Domenico Ricci
Eu era um misto de ansiedade e expectativa. Sabia que a ideia de apresentar Iris à minha família tinha um peso diferente, um significado mais profundo do que uma simples reunião. Apresentá-la aos meus pais, à minha irmã Donatella, ao Damiano e à Serena não era apenas formalidade. Era, de alguma forma, uma maneira de afirmar para mim mesmo que ela fazia parte da minha vida. Uma vida que parecia, de repente, mais completa, mais real e, acima de tudo, mais feliz.
O carro estava silencioso, com a presença de Iris ao meu lado quase palpável, a ansiedade dela visível, embora tentasse disfarçar. Não estava mais nervoso por mim, mas por ela. Queria que se sentisse bem ali, que não houvesse pressão, que fosse um jantar comum, mas, claro, com o peso que uma reunião de família sempre tem. Sabia que a reação dela ao conhecer meus pais e minha irmã poderia ser qualquer coisa, e eu só queria garantir que se sentisse à vontade.
— Como você está, mi amor? — perguntei, tentando quebrar o silêncio com um sorriso suave.
Ela olhou para mim e sorriu de volta, embora seus olhos ainda demonstrassem alguma apreensão.
— Nervosa, mas tudo bem — disse ela, apertando a mão que eu ainda segurava. — Só não quero fazer nada errado.
Ri baixinho, percebendo que ela realmente queria agradar. Não precisava, não com minha família. Sabia como eram receptivos, como eram calorosos.
Chegamos à casa dos meus pais, e quando ela saiu do carro, uma leve respiração escapou dos meus lábios. Ela estava linda, como sempre, mas a energia de ver sua primeira reação ao estar em minha casa era uma mistura de curiosidade e esperança.
Quando a porta se abriu, minha mãe foi a primeira a nos receber. O sorriso dela foi imediato. E, ao contrário do que Iris temia, minha mãe a abraçou com uma facilidade impressionante, quase como se já fosse parte da nossa família.
— Bem-vinda, querida! Estamos muito felizes em tê-la aqui! — minha mãe disse, com seu jeito caloroso e acolhedor.
Iris, surpresa com a acolhida, pareceu relaxar um pouco. Eu sabia que ela não esperava essa recepção, mas estava ficando mais confortável.
Meu pai também se aproximou, sorrindo de uma forma menos efusiva, mas igualmente caloroso. Ele tinha um jeito mais reservado de demonstrar carinho, mas sua aprovação estava ali, nas palavras e no olhar.
— É bom te conhecer, Iris. Domenico fala muito de você. — Ele disse, apertando sua mão firme.
Eu me senti aliviado, mas também muito orgulhoso de como ela estava lidando com tudo isso. Entramos na casa e, logo, todos estavam na sala. Donatella estava animada, como sempre. Ela nos viu e pulou de alegria, correndo até nós.
— Iris, que bom te conhecer — disse ela, dando um abraço apertado em Iris. — Estou tão feliz que você está aqui!
Iris, com o jeito doce e tímido, sorriu para ela, a energia da minha irmã parecendo já começar a quebrar o gelo. As primeiras palavras de Donatella a tranquilizaram ainda mais.
— Eu também estou feliz, Donatella — disse Iris, sentindo-se mais à vontade a cada gesto caloroso.
Damiano estava com Serena no sofá, e logo o pequeno Nicolas veio engatinhando até mim. Ele vestia um macacão fofo de pelinhos brancos e com uma touca de ursinho que o fazia parecer ainda mais adorável. Peguei-o no colo e, assim que viu Iris, os olhinhos dele brilharam. Ele lançou um sorriso tímido para ela, como se já soubesse que ela era alguém especial.
— Esse é nosso ursinho. — Falei, e Nicolas levantou a mãozinha, dando um tchau para Iris, que logo se derreteu.
Ela se aproximou do bebê com um sorriso doce. O olhar dele estava totalmente em sua direção, e, apesar de estar no meu colo, ele parecia só querer saber dela.
— Ele é tão fofinho! — disse Iris, olhando para o bebê com carinho. — Meu Deus, ele é a cara da Serena.
— Aí, finalmente alguém para dizer isso. — Serena disse, parecendo aliviada. — Eu só escuto que ele é a cara do pai. — Todos riram enquanto Nicolas seguia olhando tímido para Iris.
O jantar foi servido logo depois, e Iris estava realmente deslumbrante naquela noite. Ela estava mais relaxada do que quando chegou, mas, mesmo assim, ainda parecia algo contida, com um certo receio de não corresponder às expectativas.
Mas eu sabia que minha família não tinha expectativas para ela. Eles apenas queriam que ela fosse quem era. Isso era o que mais me tranquilizava.
Sentamos à mesa, e o cheiro da comida deliciosa se espalhou pelo ambiente. Minha mãe, como sempre, tinha caprichado no jantar, e eu sabia que ela tinha feito com todo o carinho. Isso não passava despercebido por Iris, que expressou sua admiração assim que o prato foi colocado à sua frente.
— Está incrível, senhora Ricci! — Iris exclamou, quase como uma criança empolgada, e isso fez minha mãe sorrir com orgulho.
Eu, claro, não consegui deixar de brincar.
— Não fala isso, senão ela vai fazer você vir comer aqui todo dia. — disse, olhando para Iris.
Ela me lançou um olhar divertido, mas também não conseguiu esconder o sorriso.
A conversa ao redor da mesa começou lentamente, mas logo tomou um ritmo agradável. Minha mãe, sempre a anfitriã, fez questão de fazer perguntas para que Iris se sentisse à vontade.
