Domenico Ricci
O escritório estava quieto, a luz vinha das janelas que permitiam a entrada do sol e do lustre em cima da minha mesa, refletindo nas pilhas de papéis à minha frente. O silêncio era interrompido apenas pelo som suave da caneta que riscava o papel, assinando mais um contrato, mais um acordo para os cassinos e as casas noturnas que estavam sob nosso controle. Era um trabalho árduo, mas necessário.
Cada documento, cada detalhe, precisava ser perfeito. Mas, apesar de estar completamente focado no que estava fazendo, minha mente vagava para Iris. A imagem dela, com seu sorriso suave e olhos cheios de vida, me acompanhava o tempo todo. Ela estava no trabalho, como sempre, mas já sabia que, no final do dia, estaria comigo. E com ela, tudo ficava mais fácil. Eu me sentia completo, com Iris ao meu lado.
De repente, o som da porta se abrindo me tirou dos meus pensamentos. Levantei os olhos e vi Damiano entrando, com o habitual sorriso travesso no rosto. Ele caminhou até a poltrona na minha frente e se jogou ali, sem cerimônia. Não precisava perguntar, mas não pude evitar.
— O que você está fazendo aqui, Damiano? — perguntei, com a voz carregada de uma curiosidade que logo se transformaria em diversão. Eu sabia que ele não estava ali por negócios sérios.
Damiano suspirou dramaticamente, como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros, e olhou para o teto, de forma teatral.
— Estou me escondendo da Serena — ele disse, com um tom exageradamente dramático, como se estivesse prestes a desmoronar a qualquer momento.
Arqueei uma sobrancelha, ciente de que alguma coisa tinha acontecido para ele estar naquele estado. Olhei para ele, esperando que me contasse o que havia feito desta vez.
— O que você fez, Damiano? — perguntei, já me preparando para a resposta. Ele não decepcionaria.
Damiano soltou um suspiro profundo e olhou para mim, como se estivesse prestes a confessar seu maior erro.
— Serena comprou um vestido branco da Chanel — ele começou, e eu podia ver o desconforto estampado em seu rosto. — E adivinhe? Eu, num momento de total genialidade, coloquei o vestido dela para lavar junto com as roupas do Nicolas… Você sabe, tinha casaco vermelhos, body azul, calça verde com desenho de dinossauro. Enfim, o vestido virou um arco-íris.
Eu não pude evitar a risada que escapou dos meus lábios. O rosto de Damiano ficou ainda mais pálido com a revelação, mas o que ele disse me fez rir ainda mais alto.
— Não acredito que você fez isso — falei, quase sem fôlego de tanto rir. — Um vestido da Chanel! E você colocou com as roupas coloridas? Você sabe o que custa aquilo, né? Um rim seu!
Damiano sorriu de forma sarcástica, como se estivesse esperando minha reação. Ele sabia que aquilo não tinha perdão.
— Eu não imaginei que as roupas coloridas manchariam a roupa branca, Domenico — ele disse, com uma mistura de irritação e resignação. — Se eu soubesse, teria evitado. Agora, vou ter que me esconder por dias até ela me perdoar. E para ajudar, quando tirei o vestido da máquina, eu estava com Nicolas, e ele riu.
Eu ri ainda mais, pensando no caos que ele causou. Nicolas devia estar se divertindo à beça com a situação do pai, e Serena… Bem, Serena provavelmente estava furiosa, o que tornava tudo ainda mais engraçado. Damiano era, sem dúvida, uma fonte inesgotável de problemas domésticos.
— Eu tenho que ver isso — disse, rindo ainda mais, imaginando a cena em que Nicolas ria dele. — Isso não tem preço.
Damiano balançou a cabeça, com um sorriso torto, e mudou de assunto.
— Enfim, deixando a desgraça de lado… O que você precisa? Me mandou mensagem por que? — ele pausou por um segundo. — Ah, só vou ajudar se eu sair vivo disso.
Eu olhei para ele com seriedade, sabendo que era a hora de resolver algo importante.
— Eu preciso do jato da família, e também de alguns contatos para agilizar passaporte e visto — falei com firmeza. — Estou trazendo a família de Iris para a Itália. Preciso dos documentos de moradia o mais rápido possível.
Damiano me olhou surpreso, sua expressão vacilando entre a curiosidade e a dúvida.
— E como ela reagiu? Ela aceitou? — perguntou ele, parecendo curioso.
