A chuva não caía. Ela desabava, como se o céu tivesse engolido a dor de Sofia e devolvesse tudo em prantos. O limpador do para-brisa m*l dava conta; a estrada brilhava em reflexos de luz e água, e o volante tremia sob as mãos dela. No banco do passageiro, o caderno — agora pesado, sagrado, vivo — abrigava o Aurora, o último pedaço da verdade que ainda respirava. O rádio chiava, mas ela não desligava. Talvez, em algum ruído, ouvisse o nome dele. — Lorenzo… — sussurrou, o som engolido pelo motor. No alto do prédio, Lorenzo ainda observava a cidade. A tempestade fazia o vidro tremer. A ausência dela fazia o peito doer. Helena se aproximou, com o semblante de quem já viu o mundo despencar e ainda escolheu ficar de pé. — Você mandou ela sozinha — disse, sem acusar. — Eu deixei ela ser