— Então, Iris, como foi sua vida antes de chegar aqui? Conte um pouco sobre sua família, sobre a República Dominicana. — minha mãe perguntou, genuína curiosidade em sua voz.
Iris hesitou um pouco, mas logo se soltou, começando a falar sobre sua infância, seus irmãos e os desafios que enfrentou para chegar onde estava. Eu sabia o quanto essa parte da história era difícil para ela, mas minha família ouviu com atenção e respeito, sem pressa de interromper, apenas absorvendo cada palavra.
— Bom, eu sou a mais velha, e tenho quatro irmãos mais novos. — ela disse, com um sorriso suave. — Nossa casa sempre foi cheia, cheia de vida, de barulho. Tínhamos nossos altos e baixos, mas meus pais sempre nos ensinaram a ser fortes. — Ela fez uma pausa, como se estivesse revivendo os momentos difíceis, mas logo continuou. — Tive que sair de lá para garantir que meus irmãos tivessem uma chance de um futuro melhor.
Ela parecia tão sincera e aberta, e eu não pude evitar sentir um orgulho imenso por ela. Aquela coragem, aquela força… Era isso que me fazia amá-la cada vez mais.
Meu pai foi o primeiro a reagir. Ele colocou o garfo na mesa com um leve estrondo e, olhando para Iris, disse com sua voz profunda e firme:
— Não é fácil sair de onde você vem e começar de novo. Eu respeito isso, Iris. O mundo precisa de mais pessoas corajosas como você. — Sua aprovação era clara, e o olhar que ele deu a ela foi de respeito, de reconhecimento.
— Você tem uma força impressionante, querida. E essa força é o que vai te guiar para qualquer coisa que deseje. — Minha mãe completou suavemente.
Iris corou levemente, mas suas mãos estavam firmes na mesa, e ela parecia tão grata, como se nunca tivesse esperado ser recebida de tal forma.
— Eu só… eu só fiz o que achei que deveria fazer. Quero que eles tenham o que eu não tive. — Ela sorriu, mas sua voz tinha uma intensidade que eu amava nela.
Donatella, que estava mais quieta do que o habitual, se inclinou para a frente, seu olhar atento.
— O que você fez foi corajoso, Iris. E coragem é algo que não se encontra em qualquer lugar. — Donatella disse, e meu irmão concordou.
Meu pai então ergueu sua taça e olhou para Iris.
— À coragem, então. E a você, Iris, por não deixar o medo te parar. — Todos levantaram suas taças, e Iris, com um sorriso genuíno, acompanhou o brinde.
Eu observava cada detalhe daquela cena. A maneira como minha família a tratava, a maneira como ela estava se soltando, como a tensão estava saindo de seus ombros. Aquela noite estava sendo mais do que eu imaginava.
Olhei para ela pela milésima vez naquela noite, admirando-a. Porém, dessa vez, ela me pegou.
— O que foi? — perguntou, com os olhos brilhando.
— Nada… só… você está incrível hoje. — respondi, e ela sorriu.
A noite seguiu tranquila, com mais risos e conversas. Minha mãe serviu uma sobremesa que eu adorava, e Iris, com a mesma sinceridade com que tinha elogiado o prato principal, se mostrou encantada com o doce.
— Senhora Ricci, isso é absolutamente maravilhoso! — Ela disse, e minha mãe fez uma reverência teatral, como se tivesse recebido o maior elogio possível.
— Nada de senhora, pode me chamar de Isabella ou sogra. — minha mãe disse, e Iris sorriu.
À medida que a noite avançava, eu sabia que estava sendo mais do que uma simples refeição. Era uma construção, um momento de fundação para o que viria a seguir. Ela estava ali, com minha família, se mostrando, se entregando, e eu, de alguma forma, sentia que cada passo que ela dava me fazia amá-la ainda mais.
E foi quando o jantar estava quase terminando que minha mãe, com seu olhar atento, disse algo que tocou meu coração.
— Você, Iris, tem algo raro. Uma bondade e uma força que é difícil de encontrar. Nós estamos muito felizes por ter você conosco. — falou, e eu pude jurar que seus olhos estavam marejados.
Eu olhei para Iris, e ela parecia tão tocada quanto eu. Aquele momento, aquele acolhimento, foi o que ela precisava para entender que nossa família já a aceitava como uma de nós.
— E agora, querido — minha mãe disse, voltando sua atenção para mim, com um sorriso brincalhão — Queremos um pedido de noivado logo.
A risada que se seguiu foi geral, e Iris corou de leve, mas eu vi no brilho dos seus olhos que ela estava tão feliz quanto eu.
— Calma, mãe… tudo no seu tempo.
Ela apenas deu de ombros, rindo, e eu sabia que a noite tinha sido um sucesso. Não só para Iris, mas para todos nós.
Ao final do jantar, nos despedimos e saímos para o carro. Eu a olhei, ainda com o coração aquecido pela noite.
— Então, o que achou? — perguntei.
Ela me olhou com um sorriso suave, e eu pude ver que, apesar de todas as suas inseguranças, ela estava se sentindo finalmente parte de algo.
— Achei perfeito, Domenico. Eu me senti tão bem-vinda, tão… em casa.
Aquelas palavras foram o suficiente para fazer tudo valer a pena. E ao dirigirmos de volta para o apartamento dela, eu sabia que aquela noite seria um marco para nós dois. Um passo a mais na direção do nosso futuro juntos.