Minhas pernas estavam presas ao chão, minha respiração encurtada pela avalanche de emoções.
Os passos apressados vieram em seguida.
Minha mãe surgiu na porta, e quando seus olhos encontraram os meus, ela levou a mão à boca, seu rosto se transformando em um misto de surpresa e descrença.
Logo, ela corre até mim e o impacto do abraço dela foi avassalador.
Eu me agarrei a ela como se nunca mais fosse soltar, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, encharcando sua blusa.
— Mi niña… — ela soluçou contra meu cabelo, me apertando com toda a força que tinha.
Logo, senti outros braços me envolvendo. Meu pai. Meus irmãos. A saudade explodiu dentro de mim de um jeito doloroso e maravilhoso ao mesmo tempo.
Eu estava em casa.
Quando abri os olhos, vi Domenico parado a poucos metros, observando a cena. O sorriso dele era tranquilo, mas seus olhos carregavam algo mais profundo.
Minha garganta se apertou, e, mesmo com as lágrimas escorrendo não pude deixar de agradecer.
— Obrigada. — sussurrei.
O sorriso dele se alargou um pouco mais.
— Sempre por você, amor. Sempre.