Eu assenti, o peso da decisão me fazendo sentir que aquilo era, de fato, o próximo passo importante. Trazê-los para cá era a única maneira de garantir que Iris não ficasse sozinha em sua nova vida. Obviamente eu estaria com ela, mas Iris merecia sua família por perto, e eu faria tudo para isso.
— Ela hesitou, mas no fim, aceitou — respondi. — Não vai ser fácil para ela, mas será o melhor para todos.
Damiano ficou em silêncio por um momento, refletindo sobre o que eu havia dito. Ele não fez perguntas, apenas se levantou e pegou seu celular, digitando algo rapidamente.
— Eu vou te mandar o número de alguém que pode ajudar com isso — disse ele, já começando a sair da sala.
No exato momento em que ele estava saindo, o celular de Damiano tocou. Ele olhou para a tela com uma expressão de desespero e, antes mesmo de atender, ele soltou um gemido baixo. Eu sabia que aquilo era problema, e estava mais do que curioso para ouvir a conversa.
Damiano atendeu com a voz mais suave que eu já ouvi dele, como se estivesse tentando evitar qualquer tipo de conflito.
— Amore Mio? — ele disse, quase em um tom de súplica. Eu podia ouvir a voz dela do outro lado da linha, e não era nada boa.
Damiano fez um gesto de quem estava se rendendo e falou em um tom ainda mais doce.
— Amor, calma… Eu sei, eu sei. Dez minutos? Claro, já estou indo.
Ele desligou rapidamente, e pude ouvir o suspiro de alívio que ele deu. Serena não estava nada feliz, e eu poderia imaginar a tempestade que ele enfrentaria em casa.
Damiano me olhou com um sorriso forçado, tentando manter a compostura, mas eu não pude deixar de rir.
— Você vai viver, Damiano, mas vai passar por uma provação. Serena vai te torturar, eu aposto. — Ele deu uma risada nervosa, claramente mais preocupado com o que estava por vir.
— Se você estivesse no meu lugar, Domenico, não estaria rindo tanto. Mas tudo bem, eu me viro. Tenho que ir para casa antes que ela venha me buscar aqui.
Com isso, Damiano saiu pela porta, e eu fiquei ali, refletindo sobre a situação toda. Ele já havia me enviado o número que eu precisava, e agora era hora de fazer as coisas acontecerem.
Peguei o celular e liguei para o número. A linha estava tranquila, e eu fui direto ao ponto.
— Eu preciso de seis passaportes e vistos de moradia, o mais rápido possível — falei com firmeza, sem deixar espaço para discussão.
A voz do homem do outro lado da linha hesitou um pouco, antes de responder.
— Isso pode ser um pouco complicado, senhor Ricci. Vou precisar de um tempo para organizar tudo.
Eu não tinha tempo. Cada minuto que passava era crucial. Respirei fundo e dei a resposta que sabia que mudaria a postura dele.
— Você está falando com um Ricci. Eu preciso disso feito, e preciso rápido — disse, com a confiança que só a minha família poderia ter. — Não me faça esperar.
Instantaneamente, o tom do homem mudou. Ele ficou mais prestativo, mais urgente.
— Claro, senhor Ricci. Vou providenciar tudo imediatamente. Só preciso dos nomes. — Sorri de lado.
— Mercedes, Antônio, Dolores, Leonor, Juan e Manuel González. — Ele confirmou, já ciente da urgência da situação.
— Estarei entregando o mais rápido possível, senhor Ricci.
Desliguei e, logo em seguida, liguei para André, o responsável pela manutenção do jato. Ele atendeu quase de imediato.
— Como está o jato? — perguntei, direto, sabendo que era essencial que tudo estivesse em ordem.
— Tudo em dia, Domenico. Não há nada a se preocupar. — A voz de André foi tranquila, como sempre.
— Precisarei dele o mais breve possível. Pode revisar? — falei, com uma leve tensão na voz.
— Claro, começarei a revisão imediatamente. Não se preocupe.
— Agradeço, André. — Desliguei a chamada, satisfeito com o progresso.
Agora, com os passaportes sendo providenciados e o jato a caminho, tudo estava em seus devidos lugares. Iris teria sua família por perto, e isso era tudo o que importava. Não me importava o resto. Eu estava disposto a fazer tudo para garantir que ela fosse feliz e estivesse segura, e com a família dela ao seu lado, nada poderia nos parar.